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evangelize - Levi Nauter


LNM



Um folheto de (pseudo)evangelismo ontem. Mas ela não se converteu. Uma professora de (...) não se rende assim tão facilmente a um folheto, ainda mais com as características daquele.

Chegou em casa, entregou-me a 'joinha'. Também não me converti. Sou um osso duro e minha idade já não me deixam encurvar para qualquer foto ou mensagem.



Um homem de branco em meio a uma multidão. Os braços abertos. Seu nome inscrito em letras notáveis. A menção a Deus era apenas um subterfúgio para falar de si. A multidão nada falava, não retrucava, era inquestionável. Qualquer coisa dita ressoava sem anti-inculcação. A multidão era feita de muletas, cadeiras de rodas e aparelhos ortopédicos. O homem de branco é o missionário que fala aos inertes.

Todos nós sabemos que Deus é amor. Não carecia uma igreja com esse nome. Só Deus é soberano, não precisa aparecer o nome do missionário em todas placas de igrejas. Tampouco é necessário saber que existe um templo – feito com vários e vários dez por cento – com nome pomposo. Mas há líderes que precisam ser necessários. Quando é preciso colocar num folheto as fotos de um cara 'pregando' para cadeiras de rodas é porque a coisa está feia. Lógico que tanto o líder quanto os seus seguidores (nem sempre fiéis) não vão admitir que algo está podre. Mas há algo de podre no Reino de Deus e a culpa não é do Todo-Poderoso.

Os doentes são os membros dessas igrejas. Esses aparelhos de deficiência escondem a deficiência interna. A falta de discernimento, a falta de usar aquilo que Deus nos colocou e que só nosso: a massa encefálica. A muleta, a cadeira de roda, podem ser a falta de autonomia. Mas a muleta e cadeira de roda continua de modo invisível. A cadeira de rodas passa a ser o banco da igreja que me exige sentar diariamente em três 'grandes concentrações'. A muleta passa a ser a dependência na fala do tal líder. Despojo-me da minha sagrada autonomia, do meu divino livre-arbítrio para virar papagaio. Minha fala passa a ser o eco do meu missionário. Que tristeza!!!

Em vez de ser apenas um doente, morro; desfaço de mim. Eu não sou mais eu, o líder vive em mim. Passo a morar no mundo, mas não me considero desse mundo. Mais que isso: o mundo que se dane, que se exploda. Todo o resto (pessoas que pensam diferente, o meio ambiente etc.) passa a ser 'Soraia'. Meu 'hino' preferido? “Eu quero ver Soraia queimada...”. Voto por votar, desmato meu terreno e deixo minha casa toda calçada. Não ouço música do mundo. Não uso roupa do mundo. Não compactuo com esportes, nem com humor, nem com leituras para além da Bíblia. Adoro catástrofes, amo fogo. Fico feliz em ver pessoas morrendo – aqui no meu país ou no exterior (essa gente incrédula não tem serventia). Quero aproveitar o êxtase do provir no agora: grito histericamente quando meu líder fala, ou – se não grito – sigo suas intruções ipsis literis; não entendo bulhufas o que ele diz, mas é o que quero ouvir. Para mim o viver é o meu líder. Sua espiritualidade me atrai, tudo nele me atrai. Sou tarado por ele. Morri por ele. Vivo na sombra.

Santa ironia...




