essa é boa

Levi Nauter




Quem aspira as coisas do alto está limpando o teto de casa?


FONTE: www.verticontes.blogspot.com

[encantada, engasgada, engatada] - levi nauter

Levi Nauter





Durante minhas férias de julho (duas semanas) assisti a um filme no mínimo curioso. Dos estúdios Disney, a história é um conto de fadas na grande metrópole. Giselle é expurgada de seu reino pela malvada rainha. Onde vai parar? Obviamente, como um típico filme norte-americano, cai na Times Square. A partir daí, temos um desfile por belos lugares de Nova York. Um bem apessoado advogado acolhe a menina. Obviamente, também, ela não consegue resistir ao charme do homem.

Mas preciso dar uma dica: não assita ao filme dublado. A música, de estilo caribenho, parece ter sido gravada pela estridente (e chata) voz da Ana Paula Valadão. Era-me bastante irritante ter de ouvir, de quando em quando, o “asim ela sabe que a ama...”. Parecia o tal Diante do Trono. Mas o filme é divertido, nada que o 'subtitle' não resolva. A música – em inglês – torna-se mais audível, machuca menos o ouvido, há menos miação.

No elenco, a princesa é Amy Adams; o advogado, Patrick Dempsey; a malvada é a já velha Susan Sarandon.

Ah, o filme. Chama-se Encantada.



[tipologia cristã 2]

Mais uma do Verticontes, o Wilson T. está demais. Rir não faz mal a ninguém. O texto vem a calhar, acabo de construir e sei o que o texto propõe.



No canteiro de obra:

crente prego-sem-cabeça: edifica, mas não aparece.
crente furadeira: só dá furo e ainda faz muito barulho.
crente metro-de-bambu: útil em áreas de tensão.
crente martelo: pregador por vocação, mas faz estrago quando erra na introdução.
crente martelo-de-borracha: agride, mas não machuca.
crente grifo: aperta, mas não amarra nada.
crente prumo: é bem certinho, mas se pegar no pé de alguém...
crente bucha: segura as pontas, mas abre o bico.
crente lixa: áspero, mas acaba com as farpas maldosas.
crente arame farpado: se você bobear ele puxa teu saco.
crente peroba: pau pra toda obra.
crente trena: vive medindo o outro.
crente serrote: adora uma divisão.
crente andaime: dá apoio, mas é um perigo.
crente prego de aço: não se dobra facilmente, apesar das porradas do pregador.
crente corrente: amarra o pastor.
crente textura: dá jeito em fachadas.
crente betoneira: não deixa a massa parar.
crente guindaste: se orgulha de levar as cargas.
crente cano: vive escondido, mas quando deixa vazar algo dá um broblema...
crente válvula-hidra: limpa a sujeira, mas não apaga a lembrança.
crente tijolo-baiano: todos acham feio, mas são os mais usados.
crente caçamba: é paradão, mas muito útil.
crente chave-de-fenda: penetra nas brechas.
Crente cal virgem: dá um ar de limpeza, mas não resiste muito.
crente pá-de-pedreiro: gosta de alisar as massas... Mas também a joga.





rebanho apostólico - de Volney Faustini

Com a devida autorização, posto um texto bem criativo do Faustini, um cristão que também não se conforma com o que está por aí. Em seu texto não há mera coincidência. Reflitamos.

Para encontrar Faustini, digite: http://volneyf.blogspot.com. Vale a pena!


REBANHO APOSTÓLICO


Preacher: Diga à pessoa do lado: Eu te amo.
Povo: (burburinho) eu te amo ... (burburinho) eu te amo ...
Preacher: Mesmo que voce não conheça quem está ao seu lado, diga eu te amo,
Povo: (burburinho) eu te amo ... (burburinho) eu te amo ...
Preacher: Povo apostólico!
Povo: Amém!!
Preacher: Voces não se deixarão ser levados por ventos de doutrinas estranhas.
Povo: Amém !!
Preacher: Porque vocês são a pérola preciosa - a pérola apostólica!
Povo: Amém ! !
Preacher: Voces não deixarão de ser fiéis, de ser o escolhido, de ser o abençoado.
Povo: Amém ! !
Carinha lá no meio: A L E L U I A.
Preacher: Porque voces tomaram posse. Bata o pé com firmeza no chão - esta é a terra e o tempo que Deus lhe deu. O tempo gente, não o templo.
Povo: (burburinho e batida no chão) [pá, pá, pá] Amém!
Preacher: Voces não se deixarão abater pelas provações apostólicas nem pelas perseguições do inimigo. Vocês e só vocês pisarão na cabeça da serpente.
Povo: (burburinho e batida no chão) [pá, pá, pá] Amém!

Preacher: Não aceitaremos injustiça - mesmo que as provações não tenham explicações ou justificativas plausíveis! Amém?
Povo: Amém ! !
Preacher: Podem se assentar... Vocês são nação apostólica. Repita comigo: Eu sou único, eu sou singular, eu sou um indivíduo!
Povo: Eu sou único, eu sou singular, eu sou um indivíduo!
Preacher: Não me deixarei ser levado por ventos de doutrinas outras.
Povo: Não me deixarei ser levado por ventos de doutrinas outras.
...

Preacher: Agora que terminou a lavagem apóstolica dos meus pés, venham beber dessa água ungida.
Povo: (em fila) glub glub glub
Preacher: Amém ?
Povo: Amé ... cof, cof ... mém



[jesus] - Pedro Luis e a Parede com Ney Matogrosso

Essa é uma obra típica da nossa brasilidade. Viva o povo brasileiro. Viva a arte!

Aristóteles já dizia que deveríamos "brincar para ser sério". De minha parte, penso que a visa sem riso é sem graça.

A composição a seguir é coletiva, de Gustavo Valente, Lucas de Oliveira, Dado, André Passos, Rodrigo Cabelo, Beto Valente E Pedro Luís. O suingue é maravilhoso - essencialmente o contra-tempo muito bem executado pela percussão. As vozes do sempre bom Ney e a bela interpretação poética do Pedro Luís dão o toque magistral para a música. Mas a leitura da poesia também é importante. Leiamos, então, Jesus:


Salve, salve, simpatia!
Dizem que Jesus morreu na cruz
mas eu tive com ele na Dutra, em Queluz
levava na cabeça um tabuleiro de cuscuz
cocada de céu, cocada de luz
cocada de céu, cocada de luz
cocada de céééuuu...

Jesus
Jesus, Jesus
Jesus

Galo cantou
Jesus
Pneu furou
Jesus
Vestibular
Jesus
Atravessar o mar
Moisés
Sobre as ondas com os pés
Jesus
Como Jojó de Olivença
Zulu

No mar da África do Sul
No mar da África do Sul
No mar da África

Jesus, Jesus...

Fazenda do Seu Jesus
Fazenda do céu, Jesus

Tem cachoeira
Fonte de água viva
Também faz sol
Chuva quando precisa
No São Francisco
piracemas de alegria
Belém-Brasília
feijãozinho da Dona Maria.

Jesus, Jesus...

Tatu andou
Jesus
Tatuapé
São Paulo
Bicho pegou
Noé
Bicho de pé
Jesus
Faltou a luz

Jesus, Jesus...

Jesus, Jesus
Vamos tirar Jesus da cruz
Vamos tirar, vamos tirar
Vamos tirar Jesus da cruz

Nós vamos tirar Jesus da cruz
porque o rapaz está pregado
naqueles pedaços de pau
há mais de dois mil anos
Vamos deixar ele com os pés
e as mãos livres
que ele vai pular, dançar
virar cambalhota
e fazer muito melhor.
Mas é muito melhor!

