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sobrenome

Levi Nauter


Eu trabalho manhã, tarde e noite. Aos sábados, às vezes, trabalho o dia todo. Tô reclamando? Não. Apenas gostaria de ter tido a sorte de ter um desses sobrenomes:
Sarney, Maluf, Quercia, Malafaia, Macedo - entre outros.

Talvez isso facilitasse minha vida e, assim, eu teria mais tranquilidade para pagar minhas contas sem suar tanto a camisa.

[as sagradas entrelinhas] - elienai cabral jr.

A pretensão piedosa de muitos cristãos de se apoiarem peremptoriamente no que dizem as Escrituras é no mínimo ingênua. Partem do pressuposto impensado de que há uma compreensão absoluta do que está escrito. Que por sua vez funda-se na idéia de que a verdade seja algo pronto, do lado de lá do pensamento, grafado no texto bíblico, apenas à espera que pessoas dela tomem posse.

A compreensão da verdade pensada assim elimina a mais humana das ações: a interpretação. Somos todos seres de interpretação. Uma vaca não interpreta, apenas reage. Uma pessoa não reage apenas, interpreta. Não há possibilidade de haver uma ação humana sem que também aconteça uma interpretação. Uma verdade nunca está do lado de lá pronta para ser possuída. Toda apreensão de idéias é um movimento impreciso e participativo de interpretação.

As páginas da Bíblia não são gavetas que guardam verdades, mas a coleção de narrativas e dissertações que nos convidam ao aprendizado. Nem seus leitores são desengavetadores inertes e neutros de conteúdos prontos. A Bíblia é um livro forjado com múltiplas interpretações. Desde sua escrita original, traduções e versões, o texto é marcado pela confluência de mentes que dela participaram. Juntamos a isso as teologias, tradições e culturas que têm na Bíblia ao menos uma referência de valor e temos um mundo indeterminado de olhares em suas páginas. Porque simplesmente é impossível à mente humana ler sem interpretar e interpretar sem entrar em conflito com outras e diversas interpretações.

Quem quer que afirme apoiar-se absolutamente no que dizem as Escrituras está na verdade dizendo que se apóia em uma tradição de pensamento e do que dela compreende.

O que chamamos de verdade bíblica é uma miragem. Porque não há possibilidade de existir um conteúdo de afirmações atemporal e universal. Por tudo o que já se disse acima. Ao entrar em contato com uma afirmação coloco em movimento todos os preconceitos, tradições, sentimentos, aspirações do meu tempo, questões da minha época, tudo o que em mim participa do modo como interpreto a vida e as pessoas à minha volta. A verdade é relativa a mim, e tudo o que em mim participa do que compreendo. A verdade é necessariamente provisória. Está sempre em construção.

O que chamo de verdadeiro não é um bloco maciço de idéias, mas um corpo inacabado e dinâmico de perspectivas. As verdades humanas nunca são absolutas, são sempre finitas e processuais. Qualquer outra candidata à verdade que se pretenda completa, universal e insuperável pelo tempo fala uma língua incompreensível à mente humana. Nada comunica. Não nos diz respeito. Nem dela podemos fazer referência. Se nos referimos a uma idéia, interpretamos.

Isso significa que sempre que alguém arroga para si a posse de uma verdade absoluta está de fato absolutizando uma versão, a que prefere os interesses de quem está acomodado ao que prevalece em seu mundo. A história não deixa dúvidas sobre os absurdos já cometidos em nome da posse inquestionável da verdade. Mas certamente o maior dos absurdos é a desumanização de todos que entram em contato com tal pretensão. Na medida em que uma idéia é absolutizada, as pessoas são pulverizadas. Quem sai em defesa da posse da verdade perde o outro de si mesmo, ou seja, a sua própria consciência e suas reivindicações por novas respostas. Perde também o outro além de si, ou seja, tudo e todos ao seu redor que divergem em busca do diálogo.

Quem quiser encontrar a Palavra de Deus e não perder a si mesmo e aos outros sob a prepotência de posse absoluta da verdade precisará ir além do que está escrito. Precisará abrir-se para fundir horizontes. De quem escreveu, da tradição e os de seu tempo. Precisará de modéstia para as alteridades envolvidas no texto. Precisará de compromisso com o seu mundo e suas dores. Precisará de imaginação e delicadeza.

Porque a Palavra de Deus não é a Bíblia, mas as suas entrelinhas.