igreja emergente, por Ed René Kivitz

Ed René Kivitz
Bastou que ficassem sabendo que eu estava lendo Brian McLaren e Rob Bell para perguntarem se eu havia aderido ao “emerging church”, ou “igreja emergente”, um movimento que nas duas últimas décadas vem ganhando corpo na igreja evangélica, especialmente de fala inglesa.[1] Você agora é do Emerging church?, querem saber. A pergunta é típica de quem gosta ou precisa rotular pessoas, e muito peculiar à realidade evangélica brasileira que vive de modas do tipo agora é isso, agora é aquilo. De minha parte, sigo o que recomenda o apóstolo Paulo: examino tudo para tentar reter o que é bom. Interessante como tem gente que confunde investigação com adesão.Por trás da pergunta existe também uma certa ignorância a respeito do movimento emerging church. Primeiro, porque o movimento é recente e ainda não está consolidado em suas bases teóricas. Mas também pelo próprio espírito do movimento que visa romper com o dogmatismo da modernidade e abrir um diálogo mais aberto e inclusivo no contexto da chamada pós-modernidade. Dentre tantas tentativas de enquadramaento do movimento, opto por seguir o conceito de Brian McLaren:“What are we in the so-called emerging churches seeking to emerge from? We are seeking to emerge from modern Western Christianity, from Colonial Christianity as a white man’s religion”.[2]
Em outras palavras, a igreja emergente está emergindo de onde ou de que? De acordo com McLaren, da cultura e mentalidade modernas e do imperialismo religioso anglo-americano. Isso fica mais claro quando McLaren confessa que o Emerging church está atrasado:“African and African American Christians (Black theology) and Latin American Christians (liberation theology and integral missiology) have been hitting these themes with intelligence and passion for decades, but few of us listened to their spokespeople, whether it was Dr. King or Desmond Tutu, Gustavo Gutierrez or René Padilla”.[3]Agora sim posso responder se estou no Emerging church. Estou sim. Desde 1983 quando li René Padilla pela primeira vez. E depois continuei lendo: a série Lausanne,[4] Richard Shaull, Orlando Costas, Samuel Escobar, Robinson Cavalcanti, Severino Croatto, Norberto Saracco, Harold Segura, Pedro Arana, os irmãos Leonardo e Clodovis Boff, José Comblin, e mais recentemente, Frans Hinkelarmmert, Hugo Assmmann, Jung Mo Sung, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e André Queiruga.Há mais de 20 anos estou mergulhado no universo de pensamento onde o labor teológico acontece não apenas nas categorias da filosofia clássica, do padrão racionalista da modernidade, e do horizonte de reflexão norte-americano. Há vida, teologia, e eclesiologia fora do eixo do primeiro mundo.
Há inteligência entre os pensadores que falam os dialetos africanos, o espanhol e o português. Existem casas de profetas longe de Dallas, Atlanta e Los Angeles. Pena que as editoras cristãs evangélicas sejam casas tradutoras dos que falam apenas inglês.Oxalá o Emerging church se torne mais do que uma tentativa de dialogar com a pós-modernidade e um rompimento com o etnocentrismo anglo-americano. Oxalá o primeiro mundo ouça o suspiro dos oprimidos e considere fazer teologia para responder também ao sofrimento do corpo e não apenas às angústias da mente. Oxalá o mercado evangélico publique o que vale a pena ser lido e não o que vende. Oxalá os teólogos acadêmicos ocupem-se não somente com a ortodoxia, mas também com a práxis cristã. Oxalá os pensadores do Emerging church tirem o atraso – são benvindos em nossa estrada. Oxalá sigamos todos cobertos pela poeira dos pés de Jesus.[1]
Você pode encontrar mais informações em:
Scot McKnight. Five Streams of the Emerging Church, In: http://www.christianitytoday.com/ct/2007/february/11.35.html;Michael Edward. An emerging Christianity,In: http://emergingchurch.info/reflection/michaeledward/index.htm.07;http://igrejaemergente.blogspot.com.http://www.emergentvillage.com[2] McLaren, Brian. Church emerging. In: Paggit, Doug e Jones, Tonny. An emergent manifesto of hope. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2007, p. 149.[3] Idem. p. 147.[4] Congresso Mundial de Evangelização realizado em 1974 na cidade de Lausanne, Suíça, e que deu origem ao “Pacto de Lausanne”, que sintetizou a missão integral da igreja como “o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”.

[democracia e cristianismo] – texto 13


Levi Nauter




Quem começar essa leitura deve concluí-la ou, então, não saia falando mal. Do contrário, serás anátema. Levi Nauter




Considero-me alguém democrático. Respeito as opiniões alheias, dialogo com gentes as mais diversas - até por trabalhar na área da educação, área de muito diálogo e questionamentos, área em que não se engole apenas uma visão de mundo. Ao longo dos meus poucos trinta e três anos, tenho escutado de tudo tanto a respeito do mundo quanto de mim. Chamaram-me de tudo nesses anos. Vários desses chamamentos foram escutados em silêncio. Aprendi (e ainda aprendo) muito com o silêncio, ele tem sido o professor que idealizo um dia ser.