E vai no lombo do cavalo
galopando pelo espaço
Salve a agricultura celeste

Salve a agricultura celeste
(Salve a agricultura celeste)
Salve Jorge, salve simpatia!
(Salve a agricultura celeste)
Salve Mané Garrincha
e Clementina de Jesus
(Salve a agricultura celeste)
Salve Chico Science
e Chico Xavier
(Salve a agricultura celeste)
Salve Raul Seixas
e Chacrinha, o Velho Guerreiro
(Salve a agricultura celeste)
E paz na Terra
a todos os seres
(Salve a agricultura celeste... )


enquanto isso

Levi Nauter

Enquanto curto minhas férias de julho, estou polindo alguns textos, revendo conteúdos para as aulas que ministrarei no segundo semestre, lendo bastante, ouvindo muita música. Amando minha amada Lu e contribuindo - na medida do possível - com os acabamentos da tão sonhada casa.
Porém, enquanto isso, infelizmente, fui 'zapear' os canais de TV e encontrei o que não queria: um programinha (é no mínimo isso que posso chamar para não baixar o calão) de televisão chamado A VERDADE NA TV com o (pseudo) Reverendo João Batista. Dentre as pérolas:
- Venha receber o "pente ungido" nessa grande cruzada.
E o comercial anunciava: "O grande dia da sua vitória está chegando. O reverendo estará na gruta determinando a sua vitória" (anúncio para o Rio de Janeiro). "Nesse dia, pela primeira vez no RJ, estará sendo distribuída a medalha COMIGO NINGUÉM PODE".
É o fim da várzea. É por essas e outras que não me arrependo de ter sumido dos templos. Eles me parecem inúteis. A vida real me é mais interessante, mais lúdica, mais divina.
Pastorada assim tinha que ter vergonha na cara.
Tô fora.

desconfianças

Levi Nauter



Desconfie dos que erguem as palcas nas quais se lê “sou cristão”, ou “administração cristã”, ou “empresa cristã”. Também merecem nossa desconfiança os (pseudo) líderes que se auto-intitulam 'apóstolos', 'bispos', 'profetas', 'reverendos' e até 'pastores'.

Sobretudo, tenham um pé atrás com os que parecem ter consultado alguma numeróloga ou taróloga; afinal, ao serem perguntados pelo nome respondem: “aqui quem está falando é o PASTOR ZEZINHO”. Como assim Pastor Zezinho? O nome não era Zezinho? Sim. Era. Agora fui consagrado. Assim, parece que quando deus 'consagra' ele acrescenta um status.

Não é esse o meu deus.


Pra não dizer que não falei de flores, desconfie também daqueles líderes que não trabalham, mas que, ironicamente, têm um bom estado financeiro. Esse deus já me interessa.


Passe a desconsiderar o deuzinho pobre da mídia. Aquele que cura dor de barriga, dor de cabeça, dedo destroncado, olho roxo e, enquanto isso, deixa problemas muito maiores e relevantes à deriva. Esse tipo de deus também não me interessa.


E o céu?


Ontem caminhava com minha mulher (o 'minha' não significa dominação) e vi algumas mulheres feiamente trajadas (feiamente mesmo!). Todas com a Bíblia na mão (o que, para mim, diz bem pouco). Disse a ela: - se o céu for cheio de gente feia assim o inferno deve ser mais atraente. Ou, quem sabe?, todos sendo anjos as coisas fiquem melhores.


A esperança é a última que morre.

[tipologia cristã] diálogo

Levi Nauter


Um leitor especial andou passando pelo meu blog: Wilson Tonioli. O parceiro tem um interessante blog (www.verticontes.blogspot.com) no qual posta idéia com um bom-humor sem palavras. Foi donde retirei essa “tipologia cristã” - lá com o nome 'Hollywoodianos e afins'. Aproveitei e incluí os comentários do dia, mesmo dessa postagem. Espero não ir para a fogueira nem ser processado pelos fundamentalistas de plantão.


A tipologia é a seguinte:


Crente Walt Disney: sempre tem uma estória pra contar.
Crente Álien: baba quando fala.
Crente Predador: invisível, mas faz um estrago...
Crente Rambo: ninguém agüenta mais suas missões.
Crente Macaulay Culkin: sempre se esquecem dele.
Crente Magaiver: acha solução pra tudo.
Crente Shaekspare: no púlpito é bom em pregar peça.
Crente Richard Gere: faz apelo até às prostitutas.
Crente Johnny Deep: é pirata, mas agrada o público.
Crente Titanic: é profundo, mas ninguém quer embarcar na dele.
Crente Bergman: é “cabeça”, mas nada popular.
Crente Indiana Jones: faz pose de professor certinho, mas adora uma aventura.
Crente Almodóvar: é sempre um problema para os fundamentalistas.
Crente Harry Potter: chegado numa mágica e se sente O escolhido.
Crente homem-aranha: seu maior poder é amarrar os outros.
Crente Sexto Sentido: está morto e não sabe.



Acréscimo a partir dos comentários:

Crente Spilberg: é uma super produção, mas no fundo sabemos que não é lá grande coisa.
Crente M.G.M Studios: é um leão, mas só na tv.
Crente Charlin Chaplin: Faz um grande papel mesmo sem falar nada.

Crente Freddy Krugger: Que te assusta até nos sonhos.
Crente Cinema Brasileiro: Só fala palavrão.
Crente Hitock: Adora fazer Terror e Premonições.


É bem possível ampliarmos essa listagem.
Contribuições são bem-vindas.


[evangelho à força] - levi nauter


Levi Nauter





[evangelho tomado a força] – levi nauter

Encontros fraternos são como sementes. Neles a gente conversa longamente, toma água, chimarrão, café, pastelão, chá, refri, entre outras iguarias. O papo rola solto, despretensioso, desarmado. Ri-se, quase chora-se, conta-se as novidades ou 'velhidades', mas também pode não se falar nada. Um simples abraço fraterno diz tudo. Ocorre que a semente é meio assim: sem grandes pretensões. Porém, de repente, ela cai, brota e pode nascer uma flor ou, no dizer de Gilberto Gil1 (na belíssima Drão), “Morrenasce, trigo, vive morre, pão”.

Aquele bate-papo, aparentemente sem muita importância, vai gerando bifurcações em nosso interior. É como se ele criasse redes internas de assuntos que se checam e coadunam ou se dicotomizam. Foi um pouco do que aconteceu comigo. Obrigado Guto, Camila, Timóteo e Patrícia.


Num certo momento da nossa conversa surgiu um assunto do qual não me orgulho tanto quanto deveria, ou tanto quanto alguns o fazem. Nasci num berço cristão. O detalhe é que nasci num berço fundamentalista, pentecostal. Preferiria ter nascido num berço comum, menos fatalístico, menos repressor, menos desumano. Ter nascido num lar dito cristão, e ainda por cima fundamentalista, não me permitiu ser gente até uma certa data.

Apresentaram-me um Deus carrasco, estraga-prazer. Mostraram-me, na verdade, um escape do inferno. Meu maior desejo era fugir do inferno. Uma vez ouvi uma sermão na qual o preletor dizia “a mim basta ficar em qualquer cantinho, desde que eu esteja no céu”. Um céu assim mais parecerá um inferno.

Desde cedo aprendi o discurso igrejeiro. Ele me aprovava perante a liderança fundamentalista pentecostal. Sabia as palavras de ordem, tanto para cantar quanto para orar no microfone. Sabia quais músicas levavam o povo ao ‘delírio’, ao “céu”. Mas cansei de tudo. Como diria Rita Lee, “me cansei de lero, lero”. Abandonei uma denominação tida como detentora da verdade e do pioneirismo evangélico no Brasil. Fui para uma, digamos, mais light. Ledo engano, havia um legalismo velado, havia a discrepância discurso x prática tanto quanto em outra denominações. Desanimei. Hoje sou um cristão sem igreja. Sou um descongregado. As denominações, na perpetuação da Teologia do Medo, optam por chamar isso de desviado. Não me importo.


Disse isso porque as pessoas que não nasceram num berço fundamentalista não conseguem entender um Deus carrasco, um deus tipo câmera de reality show. Quem não vem desse mundo opressor não compreende a dificuldade que é mudar o conceito de Deus Justiceiro para o Deus Pai. O fundamentalismo conhece o Deus Pau, não o Pai.

Antes de continuar, convido você a ler um trecho da música de Chico Cesar e Vanessa da Mata2, chamada A força que nunca seca:

Já se pode ver ao longe

A senhora com a lata na cabeça

Equilibrando a lata vesga

Mais do que o corpo dita

O que faz o equilíbrio cego

A lata não mostra

O corpo que entorta

Pra lata ficar reta


É exatamente esse o exercício que um ex-fundamentalista faz cotidianamente. A fim de que tudo fique bem se faz uma força para ter esperança. Opta-se por um outro evangelho, um evangelho mais humano (não humanista como alguns gostam de taxar), de mais tete-a-tete com as pessoas. Um evangelho sem dados estatísticos, sem pirotecnias, sem julgamentos (embora com opinião). A lata reta significa estar vivendo (no gerúndio mesmo), lutando contra um evangelho midiático. A lata reta é a capacidade de servir a Cristo, mas em off, sem ninguém ver – a não ser Deus. A lata reta é ser sal e luz fora das quatro paredes igrejeiras; afinal, é fora que interessa.

Mas há algo que a lata não mostra. O corpo se entortando para equilibrá-la. É o evangelho velho querendo tomar o lugar do outro evangelho. O evangelho que se fixa num templo contradizendo o evangelho de Jesus que saía a visitar o submundo. O corpo se entorta para que o evangelho fique mais reto, mais digno, mais abundante. O corpo se entorta porque não há receitas; para viver aventuras com Deus não há script.

A poesia inicia com “se pode ver ao longe” porque esse evangelho não é popular, nem populesco apelativo de multidões. É um evangelho para poucos, para os que não precisam de alguém que os guie como se fossem cegos: vai pra cá, vai pra lá. É para poucos porque não possui ‘sete passos para...’. Não é popular porque Deus brinca de esconde-esconde: está na tempestade, na brisa suave, no ônibus, no trem, no frio aqui do Sul do Brasil. Ele também está na arte escrita, esconde-se por trás das palavras; na poesia de um Neruda; está no reflexo de um Picasso e todo-poderoso numa Tarsila do Amaral. Está na textura de um quadro. Está na sonoridade dos instrumentos musicais.

Se pode ver ao longe porque não tem redes de mídia. Se faz no atelier, na biblioteca, na mente do compositor, do poeta. Sobretudo, está naqueles a quem criou, com tanto afinco, à sua imagem e semelhança. Por isso um bate-papo é semente.

O Deus que eu sirvo é um Deus que se contextualiza e, por isso, agora, é pós-moderno. Por isso não quer guerra; respeita as diferenças e exige isso de mim. O Deus que eu sirvo alivia o fardo e torna o jugo suave. Um evangelho que não faz isso não me interessa. O evangelho que mostra mais o inferno que o céu é um evangelho desgraçado, nele não há Graça.

O Deus que eu sirvo me dá vida em abundância. Não quer que eu tenha medo do amanhã; não quer que eu me sinta acuado pelos medalhões de um evangelho torno, vesgo. Deu-me a oportunidade de conversar com muita gente e reter delas o que é bom.

Só esse evangelho me permite viver em novidade de vida. Dependo completamente de Deus. Ele é a minha força. O resto é o resto.



ILUSTRAÇÃO
Retrato de Pagu, por Di Cavalcanti.In ZATZ, Lia. Pagu. São Paulo Instituto Callis, 2005. Projeto gráfico de Camila Mesquita. Coleção ?A luta de cada um?. P.33.




1Caetano Veloso, no DVD Prenda Minha, interpreta de modo maravilhoso essa música.

2 A Vanessa pôs essa canção no seu primeiro CD. Com Chico Cesar é possível encontrar na coletânea Novo Millenium. As duas interpretações são ótimas, cada um com seu estilo pessoal, o que enriquece a arte.










frases que ouço porque saí da Igreja 7 - levi nauter

Levi Nauter


Cheguei para trabalhar na escola e econtrei o bilhete acima Qual será a intenção da pessoa que o deixou aqui? Correção gramatical? Converter-me? Prefiro achar foi uma brincadeira.

Acho um mau gosto estético o que, de antemão, reflete possivelmente aquilo que se ouve no templo.




Caetano e Cristo - por Mark Carpenter, Ultimato-

Quem pensa que sabe como são os africanos nunca imaginaria que Mia Couto fosse natural do continente negro. O romancista mais celebrado de Moçambique é branco, enche seus livros do realismo mágico da tradição latino-americana e tem um estilo que lembra Guimarães Rosa. Foi contado entre os melhores escritores africanos do século 20.

Em entrevista recente ao Estadão, perguntaram-lhe se há influência brasileira em sua literatura. Respondeu: “Sim. Ela veio justamente da música de Chico, de Caetano. Muitos músicos moçambicanos tinham tentado cantar em português, mas o português duro, rápido, de Portugal, não tinha musicalidade. Aí ouvimos Chico, Caetano, Gil e descobrimos que o português poderia ser outra coisa. Foi uma descoberta.”

Talvez tenha sido crítico demais ao português dos fadistas e trovadores, mas a descoberta de que a língua da mera comunicação corriqueira poderia ser também a língua da poesia e dos sonhos abriu-lhe um novo mundo. Muitos anos mais tarde, o comitê Nobel também reconheceu que a língua portuguesa possui a maleabilidade necessária para ser talhada por alguém com o talento de José Saramago. Aqueles que se importam com os idiomas enxergam na nossa gramática, nos nossos vocábulos e na nossa sintaxe as ferramentas para criar e perpetuar aquilo que só existe na língua. O português pode ser usado para emocionar, agregar e inspirar.

Como cristãos, temos o privilégio de servir e adorar a um Deus literário. A linguagem da Bíblia evidencia sua preocupação com a arte de expressar-se. Há nela não apenas a Verdade Revelada, mas as múltiplas verdades reveladas por meio de uma riqueza estonteante de poemas, acrósticos, canções, parábolas, paralelismos, hipérboles, metáforas, figuras de linguagem e artifícios da retórica. Não resta a menor dúvida de que Deus — o Verbo — se relaciona conosco através da Palavra, e que esta palavra tem forma intencional, bela e artística. Leland Ryken afirma que “os escritores da Bíblia e o próprio Jesus Cristo perceberam que é impossível comunicar a verdade de Deus sem usar os recursos da imaginação. A Bíblia faz muito mais que apenas sancionar o uso da arte. Ela demonstra que a arte é indispensável (“The Imagination as a Means of Grace”, Communiqué, 2003).