Quando penso em democracia e cristianismo penso na História. E esta não tem sido conveniente nem conivente para com os ditos representantes de Cristo. Ou seja, historicamente a Igreja não tem sido democrática. E, na minha opinião, ainda não é. Todo o discurso dela gira em torno da unicidade, de uma só voz, de apenas uma visão, da unilateralidade. Aqui cabe um, digamos, clareamento. Não sou contra a que se tenha uma cosmovisão. Ao contrário, acho até necessário para estar vivo. O problema está no desrespeito.



A Igreja, ao longo da história, não respeita outra cosmovisão que se diferencie da sua. Ela, a meu ver, tem girado ao redor do próprio umbigo e recheado essa restrita visão com textos bíblicos. Com a máxima "só Cristo salva", com a qual compactuo, as instituições acham-se no direito de execrar quem não pensa da mesma forma. As milenares religiões orientais, os movimentos sociais minoritários, entre outros, são sistematicamente desrespeitados. Assim, absurdamente tenta-se criar um lado do bem (os salvos) e um lado do mal (os perdidos). Nessa, há julgamento sim. Ou se está no barco cristão ou se está no do diabólico. Eu prefiro dizer que não estou em nenhum. Primeiro porque não acredito em fatalismos. Segundo, porque se o barco cristão significa ser institucionalizado vou preferir estar fora.



Eu gostaria que democracia e cristianismo andassem de mãos dadas. Que o respeito ao outro tivesse o mesmo significado que o livre-arbítrio. E que essas duas frases fossem sintetizadas em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como amamos a nós mesmos. Gostaria de não ser execrado porque optei por não mais freqüentar um templo cristão. Espero pelo dia em que ser cristão não signifique vestir camiseta denominacional. Também sonho com a queima ou o lançamento no mar do esquecimento das tabelas nas quais constam quantos indivíduo fulano ou cicrano trouxe para a denominação; quanto foram batizados do grupo tal; quantas reuniões o grupo familiar fez. Para ser mais sincero, estou de saco cheio dessa ladainha.



Estou farto de ouvir milagres aqui, milagres ali. O povão, a plebe está doente e as lideranças estão com os bolsos cheios de dinheiro suado. A líderes construindo mansões ou casas tais que muitos dos seus membros nunca chegarão perto. Isso só pode ser coisa do diabo. Mas isso ninguém diz. Os discursos vazios que se ouve parecem dizer que os EUA e a pastorada brasileira vai salvar o mundo. Pastor pregando parece que nunca peca, nunca é tentado, nunca fala mal de ninguém. É perfeito, só falta morrer e ir pro céu. Chega!



Há exceções, claro, como em tudo na vida. Contudo, os que reivindicam essa liberdade e democracia cristã são tachados de ecumenistas. Tacham sem saber o que estão falando, sem a devida profundidade no estudo da palavra, do vocábulo. Esses fraternos irmãos - alguns dos quais nem sabem que eu existo - têm contribuído no meu aprofundamento com o Deus Todo-Poderoso. Esses serão os que vão (ou já estão a) enfrentar a grande tribulação gospel. São os diabolicamente chamados de rebeldes, insubmissos. Com esses me congratulo. Junto-me a eles para denunciar e anunciar. Denunciar injustiças, falácias; anunciar o Cristo que salva, que dá livre-arbítrio, que respeita, que é justiça e, sobretudo, amor.



Por enquanto estou vivendo a verdadeira liberdade. Com ela, tenho lido intensamente obras que edificam, que informam, que formam, que entretêm. Leio livremente, sem ter que ouvir sermão sugerindo o contrário, livros cristãos e não-cristãos. Diversas crenças têm passado pelas minhas mãos. E tem sido um privilégio folhear tais páginas. Poesias, contos, novelas, crônicas, cartas, desabafos, textos sagrados. Músicas diversas (como o maravilhoso grupo Mawaca, por exemplo), com a companhia da minha amada Lu, além de um bom cafezinho ou vinho. Não há como não gozar essa maravilha. E isso, pra mim, é privilégio dado pelo Deus a quem sirvo.



É por essas e outras que não vou mais discutir com quem, de antemão, quer impor. Vou optar pelo silêncio ou pelo desabafo, conforme a situação. Minha solidão tem sido muito produtiva. Estou rodeado de gente que viveu muito antes de mim, que sofreu tantas ou mais agruras: Paulo Freire, Kierkegaard, Nietzsche, Chesterton, Pagu, Ricardo Gondim, Caio Fábio, Robinson Cavalcanti, Elis Regina, V. Gogh, Gilberto Freyre, O Rappa, Mundo Livre S/A, entre tantos outros que me fogem da memória neste instante. Fogem para depois exigir companhia ao longo de páginas, por vezes, amareladas; fogem para depois compartilharem comigo os ritmos brasileiros, afro-brasileiros, maravilhosos.
Termino com o maravilhoso Freire, educador e mestre:

Estar só tem sido, ao longo de minha vida, uma forma de estar com. (...) recolhendo-me conheço melhor e reconheço minha finitude, minha indigência, que me inscrevem em permanente busca, inviável no isolamento.

Estou na aventura com Deus. Ele é o meu guia. Não aceito outro porque este teria algum conhecimento a mais, porém tão terreal quanto o meu. Com Ele é diferente e essa é a minha preferência.



Notas
FREIRE, Paulo. À sombra desta mengueira. 4.ed. São Paulo: Olho d'água, 2004, pág. 17.

A linda ilustração desse texto é um desenho da maravilhosa escritora infanto-juvenil Eva Furnari. Ela escreveu e desenho para a obra Advinhe se puder, publicado pela editora Moderna, 2.ed., 2002, p. 18.

[galardão] - texto 12

Levi Nauter


Costuma-se dizer que Deus Nosso Senhor sacia o estômago antes dos olhos; não consigo percebê-lo: meus olhos estão fartos e cansados de tudo, e, contudo, morro de fome. Sören Kierkegaard

A pedra na nossa coroa celestial está garantida. Agora parece que é certo. Houve uma reunião no céu e a liderança decidiu fazer-nos uma espécie de oferta em razão da insalubridade evangélica que, ironicamente, tão de perto nos rodeia. Os mais bem-aventurados são os pertencentes às denominações pentecostais e neo-pentecostais, tendo em vista terem sido muitas vezes engodados pelos chamados 'homens de deus'. Segundo um ministro (no céu também é utilizada essa nomenclatura politicamente correta, em que pese pouco dizer do ocupante do cargo) redator da ata, os que se enveredaram para os mini ministérios também estão neste rol de agraciados. Também não ficou de fora aquele rebelde, insubmisso, chamado por alguns de desviado, cuja opção foi não pertencer a uma placa denominacional. Ufa! Fui salvo. Note-se a misericórdia divina.

A reunião celestial foi às pressas, uma correria. Os preparativos para "As Bodas" tiveram de ser suspensos devido a falta de colaboradores - no céu, como na terra, anjo não é empregado de ninguém. Para quem não sabe, "As Bodas" é uma espécie de Oscar, para ficar com um exemplo de um lugar que se diz cristão; ou Copa do Mundo, para ficar com um exemplo que respeita bem mais as diferenças. Particularmente prefiro a Copa, nela a possibilidade de encontrar-se oprimidos é bem maior. Pois, a reunião extraordinária não foi assim como nalgumas Convenções pentecostais: com muito barulho e pouca ação efetiva depois do eco. Não. Lá a coisa parece ser mais dinâmica, foram direto ao ponto: ser cristão-evangélico está tão difícil que a membresia merece um prêmio - acrescente-se menção honrosa aos que optaram, como eu, por sair da instituição e viver a verdadeira liberdade cristã.
O galardão será distribuído segundo a opressão sofrida por cada fiel. E não está ligado necessariamente ao que se fez de visível, senão ao íntimo do coração de cada um. Sinto muito, mas o anjo redator deixou claro que todos, sem exceção, receberão uma placa de ouro maciço com o seguinte dizer em ouro branco:
"Sejam bem-vindos, vós que viestes da GRANDE TRIBULAÇÃO GOSPEL"