Penso, às vezes, que a linguagem usada em muitas igrejas é como o português “duro e rápido” que Mia Couto ouvia quando criança. É utilitária, descritiva e funcional, mas carece do tipo de imagística e musicalidade que despertam a alma. Como pastores e líderes, concentramo-nos no conteúdo de nossas doutrinas em detrimento de sua forma. Esquecemos que a Bíblia não divide a arte em sacra e secular. Nela, a arte possui valor igual tanto em ambientes de louvor quanto do cotidiano (Nm 21.16-18; Is 16.10; 52.8-9).

Como seria se nossos pastores se importassem tanto com a linguagem quanto se importam Chico, Caetano e Gil, assim também como Davi, Salomão e Jesus? Tenho a impressão que, se a poesia de nossas teologias saturasse as nossas palavras, os muitos Mias Coutos das nossas congregações de repente ouviriam algo diferente, algo novo, capaz de agarrar suas imaginações, inspirar-lhes e enviar-lhes correndo de volta à Palavra, fonte de nossa inspiração.


• Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.


Fonte: Revista Ultimato [http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2102&secMestre=2154&sec=2177&num_edicao=312]




frases que ouço porque saí da Igreja 6 - levi nauter

Levi Nauter



Um pastor dessas modernas megaigrejas neopentecostais, que comecei chamar de "créupentecostais", em programa de rádio, tentando captar a atenção dos ouvintes para uma de suas reuniões 'de vitória'.

- Deus tem uma bênção que vai mudar sua vida. Dues quer que sejamos abençoados, muito abençoados. Ele tem a cura para você. Afinal:
- você já ouviu falar de algum paralítico no céu?
- você já ouviu dizer que um anjo estava com dor de cabeça?


PS: Essa, nem com Xico Xavier dá pra agüentar.

frases que ouço porque saí da Igreja 5 - levi nauter

Levi Nauter


Um homem a quem respeito e de quem muito discordo.

- Olá, senhor! Você não acha a igreja inútil? Afinal, por que ela não está nem aí para as crises nos relacionamentos - pai contra filho, filho contra pai, irmão contra irmão?
- Olha, disse-me o "obreiro", as pessoas só vão à igreja porque têm uma eternidade a enfrentar!

Fiquei pensando que, se assim for, mais inútil ainda ela é. Onde já se viu ser cristão por medo do inferno?

Espero que mais igrejas fechem as portas.

frases que ouço porque saí da Igreja 4 - levi nauter

Levi Nauter


Encontro um rapaz no caminho que me pára e logo diz:
- Muito fui abençoado quando tu cantavas na igreja...
- Ah é? Que bom, fico feliz!
- Onde estás congregando?
- Não estou. Acho que a igreja não me encanta mais.

- Vou orar para Deus te restituir!

Esse é o discurso igrejeiro: quem está fora não presta. Na concepção da Teologia do Medo, o forasteiro está perdendo. Restituir o quê?


[fui ao culto] - levi nauter


Levi Nauter




"Basta que a poesia seja ouvida para que a morte se ponha a correr." Rubem Alves





Há muito não participava de uma 'concentração' iniciando às 18h. Era domingo, o dia estivera maravilhoso e o início da semana deveria ser bem marcado. A casa estava lotada, umas setecentas pessoas alvoroçadas. Havia adoradores e quem ministrava era uma bela mulher, com rara afinação e timbre vocais.

A mensagem era maravilhosa. Um leque de temas incríveis. Bem escrito, fugia do senso comum, daqueles apelos fatalisticos tão comuns no meio atual.

Todas as pessoas ganhavam, na entrada, um esboço com toda a programação. Nele, foto da ministra de louvor e o tema das mensagens. Esqueci de dizer: eram várias mensagens. Incrivelmente, ninguém possuía ar de cansado, de quem quisesse ir embora. Acho que o culto poderia durar mais umas duas horas e ninguém sairia, o que não é tão normal assim.

Todos os fiéis cantavam os louvores euforicamente. Havia choro, muitas palmas, bastante risada, um bom número de silêncio e muito, muito êxtase. Teve até profecia, com nome e tudo. "Você, você", uma rara mescla de simplicidade e profundidade. Foi bênção pura!!!

Essa é a sensação que tenho depois de deixar o belo Theatro São Pedro, onde assisti - com minha amada Lu - a um espetáculo indizível da sempre maravilhosa Mônica Salmaso. Pois, ela estava lançando o CD "Noites de gala, samba na rua", com participação do não menos excelente quinteto Pau Brasil. Um show desses vale cada centavo que se paga.

leia um bom conselho - levi nauter

Levi Nauter
Retomei as sempre ótimas leituras de Gondim. Pois ele está escrevendo uma série de textos intitulados "Mentoria". O último texto vem a calhar exatamente com o que penso sobre a intelectualidade e, por isso, resolvi postá-lo. Os outros podem ser lidos no seu site: www.ricardogondim.com.br.
Falemos de literatura, uma área em que sou leigo, mas um apaixonado. Naquela conversa, eu já havia dito que adoro livros (aliás, muito obrigado pelos antigões que você me deu de presente). Portanto, meu primeiro conselho é simples: leia. Faça da leitura primeiramente uma disciplina; só depois de um tempo de trabalho árduo, você vai gostar e desfrutar de um bom livro.
A mesma regra que aplico na música, uso na literatura. Para mim não existem livros cristãos e livros seculares, apenas livros bons e ruins. Um Dostoievski é bem mais espiritual e teológico do que muitos manuais pragmáticos que os crentes americanos empurram aqui como literatura cristã.

Leia diversificadamente. Biografias, hagiografias, romances, poemas, novelas, contos, tratados filosóficos, teológicos, sociológicos, história universal, história da arte, história das religiões, história da Reforma, história dos jesuítas, tudo me fascina e de tudo tenho sede de saber um pouco mais. Às vezes vou a uma livraria e tenho vontade de sentar-me numa daquelas poltronas e nunca mais sair até que consiga comer cada palavra escondida nos tomos – as paredes do céu estarão recobertas de estantes entupidas de livros.

Leia sempre com uma caneta ou um marcador na mão. Eu posto no meu site frases parágrafos e pequenos textos que me chamaram a atenção. Vou revelar um segredo. Decidi que não postaria no site nada que copiasse da internet ou de livros de citações. Meus livros são rabiscados e sublinhados para que eu me lembre mais tarde do que me chamou a atenção. É verdade, a leitura fica demorada, mas é muito mais produtiva.

O mundo evangélico tem se mostrado bem superficial. Sabe a sensação que tenho quando escuto um pregador americano? "Quem ouviu um, ouviu todos”. A perda dos conteúdos, o empobrecimento da linguagem, a repetição enfadonha dos mesmos argumentos, vem da falta de leitura. A maioria deles lê apenas os seus pares; muitos morrem de medo de se exporem aos questionamentos de “ateus”; quase todos se contentam em “solidificar” o que já sabem. Resultado: o mundo gospel se restringe ao que os gerentes de marketing das editoras decidem como material “bom”. Pergunto a mim mesmo, muitas vezes: “Qual será o futuro de uma geração que forja sua esperança nos livros do Tim LaHaye?”.

Richard Dawkins causou grande alvoroço com um livro que pretendia combater a religião. Acredito que motivado pelo 11 de setembro Dawkins acusa a religião de fomentar intolerância. Porém, quando trata do cristianismo, ele sequer considera os teólogos de peso acadêmico, como Paul Tillich ou Dietrich Bonhoeffer. Dawkins se contenta em bater nas teologias ralas, comercialmente adaptadas, que a mídia popularizou nos Estados Unidos e que nós consumimos acriticamente no Terceiro Mundo. Cheguei a concordar com Dawkins em muitos pontos do seu livro, mesmo divergindo radicalmente de seu ateísmo militante.

Considero que as elaborações teológicas dos evangélicos se descolaram da realidade por falta de leitura. Quando ouço um desses apóstolos alardear que sua oração é “poderosa”, sei que ele é uma alienado. Tenho vontade de convidar essa gente a dar plantão na clínica de reabilitação e fisioterapia que ladeia o meu mestrado. Vejo as ambulâncias trazendo crianças deficientes, muitas carregadas nos braços das mães devido aos espasmos involuntários causados pelas síndromes e nessas horas questiono: “se eles têm tanto poder e são tão santos, não deveriam exercitar a fé deles (a cacofonia é proposital) aqui?”.

Portanto, leia, leia, leia. Permita-me sugerir. Nos romances, devore: tudo de Dostoievski e Tolstoi; “O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas; “Os Miseráveis” de Victor Hugo; “O Vermelho e o Negro” de Stendhal; “A Relíquia” de Eça de Queiroz; “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis; “O Quinze” de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas” de Graciliano Ramos; “O Eleito” de Thomas Mann; “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago; “Paula” de Isabel Allende.

Não esqueça da poesia. Fernando Pessoa, com todos os seus heteronômios; Pablo Neruda; Jorge Luis Borges; Vinicius de Moraes (sou apaixonado por sua prosa poética); Carlos Drummond; Clarice Lispector; Mario Quintana. Familiarize-se com o Rubem Alves em suas duas fases. Ele é ao mesmo tempo um teólogo brilhante e um poeta brincalhão; bata os dois no liquidificador e depois beba o sumo de sua teopoética, tão magistral.

Aprenda a apreciar música com letras ricas em nuances de aliteração, rimas e metáforas - Chico Buarque, Djavan e Caetano Veloso são craques.
Com esse fundamento literário, faça a sua teologia, construa a sua percepção. Leia a Bíblia com os olhos de um cidadão do mundo que percebe as angústias, paradoxos e desesperos da humanidade. Quando estudar os clássicos da teologia, sinta-se com liberdade de questionar os seus pressupostos. Para não enrijecer dentro de uma dogmática intolerante, coloque a vida, a riqueza da arte e beleza da criatividade no seu estudo. Não permita que a sua teologia fique presa na torre de marfim dos sectários.

Espero estar ajudando.

Soli Deo Gloria.
Esse conselho serve a cada um de nós. Leiamos!

[descongregado] – levi nauter

Levi nauter
Num dia desses, enquanto curtia meus últimos dias de descanso, num bonito centro de compras encontrei algumas queridas pessoas que não via fazia pelo menos uns quatro anos. Cumprimentamo-nos, alegres, houve uma fraternidade que não se encontra com qualquer pessoa. De repente, uma pergunta desconcertante:
“- Vocês estão congregando aonde?”. “Em lugar nenhum”, respondi, “consideramos que, devido a algumas circunstâncias, o melhor seria ficar de fora, por enquanto”.
Já em casa, comecei a refletir tanto na pergunta quanto na minha resposta. Devo repetir para ratificar que a cena foi-me desconcertante. Sempre que falo com algum cristão-evangélico simpatizante do pentecostalismo ou pertencente a essas ‘igrejolas’ advindas de movimentos pentecostais (pessoas que se rebelaram, saíram de uma denominação e criaram outra nos mesmos moldes) fico esperando alguma pergunta que vá pelo caminho já descrito. Infelizmente, ainda parece ser importante estar ligado a alguma denominação – de preferência uma dessas famosas, com programa em uma rádio AM ou FM ou, melhor será, na TV.
Sinto muito, não atendo a essas exigências. E se depender de mim tão cedo isso não acontecerá. Por isso resolvi escrever sobre minha descongregação.

A minha saída da Assembléia de Deus e da Igreja Batista (CBN) não está atrelada a uma decepção pessoal com alguém; tampouco tem a ver com alguma decepção com Deus. Minha relação com as pessoas sempre foi calcada na racionalidade, no bom senso, no respeito, na responsabilidade, na autonomia alheia e no direito às diferenças. Dos seres humanos nunca esperei mais do que respeito. Quero ser respeitado e ponto, porque é isso que faço. Nisso não há negociação. As pessoas, portanto, sempre me respeitaram; as que agiram diferentes, simplesmente foram ignoradas. Parece-me o único jeito de se viver mais tranquilamente num mundo conturbado. Tenho uma relação respeitosa com todas as pessoas das denominações pelas quais passei. Porque fui músico durante anos, conheço e tenho contato com muitas pessoas, algumas das quais até merecem o título de irmão e irmã.
Minha relação com Deus, então, tem sido cada vez melhor. Ele sempre respeita a decisão de seus filhos, decisão que sempre vem acompanhada das conseqüências – como qualquer outra relação. Talvez o grande diferencial seja a graça divina, incomparável em termos humanos.
Saí da igreja porque ela, nos moldes atuais, não me apetece, não me atrai, não alivia meus fardos nem torna suave meu jugo. Indo a um templo é mais fácil emburrecer. Lá, subestimam minha capacidade de inteligência. Os discursos são sempre os mesmos, os textos bíblicos idem. Esqueceram os evangelhos, se agarram assustadoramente ao que lhes interessa no Antigo e no Novo Testamento. Pedido de dinheiro e falação sobre pecado, pecado e pecado é o que pensam saber. E o pecador e o ‘mão-fechada’ são sempre os fiéis; nunca ouvi um sermão no qual o líder admita que erre, que é pecador. Parecem estar num determinado patamar acima dos fiéis.
A música é pobre, os ministros só sabem imitar. Se há alguma riqueza, ela vem do exterior (em língua inglesa, de preferência) e é empobrecida por pseudotraduções. O sermão é uma tristeza, a oração é ensaiada e os milagres uma aberração. Concordo com o pastor Gondim: “Eles dão a entender que Deus se especializou em curar caroço, dor no braço, mal estar em velhinhas, mas se esqueceu das síndromes de Down, das paralisias cerebrais e das quadriplegias. Sou mortal, finito e bastante pecador, mas posso afirmar que se fosse Deus, com disposição para operar maravilhas, eu escolheria os mais carentes, os mais desamparados, os mais doloridos.”
Nenhuma programação evangélica (pelo menos no Rio Grande do Sul) trabalha com a inteligência. Chacrinha parece até profeta, nada mais se cria, tudo se copia. E a cópia que vale é aquela que, no original, foi escrita em inglês. Inclusive aqueles que protestam. Afinal, quanto artigos já foram escritos que dizem o que Brian McLaren vem dizendo? Ocorre que um vem do norte e os outros são santos de casa. Brian é uma espécie de respaldo para o brasileiro dizer coisas parecidas sem ser rechaçado.
Para se viver bem é melhor desligar-se da igreja. O melhor é ouvir muita música brasileira para buscar a beleza da poesia (claro que isso não está em tudo). Visitar museus, galerias de arte, ir ao teatro, ao cinema. Fazer um almoço, um café ou uma janta com alguns amigos. Namorar bastante, ler muuuuuuiiiiiittto. Curtir a natureza, conversar com o máximo de pessoas possíveis, não se envolver com a política-partidária (embora dela saber o máximo). Orar, cantarolar. Ser honesto, ter vergonha na cara, honrar os compromissos, trabalhar, estudar, meditar, dormir. Não dicotomizar céu e terra, mundo e mundo.
Tento esquecer a igreja, por ora. Há mais o que se fazer de bom. Deus não me ama porque vou à igreja toda semana, todo mês, todo ano. Ele me ama porque assim Lhe aprouve. E como é bom saber-me amado por Ele!!! Nada mais importa.
É fora da igreja que a liberdade existe. É fora dela que a gente vive sob os domínios do Espírito. Não fica aquele líder enchendo: “faça isso, não faça aquilo”. É fora que podemos viver sem receitas. Também é lá que somos confrontados no cotidiano. Num templo, em geral, só há concordâncias; as divergências ficam escondidas, sob panos quentes, disfarçadas de submissão ou cobertura espirituais. Que balela!
A instituição igreja deveria morrer. Enquanto ela existir precisará ser sustentada e nós seremos cerceados e intimidados a sustentar um sistema que move cifras milionárias. O pior vermos ‘profetas’ sem nenhuma timidez pedindo dinheiro (ajuda) ao mesmo tempo em que oferecem seus produtinhos – fruto exatamente do dinheiro alheio. Ou será que toda essa gente já nasceu nadando em dinheiro?
Prefiro o evangelho de Cristo mais interessado no tete-a-tete do que em grandes concentrações de fé (ou feses?).
Cansei de igreja, não de Deus. Este é a razão de eu estar vivo.
Glórias a Deus!