Sim, você leu corretamente. Todos nós cristãos receberemos um epíteto: "os que vieram da grande tribulação GOSPEL". Logo explico. O anjo não deu grandes detalhes, disse-me apenas que há uma apreensão e uma leve tensão para que Cristo volte a esta Terra. Porém, o mais estarrecedor é que a volta não será em função da proliferação incomum da pecaminosidade, da iniqüidade, da concupiscência. Será, sobretudo, por causa da instituição Igreja. Ou seja, a razão do Apocalipse dever-se-á muito mais aos chamados co-irmãos do que aos servos do inimigo. Quem diria? Nessas alturas, bem-aventurados são os mortos porque não estão ouvindo nem vendo o que nós, os vivos, temos escutado e visto.
Gostaria muito de ter falado mais calmamente com o agente divino. Infelizmente a agenda do Além não foge muito ao nosso modelo. Talvez nisso tenham razão os defensores de que o nosso mundo terreal é reflexo do mundo espiritual. Espero que isso não seja cem por cento real, afinal, o mundo terreal está explodindo. O anjo resumiu o que pôde, não lançou mão de parábolas porque hoje estamos muito mais acostumado com mensagens-receita - aquelas do tipo "como tomar posse da bênção", "receitas para viver melhor" e assim por diante. Também não quis dar ênfase ao famigerado inimigo, o diabo, o satanás, o coisa-ruim. E num ímpeto, meio raivoso, meio irônico, disse que na burocracia evangélica há ministérios e/ou departamentos específicos para cuidar dessa área, gente, no dizer angelical, que já entrevistou os camaradas do mau, sabe até nomes, características indumentárias, além de quase já terem uma espécie de mapa astral dos referidos.