[pais e filhos] - texto 16 - levi nauter


Levi Nauter





...os filhos são herança do Senhor ( Salmos 127.3)





Antes de tudo, fica a minha homenagem à maravilhosa banda de rock Legião Urbana. Hoje, aos trinta e três anos, consigo entender (apesar de discordar) por que a igreja que eu freqüentava odiava o Renato Russo, em minha opinião a cabeça pensante do grupo. Os profetas
[1] são odiados.

Com exceção da frente, onde há mato, nossa casa provisória é cercada por outras casas. Casualmente, ou não, em todas essas residências há crianças. Uma com aproximadamente seis meses, outra com uns dois anos e ainda outra com talvez cinco ou seis anos de idade. Há algum tempo venho observando-as. Tem sido uma experiência rica.
Outro dia notei que uma delas, um guri, brinca sozinha na maior parte do tempo. Os pais trabalham e a avó dá uma "reparada". Incomodou-me
[2] o fato dele só jogar bola. O dia inteiro. O legal é que ele usa da criatividade; afinal, narra, é o próprio jogador narrado e ainda faz os ruídos de uma torcida imaginária. Em muitos momentos chega a ser cômico assistí-lo xingando a si próprio: - Na traaaveeeee!!!!!!! (vê-se ele fazendo um sinal da cruz e retomando uma jogada).
A outra criança, uma menina. Ela é linda. Eu e a Lu não cansamos de olhá-la e de dizer, embasbacados: - oi!?. Ela nada responde, simplesmente se esconde e de seu esconderijo ouvimos apenas umas acanhadas risadas. O que mais nos impressiona (e positivamente) é o quanto os pais conversam com ela, beijam-na. Não ouço, mas tenho certeza, pelas ações, que essa menina é extremamente amada pelos pais. Em três meses que lá moramos, nunca ouvi uma palavra de desdém, de pouco-caso, dirigida à filha. Só ouvimos palavras de carinho, de ensino, de amor recheadas de afeto. A criança está numa fase em que busca mexer em tudo, quer pegar tudo. Admira-nos a calma, a paciência e a persistência com as quais os pais lidam diariamente com a filhota. Nitidamente nota-se a menina imitando os pais. Assim, é extremamente curioso notá-la cuidando das bonecas e dos filhotes de uma cachorra.


Choro e mais choro é o que ouvimos da terceira criança. É uma raridade escutar aqueles gritinhos típicos de quem está descobrindo a voz, o volume do som, os barulhos dos lábios, da língua, dos dedos na boca etc. O comum é o choro. Parece haver uma única razão para não chorar: ser embalado[3]. Dessa forma, a mãe, e algumas (poucas) vezes o pai, vive para embalar a criança. Não é raro ver-se a criança no colo da mãe - que dá meio passo para frente, meio para trás; ou sentada, mas, empurrando o carrinho de bebê pra frente e pra trás - ad infinitum. A cena cômica fica por conta do pai que, desajeitado, além de imitar a mãe acrescenta um "táa, táa, táa", como se dissesse "calma, filho, calma!".


As três situações põem-me a pensar. E lembram-me de uma outra cena familiar. Uma criança cujos pais conversavam com ela; ainda aconselhavam outros pais a seguirem o seu modelo de criar os filhos. Talvez uma infelicidade: criticavam quem criasse os filhos de outra forma. A criança pequena, que ouvia os pais, cresceu, passou pela adolescência, chegou na fase dos namoros, começou a desafiar os pais - ainda que discretamente. De repente, os conflitos aumentaram e, por fim, o discurso dos pais foi por água abaixo. Então tudo aquilo que seus pais 'pregavam' como sendo modelo foi-se; todo o discurso paterno e materno tornou-se raquítico. Logo, aquele que fora criança será pai/mãe. Logo, o que era pai/mãe deverá refazer o discurso. Todas as teses sobre criação de filhos terão de ser reconstruídas, revistas. Será necessário olhar de um outro ângulo.

Neste 2008, se tudo andar como pretendemos, eu e a Lu seremos pai/mãe. Realizaremos nossa maior obra, teremos uma herança do Senhor. Ela, a criança, será muito, mas muito, benvinda. Na verdade ela já existe em nosso pensamento, muito do que fazemos é imaginado como se tivéssemos um filho ou uma filha. E o que isso tem a ver com as cenas apontadas acima? Aprendizagens.


Como disse, as três situações põem-me a pensar. De um lado parece estar claro que não existem receitas na criação de filhos e filhas. Por outro, contudo, a situação concreta que nos circunda está embebida de exemplos tanto bons quanto ruins.


Enquanto discorro sobre filhos e filhas, a primeira cena parece me previnir que caberá a mim mostrar 'mais' do mundo para meu filho(a). Não me parece uma boa idéia deixá-lo obcecado por futebol sem dizer que há outros esportes. Meu diálogo deverá mostrar o leque de opções esportivas (vôlei, basquete, tênis, padle, botão, futsal, futvôlei, carta, xadrez, dama, turfe, surfe, fórmula 1, entre tantos e tantos outros.) e deixá-lo escolher. Dizer dos benefícios e dos perigos possíveis também parece ser adequado. E, depois disso, se a escolha continuar sendo o futebol terei de respeitar.


A segunda cena mostra-me que a afetividade, o amor, o diálogo, a compreensão, são elementos importantes, lições nunca mais esquecidas pelos pequenos. Continua extremamente vivo em mim os momentos nos quais minha mãe cantava "dorme neném que a cuca vai pegar" ou falava-me, num tom inconfundível: "óh, o mamá, filhinho da mamãe". Também lembro dos poucos momentos em que passeei com meu pai. Quero dizer que, apesar da correria pela sobrevivência, deveríamos prestar mais atenção ao desenvolvimento afetivo-cognitivo dos pimpolhos. Eles serão nosso reflexo (mudarão com o passar dos anos, é verdade, mas poderão sofrer ao longo desse processo). Quando um casal lida de maneira equilibrada (sem estardalhaços, sem gritaria) com os filhos(as), estes fazem o mesmo enquanto brincam. Além de conhecer amigos que assim agem, trabalho numa escola e observo - na prática - o que estou afirmando.


Encontro um dilema, porém, na terceira cena. Sempre que estou em casa, angustio-me com a mãe e com o pai, que simplesmente não vivem. Aí está o problema: os pais não vivem. Quem vive é a criança. Ela chora, esperneia, ri; se esbalda com a ingenuidade dos pais. No lugar deles, faria uma checagem médica para me certificar de que o filho(a) está bem, em seguida, o(a) deixaria chorando por um bocado de tempo - até ela começar a construir (conforme Piaget) a ideia de que a'balda' para nada serve. Ou seja, os pais precisam viver. Criar o filho com todo o amor e carinho, sem dúvida; mas sem escravismo. Porque do contrário ter filhos(as) passa a ser um sacrilégio, um tédio, uma chatice, uma punição divina, um carma. É preciso muita reflexão e diálogo entre os cônjuges até chegar-se ao mínimo de equilíbrio entre as três cenas.


Mas ainda temos uma quarta cena aludida no sexto parágrafo. Trata-se daquele que um dia foi criança e que, portanto, tem construído um discurso, possui uma ideologia da vida. Embora saibamos que muito será agregado a sua experiência, também sabemos que já há uma cosmovisão. Ele ou ela já têm condições de dizer sim ou não para muitas inquirições cotidianas.


Adentramos, agora, no que parece ser o foco divino. A meu ver, dentre outras interpretações possíveis, a "herança do Senhor" pode ser as contradições - conscientes ou inconscientes - que a criação dos filhos(as) trará. E mais, ela será sempre, digamos, explosiva, espantosa. O relato de uma mãe - ao dar à luz um filho - é sempre imaginando um cenário explosivo, espantoso. E feliz, claro! Quando um pai conta que seu filho ou sua filha disse "táta" (e ele entendeu como sendo pai ou papai) esse relato vem fortemente marcado pela emoção. E essa sentimentalidade (lembrando Eça de Queiróz) se estende para o resto dos dias paternos e maternos. Não é à toa que um sujeito com trinta anos nas costas é chamado carinhosamente de "minha criança", "meu neném". É a "herança do Senhor". Mas nem tudo é festa.


Essa mesma herança que retratei positivamente, às vezes torna-se uma explosão e um espanto nem tão positivos assim. Isso porque a maravilhosa herança do Senhor não se coaduna exatamente com aquilo que queremos ou esperamos. Assim, queremos um filho artista (plástico, músico, fotógrafo, ator etc); ele opta por ser professor. Esperamos que a filha case virgem; ela engravida antes. Queremos que o filho ou a filha respeite todas as regras combinadas; ele ou ela resolve fazer exatamente o contrário. Há outros tantos exemplos que por ora não me ocorrem. O certo é que o dantes positivo passa a ser visto como negativo, pelo menos até que mudemos nossos parâmetros avaliativos.


Tenho a impressão, pelo dito até aqui, que o desejo divino é que vivamos em novidade de vida. Que aproveitemos cada momento por Ele dado para experimentar a vida na sua profundidade, na sua beleza e feiura, nas contradições, nas alegrias e tristezas. Tendo a consciência de que "os filhos são heranças do Senhor" parece ser menos difícil rever nossos conceitos, e pré-conceitos.
Exercendo a maternidade e a paternidade (porque tanto o homem quanto a mulher, no meu entender, exercem exatamente as duas funções - guardadas as devidas proporções) temos a oportunidade, dada por Deus, de entender o Divino um pouco mais. Com uma criança por perto torna-se mais fácil entender o que Cristo quis dizer quando nos sugeriu sermos como uma criança. A maneira como reagimos diante dos erros dos filhos pode ser um reflexo de como Deus agiria conosco e também de como Ele não agiria.


Será que Deus possui um livro de receitas sobre a criação de filhos? Será que Deus não compreende o ser humano? Por que Deus criou um mundo e nós o 'enfeiamos' nos sentindo melhores que Ele? Por que doía tanto quando apanhávamos e agora parece que gostamos de bater? E por que bater é mais fácil que conversar? E Deus não diz nada, por quê? Ou Ele diz e não estamos sabendo ouvir? O que a criação divina diz sobre criar/educar filhos? O que dizem os "Tiba's" da vida? O que diz a Bíblia? O que diz a prática? E os que dizem, como criam os próprios filhos? Como um pai ou uma mãe diz que cria seu(s) filho(s)? E como um filho se vê sendo criado? Que tal se perguntássemos como um filho agiria em determinadas situações de sua criação?

Deus é tão maravilhoso que nos dá uma herança para que tenhamos uma pitada de idéia sobre o trabalho que lhe damos. Seu jeito de lidar conosco é multiforme, não há receitas. Sobretudo, a maior maravilha é sabermo-nos amados por Ele. Eu sou feliz com essa real boa-nova. Espero um dia refletir Deus para meu filho ou minha filha.


Enquanto isso, permitam-me encerrar esse texto com um trecho da clássica música Pais e Filhos do "profeta Renato Russo": ...é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há...



Ora vem, meu filho ou minha filha!!!









[1]Antes que os exegetas e teólogos de plantão queiram meu corpo queimado, explico que o termo profeta deve ser entendido no sentido conotativo, ou seja, aquele que anuncia/denuncia nossas mazelas. Sugiro a esses plantonistas que comecem a ouvir a obra da Legião, bem como o trabalho solo do Renato. A música Pais e Filhos tem muito para refletirmos.
[2]Força de expressão, claro, uma criança tem mais é que brincar mesmo. E muito! Aristóteles já dizia: "brinque que possas ser sério".
[3]Balançar (a criança) para acalmá-la ou fazê-la dormir. 'Minidicionário Gama Kury da Língua Portuguesa', São Paulo, FTD, 2001.



ILUSTRAÇÃO


Ilustração de Eva Furnari para o seu livro ADVINHE SE PUDER, 2.ed. Ed. Moderna, 2002.