Então, do inimigo não falemos. Resta-nos a "Grande Tribulação Gospel" (que indicarei como GTG).
E aí é que está, a GTG é como o diabo, mostra-se como um anjo de luz, como se fosse bela, criativa e sensualmente atraente. É exatamente com e por essas características que ela atrai adeptos. Ninguém iria atrás de alguém com cara de desencanto, de monstro ou sabidamente mentiroso. Ela não ruge como o leão, na pós-modernidade há maneiras mais inteligentes de atração. Por isso veste-se e lança mão de gravadoras, editoras, jornais, CDs e DVDs de pregação. Ou seja, busca ganhar-nos a partir de discursos - no sentido lingüístico da palavra.
A GTG é diabólica porque engoda-nos, ilude-nos e, em razão disso, não resolve nossos problemas. Acaba por deixar muitos de nós em depressão, achando-se por baixo, imaginando que Deus possa ser um estraga-prazer. Tal como a serpente no paraíso e como o tentador de Cristo no deserto, a GTG distorce os escritos bíblicos.
Como isso acontece? O agente divino foi legal comigo, não me arrebatou - como outros privilegiados ou azarados que puderam escrever uma divina revelação do céu e do inferno -, apenas foi mostrando-me, digamos, de maneira mais prática.
As ditas mensagens ou preleções proferidas pelos pastores, bispos etc, são muitas vezes uma afronta à capacidade humana de raciocínio. Superficiais, elas massageiam o ego dos gogós-liderança que, a cada dia, aumentam suas contas bancárias. Suas mensagens são do tipo receita, parecem-se com os livros de auto-ajuda: "se você quer vitória, ore assim"; ou, se você quer vencer a tentação, faça esses 'dez passos'. E acaba que a vida segue com suas complexidades e a membresia tateia buscando praticar os delírios do homem de deus. Muitos destes parecem que não vivem neste mundo, devem ser ETs, tal é prepotência com que se dirigem aos ouvintes sem incluirem-se como pecadores, como propensos a errar tanto quanto a membresia ou leigos. Com essa aura, saem a sermonar por todos os cantos e a utilizarem-se do poder midiático. Assim, gravam CDs, DVDs e publicam livros com mensagens. Se dão entrevistas a importantes canais de televisão, também gravam e vendem. Tudo é motivo de venda. Tenho a impressão que quase a totalidade desses pastores midiáticos é que merecem o título de "vendedores pitt bull". Não têm nenhum constrangimento de dizer: "esse livro deveria custar R$ 100,00, mas, como é pra Deus, estamos fazendo uma promoção e ele custará R$ 99,90". E não têm nenhum pudor ao dizer que o tal livro "poderá mudar o curso da história da sua vida".
Contudo, a venda ainda é democrática, afinal, compra quem quer ou pode. O engodo maior está no pedido de dinheiro sistematizado; para esse fim, criam-se nomenclaturas próprias e até criativas: colaborador fiel, patrocinador, evangelizador, entre outras. Alguns desses provocadores da GTG anunciam a recompensa: todos os que contribuirem (R$) receberão uma bênção especial de Deus, desde que enviem um fax comprovando o pagamento. Mas notem o detalhe: a bênção é por conta de Deus, ou seja, se Deus não abençoar a culpa ou é do próprio Dono da Obra ou do contribuidor que, pobre e coitado, não tem fé. O anjo, como eu, acha isso deplorável.
Deplorável porque é uma falta de vergonha. Isso é um assalto, isso é pecado, isso é diabólico. Um determinado ministério, dono de empresas de comunicação, sem nenhuma consciência ética sai cobrando por tudo e pedindo dinheiro como se isso desse em árvore. Uma dessas emissoras, passa, aos domingos, um programa no qual os cantores de seu casting deleitam-se numa churrascaria. Quantos dos patrocinadores vivem essa mesma vida? Quantos desavisados deixam de fazer o seu próprio churrasco e, no entanto, assistem os homens de deus 'mandando ver numa picanha'? Concordo com o anjo, nossa diferença é que ele mora lá e eu cá.
Há uma superficialidade no meio gospel, no meio evangélico. A melhor coisa que podemos fazer é não ligar o rádio nem a televisão. As mensagens são como 'tapinhas nas costas' das pessoas, embalados por músicas, em sua maioria, superficiais, que só cantam vitórias. Ouvindo essas músicas que estão 'na onda' nos apequenamos intelectualmente, elas dizem apenas "como Deus é bom", "você vai vencer ou vencer" ou como a famigerada "tá chorando? Louve".
Foi pauta no céu esse superficialismo e esse afã pelo dinheiro. Não há justificativa plausível - a não ser o fortalecimento do capital e não do evangelho - para esse comércio desmedido. As músicas já não cantam nossa realidade, apenas traduzem a realidade de outros países. Paradoxalmente as composições nacionais mais parecem terem sido feitas com o imaginário dessas traduções que nos chegam. Estamos perdendo a identidade cristã nacional, se é que algum dia a tivemos. Nossos ritmos (ricos), nosso linguajar, nossa gramática, nossa cosmovisão, nossa identidade está esvaindo-se. Não sabemos mais quem somos. O resultado é que esperamos um lançamento musical no exterior para traduzí-lo (muitas vezes uma má tradução) e cantar como se fosse nosso, como se pertencesse ao nosso contexto. Faz tempo que nossa música não é profética. O anjo, preciso registrar, está querendo levar alguns bons CDs brasileiros. Ele gostou da Maria Rita, dos clássicos Chico Buarque, Caetano, Tom Jobim, Elis e até, pasmem, Rita Ribeiro.
Os livros estão tomando o mesmo rumo de publicações seculares: Je$u$, um bom negócio. É uma raridade encontrar obras com profundidade teológica, com conteúdo típico da experiência com Deus. O que vemos nas prateleiras é o mesmo que encontramos em grandes magazines, isto é, livros-receita. Como ter sucesso no empreendedorismo gospel, como saltar de 10 para 10.000 membros. Como montar uma equipe de louvor, como lotar a escola dominical. Como ter sucesso, como se relacionar bem com as pessoas. Esses são os temas tratados. E quando queremos algo mais, encontramos obras que dizem pouco e dão aparência de profundidade. É o caso de obra com títulos do tipo "como derrotar o devorador". O anjo não se conteve, chegou bem perto do meu ouvido e lascou: "vá ler Machado, Drummond, Adélia, Scliar, João Ubaldo, Paulo Lins. Vocês têm tanta gente boa!". Eu acho que ele tem razão.
E as Bíblias? O que são essas Bíblias? Não estou me referindo, claro, às diferentes importantes e necessárias versões disponíveis. Falo, por indicação do mensageiro e 'ateiro', daquelas que inserem estudos: da mulher, do jovem, do homem, do ministro, vida espiritual, apologética, vida financeira e todas as que ainda virão. Vivemos um festival, quem dá mais? O anjo me confidenciou que prefere aquela simples, sem nome de denominação que, inclusive, e é mais barata. Não possui nenhum tipo de estudo, essa Bíblia é a melhor. Com ela é possível ter fome e sede. Ela permite a aventura.