resenha 08-1 - LOUVOR QUE LIBERTA


Levi Nauter




Acabo de ler um livro (esse não merece ser chamado de obra) que há muito buscava. Uma publicação antiga, de 1976, que meus amigos não possuíam para me emprestar. Trata-se de Louvor que liberta, do Capelão Merlin R. Carothers, publicado pela Edições Loyola. Tê-lo nas mãos foi uma bela surpresa. Principalmente pela forma como ele me chegou. Estava numa biblioteca pública onde sou sócio e, de repente, fui dar uma espiada numa espécie de balaio de obras, por assim dizermos, descartadas pela bibliotecária – ou por quem seleciona o acervo.
Terminada a leitura, se pudesse, parabenizaria quem fez isso.
O título do livro sempre chamou minha atenção. Libertação é um tema que faz parte de minhas leituras, essencialmente ligadas à educação, área em que atuo profissionalmente. Considero que ao mesmo tempo em que libertamos o outro vamo-nos (re)libertando de outras prisões – algumas conscientes, outras nem tanto. Continuo considerando que o louvor liberta, sim. Ele é uma poderosa arma contra a opressão diabólica, mas também contra a opressão religiosa. Penso que o louvor liberta justamente por nos pôr em contato direto com Deus, sobretudo, um contato na forma primária da criação: fomos feitos para o Seu louvor. Mas há um hiato considerável entre o que penso sobre louvor e o que o autor da obra em questão acha. Para mim, louvor sempre extrapola a música e o agradecimento, sempre transcende convenções humanas.
Para Carothers, louvor está muito mais para confiar passiva e acriticamente em Deus, ou seja, prega-se – nas entrelinhas – o fatalismo. Essa é a razão da minha aversão ao livro. Mas tem mais.
Tal como muitos outros livros, esse não tem nenhuma relevância ao cristianismo. Os oito capítulos simplesmente relatam as peripécias do autor antes e depois de sua conversão. Pior que isso, as aventuras de Merlin como não-cristão são mais interessantes do que os auto-elogios discorridos ao longo de aproximadamente oitenta e nove páginas. Talvez ainda mais massante seja uma nem tão velada pretensão de conversar téte-a-téte com o Todo-Poderoso. Este, pois, é quem vai dando as ordens ao capelão supercrente. Entre elas o ‘louvor passivista’ (não confunda com pacifista). A partir daí é que vamos lendo uma série de coisas como [segundo o autor, o próprio Deus falou enquanto seu automóvel apresentava problemas]: “Filho, eu queria que você soubesse que nunca deve temer que alguém possa se aproveitar de você. (...) eu resolvo todos os pequenos problemas da vida.” (p. 68)
Na página seguinte, mais uma: [Deus, segundo o autor] “Por que não experimenta louvar-me pela dor de cabeça? (...) Comecei a elevar meus pensamentos a Deus em ação de graças porque Deus estava me dando aquela dor de cabeça...”. na página 71 o autor titubeia sobre a cura para uma senhora e logo tenta se recuperar. Acompanhemos:
“Mas Deus me curou, insisti.
“Então, por que está fungando?
“Não sei, mas Deus sabe, e eu o louvo por isso”. (p. 71)
As citações até aqui são do sétimo capítulo no qual ele diz que Deus falava diretamente com seu espírito. O oitavo capítulo é uma continuação dessas conversas com Deus – só que agora para com outras pessoas. Então o encontramos dando conselhos para a mulher de um soldado que iria para a Guerra: “- agradeça a Deus!” (pp. 72-76), entre outros exemplos que mais parecem para aparecer do que compartilhar sobre louvor.

Há outras inconveniências no livro. Ele me pareceu mal traduzido, como é antigo talvez valha um perdão. Porém, ideologicamente é triste. No quarto capítulo o autor demonstra preconceito com as mulheres ao desconfiar que Deus possa usá-las (p. 35). No final do capítulo (p. 38) faz algo pior (muito comum em alguns animadores de circo travestidos de ‘ministros de louvor’): “olhei para a querida irmã com quem momentos antes tinha antipatizado e compreendi que a amava.” Bela falácia. Há preconceito étnico, quando o autor diz, sem rodeios: “perto do oficial estava um sargento de cor” (p. 53). Não é possível não falar de uma arrogância que também assola muita liderança igrejeira que se sente acima de qualquer suspeita. Carothers não fugiu a regra e tasca sua pseudosuperioridade: “sentia um mal-estar quando estava perto de certas pessoas. Orei a respeito e recebi uma forte impressão de que o que havia de errado com elas era de natureza demoníaca.” (p. 86)

O que mais me impressionou negativamente foi seu discurso bélico. A apresentação do livro deixa essa intenção bem clara. “Este livro relata a história do Cel. Carothers, que de jovem rebelde chegou a capelão do Exército dos Estados Unidos...”. Lamentável, profundamente lamentável considerar-se que ser capelão daquele exército seja uma bênção; admitiria que seja um bom emprego, e só. Mas o discurso norte-americano é belicoso por natureza. E nas páginas iniciais isso fica claro, recheado com inutilidades. Senão vejamos dois exemplos:
[de inutilidade] “Meu trabalho era aparar e esmerilhar aço. Não era muito agradável, mas ajudou-me a conservar a forma física. Estar em boas condições f~isicas significava estar capacitado para a corrida deste mundo a qual eu não queria perder por nada.” (p. 10)

[belicosidade] “Queria entrar em ação na guerra, e quanto mais perto da linha de fogo, melhor (...) Pelo modo como as coisas iam, calculei que ia perder o bom da coisa, e ficar lavando panelas até o fim da guerra.” (p. 11)


Parece haver uma proposital acriticidade quanto ao resto do mundo, quanto aos nefastos resultados de uma guerra. Isso não importa, para os supercrentes americanos (do norte, da América) Deus está com eles. O resto é do diabo, é inimigo. Muito bem afirma o uruguaio Eduardo Galeano
[1], há um teatro do bem e do mal. E nessa, o bem é sintetizado pela sigla EUA e o mal é todo o resto. O sexto capítulo é a consagração de que o livro não presta. “Vietnam” (sic) é o título.
Carothers descreve uma série de conversões a bordo do navio que seguia para o Vietnã. Orações, estudos bíblicos, testemunhos e outras pirotecnias estão descritas para enlevar a sabedoria americana e para demonstrar o quanto Deus estava com eles. Paradoxalmente, o Deus da paz nunca questionou por profecia ou profetada aquela Guerra. O Deus da paz estava mais interessado no mundinho da América. O capelão estava como queria “no grosso da batalha, junto com os fuzileiros” (p. 57). Deus se confundiu com o ‘american dreams’. “Várias vezes vi evidências da mão de Deus protegendo seus filhos. Quando confiamos nele, nenhuma força da terra pode tocar-nos se não for da sua vontade”. (p. 57 – grifo meu).
Com Carothers, Deus tornou-se americano. Resta-nos nessa perspectiva o sofrimento eterno, o pranto, o ranger de dentes, ler livros de autores norte-americanos dando-nos receitas; resta-nos dizer “tende piedade de nós assim como tens com os americanos”.
Termino com o triunfo do bem sobre o mal. Mal aqui são os vietcongs.

“...o major conseguiu controlar-se e contou-me uma história surpreendente.
Algumas horas antes ele estivera a bordo de um helicóptero, o qual fora atingido por artilharia anti-aérea e caíra na floresta. Os seis homens haviam sido atirados longe, na encosta de uma colina. Quando voltou a si, o major viu que estava ferido demais para se mover. À distancia ouviu tiros de rifle. Os vietcongs estavam se aproximando da área onde tinham visto o helicóptero cair. Estavam chegando para capturar os americanos.
De repente, o major compreendeu que aquilo era o fim. Os inimigos não iriam carregar americanos feridos. Iriam provavelmente torturá-los até a morte. (...) Numa explosão de angústia e com uma fé nova clamou: “Ó Deus, por favor, ajuda-me!” Percebeu que pela primeira vez em sua vida havia conversado com Deus. Contudo, ainda ouvia os vietcongs se aproximando.” (p. 59 – grifos meus)

A história termina com os americanos sendo salvos por outro helicóptero (quiçá divino) e os vietcongs (os diabólicos) atirando nos queridos. Ao chegarem à base salvos, o major disse querer servir a Deus por toda a sua vida (p. 60). Provavelmente serviu ao exército americano da salvação.

Terminei a leitura com muita raiva. E quando reli a introdução decidi colocá-lo na lata do lixo, após encontrar a seguinte propaganda (na p. 7): “Chegou a ocupar o primeiro lugar entre os best-sellers evangélicos nos Estados Unidos. (...) Só houve uma coisa para recomendá-lo aos possíveis leitores – o conteúdo.”
Definitivamente, se conselho fosse bom não se daria.






[1] GALEANO, Eduardo. O teatro do bem e do mal. Trad. de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2006

EM FÉRIAS

Levi Nauter
Estou curtindo umas merecidas férias. Passeios com a esposa, muita música, muita leitura. Estudos visando o aperfeiçoamento de minha profissão e alguns “biscates” como carregador de terra na construção de minha casa.

Contudo, em alguns momentos estou escrevendo para postar neste blog a partir da segunda quinzena de fevereiro.

Até lá.

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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