Nesse momento de superficialidades, o melhor é optar por aventuras com Deus sem a instituição. A instituição quer ter lucro porque precisa sustentar-se. Para manter sua estrutura carece de grana. E não há nada de errado nisso, o erro está em não ter limites éticos e até morais na busca dessa necessidade; o erro está na perseguição de sonhos alheios aos interesses da membresia - até porque elas nem têm voz. Sim, a membresia não tem voz. Não há um momento para o contraditório na programação eclesial. Cabe aos integrantes da denominação ouvir o sermão, internalizá-lo e orar pelo ungido. Se algum indivíduo tiver dúvidas? "Leia a Bíblia e era isso". Já li num documento de uma instituição: "o discípulo obedece mesmo sem entender o que está fazendo porque sabe que é pra Deus". Não consigo concordar com essa tese. Deus, até onde sei, não tem vocação para ditador.
A aventura com Deus é muito melhor que as regras institucionais. Nela, não temos ninguém dizendo-nos "faça isso, não faça aquilo", "isso pode, aquilo não". Somente nessa aventura é que nos tornamos realmente autônomos da fé. Apenas na aventura vivemos a dita novidade de vida e a verdadeira liberdade. O costume nos faz considerar que é bom ser guiado por alguém que se diz apto para ser nosso guia e, assim, não vivemos a liberdade cristã, simplesmente porque não existe liberdade vigiada. Liberdade com a possibilidade de sermos repreendidos por usá-la como bem entendermos é falácia. E isso nada tem a ver com responsabilidade, que precede a liberdade.
Nesse novo caminho, somos efetivamente dependentes de Deus e Ele não nos responde como queremos. Sua vontade, na aventura, é soberana. Não existe EU com prestígio, isto é, aqueles líderes que adoram o "eu declaro", "eu determino", "eu abençoo". Na aventura que defendo não há receitas. Nela, o Cristo Salvador se apresenta em Sua multiformidade na medida em que vamos trilhando os caminhos da graça, enquanto saboreamos e percorremos os corredores, ruas e ruelas, às vezes íngremes, de sua Palavra. E parece não haver melhor jeito do que fazer esse exercício com curiosidade, humildade, com prontidão, sem pressa, vivendo intensamente cada momento, cada passo. A vivência vai tomando corpo, tornando-nos mais exigentes, as palavras vão adquirindo mais substantividade, o que antes nos satisfazia vai como que perdendo sabor para dar lugar a novas combinações. Nossa inteligência, dada por Deus, começa a ser exigida, turbinada e, numa espécie de explosão de graça e bondade divinas, de maneira que vamos nos tornando produtores de saberes. Mas a produção não pára em nós, com gemidos inexprimíveis pede para sair, ser compartilhada.
Nessa mesma aventura ocorre algo impensado: tornamos-nos sensíveis. Cria-se, paulatinamente, uma teologia do sensível, que não deve ser confundida com melindres. Tal acontecimento faz-nos ver Deus em lugares inesperados. Esses lugares inesperados acabam por nos mostrar que acreditávamos em falácias do tipo 'quem não louva a Deus louva ao Diabo'. A teologia do sensível aprimora nosso amor e, em conseqüência, vai lançando fora a teologia do medo. A sensibilidade mostra-nos, então, Deus em mais coisas e não apenas nos elementos sagrados. Assim é que podemos descobrir Deus em muitas músicas do universo secular-folclórico brasileiro, nas artes em geral e em toda a criação. A falta de contraponto em meio às preleções evangélicas são facilmente encontradas na famosa MPB. Por exemplo, quando cantamos "Paraíba masculina mulher macho, sim, senhor" podemos ampliar a reflexão e chegar nalguns questionamentos: por que muitos homens acham que têm de oprimir a mulher? Por que a igreja-instituição, ao longo da história, perpetua essa opressão? Porque poucas mulheres reclamam?
A aventura com Deus é infinitamente mais salutar que a dependência (quase química) de um líder religioso. Porém, a aventura não dá mídia; tudo sofre, tudo crê. É nela que podemos dizer "grandes coisas fez o Senhor por nós" ou "até aqui nos ajudou o Senhor". A aventura cristã não fica quantificando pessoas nem eventos (50 pessoas se converteram, realizamos 3 encontros). A aventura não nos estressa, a dependência sim.
É por essas e outras que o nosso galardão, agora, está garantido. Ainda bem que Deus é bom!

Frases que ouço porque decidi sair da Igreja - 2

Levi Nauter
- Você tá congregando?
- Sim, em casa. Converso com bastante pessoas durante a semana. Mas o templo é pós-moderno. É via web.
- Ótimo! Mas, escute aqui...
- Pode falar.
- Vocês tão dizimando?

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Maria Flor

Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


"Viver é escolher, é arriscar-se a enganar, aceitar o risco de ser culpado, de cometer erros" [Paul Tournier]

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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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  • PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS PERFEITAS, de John Burke
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