Elienai Cabral Junior

[teologia bla-bla-blante] - texto 14


Levi Nauter





No exato momento em que acabo de rever (perdi as contas) o belo filme Um lugar chamado Notting Hill, estou tomando um ótimo café preto, com um saboroso bolo feito pela Lu. Gosto do filme pela trilha sonora (especialmente a que encerra a entrevista e o filme) pela elegância de Grant e pela boca da Roberts; acima de tudo porque fala de livros. Meu assunto não é livros, no entanto. Ando lendo bastante, estudando bastante, porém não vou tratar disso. Esse foi, digamos um mote.
Quero falar de um discurso bla-bla-blante. Uma teologia que me parece igualmente bla-bla-blante.
Estou pensando, ao engolir goles quentes de café, que – para mim – assuntos teológicos ou, como diziam na minha infância, coisas de Deus podem ser muito chatas, massantes. É um saco (perdoem-me a indelicadeza) essa coisa de Deus pra cá, Deus pra lá. Há assuntos para os quais não estou mais disposto a debater. Veio a minha memória o slogan da Philco: “tem coisas que só a Philco faz pra você”. Pois, tem coisas que são só pra se perder tempo. Discussão teológica está me parecendo assim. Mais especificamente, a teologia que vislumbro está longe do senso comum. Em geral, o fundamentalismo cristão, travestido de radicalidade e com aparência bíblica, não aceita o diferente. Então, é perder tempo na discussão. Demais a mais, minha vida cristã não está para chamar a atenção de crentes. Sirvo a um Deus multiforme.
Chamo de teologia bla-bla-blante essa disposição em tentar desmerecer a opinião do outro. Há um afã no fundamentalismo, um verdadeiro tesão em dizer e fazer valer, a qualquer custo, a sua palavra. Palavra recheada de “eu”. Um “eu” vazio buscando fortaleza nos chavões, nos “eu determino” ou “eu não admito isso” ou “eu sou o pastor” (leia-se eu quem mando); em suma, uma reedição da temática já bem abordada pelo antropólogo Roberto DaMatta, sintetizada na famosa frase “sabe com quem estás falando?”. Síntese também da teologia do medo.
E é bla-bla-blá porque nada acrescenta e torna-se irrelevante, porque não quer dialogar, porque não aceita contraponto, porque não admite paralelos. É bla-bla-blá pois propõe-se salvadora do mundo e sanadora de todos os problemas da humanidade. Pior de tudo, quer pasteurizar, tornar uníssono o que é ou pode ser plural. É bla-bla-blá porque não pensa, apenas vai na onda. E falo mal dela por experiência própria. Já fui adepto da salvação english; por um bom tempo achei que só os “gringos” possuíam talento – aos do sul fora dado o dom de interpretação de línguas, começando pela tradução das músicas e, num segundo momento, pela de livros. Nessa experiência que não nego, mas da qual não tenho nenhuma saudade, tudo deveria acabar com palavras do tipo gospel, mission, bless, yes. Esse tempo foi-se, graças a Deus e ao Guimarães Rosa, ao Machado, ao Graciliano Ramos, entre tantos outros 'evangelistas' da brasilidade. Descobri que não nasci por acaso num país de terceiro mundo, agora dito ‘em desenvolvimento’. Minha teologia parte da minha realidade para dialogar com outras realidades, e não o contrário. Não quero simplesmente adaptar-me ao norte.
Minha teologia não nega – sob nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto – a soberania divina. Apenas não aceita o senso comum, o fatalismo, o discurso fácil fora da realidade. Minha teologia não é marqueteira, ou seja, não fico contando quantos se converteram enquanto eu falei; não digo quantas vezes oro por dia, se jejuo ou não; não considero o outro como um número no rol de membros ou no rol dos ‘desviados’ (palavra desgraçada). Ah, não tenho o dialeto, não fico pateteando com os ‘tá amarrado’, ‘foi tremendo’, ‘meu amado’, meu isso-meu aquilo, nem com ‘o Senhor é isso dessa ou daquela cidade’. Também não perdi tempo fazendo o ‘mapa astral’ do lugar onde moro, muito menos para o belo lugar onde logo vou morar.
Minha teologia não é humanista, mas tem ligação com o humano porque é feita de gente e porque Deus se fez gente. Deus não se fez de tolo para ganhar tolos; fez-se de gente para ganhar gentes. Sou um cristão genteficado. Humano, pecador, carente de companhia, carente da misericórdia divina. Ela, por outro lado, não tem medo. Pouco se importa com o que dizem. Ela é livre, não está atrelada a templo, não está gessada, amarrada, atada. Sim, minha teologia está livre de frases feitas e de efeito. Vivo na dependência divina. E não há lugar melhor para estar.
Portanto não discuto mais com fundamentalistas, com fatalistas ou quaisquer tipos cuja intenção seja converter-me. Estou pronto, sim, para o diálogo, para a conversa, para compartilhar as maravilhas divinas. Contudo, não para concordar e ser concordado. Para ser respeitoso sempre, conivente às vezes. Em vez de discutir, vou ler, ouvir música, namorar minha esposa, passear, assistir a um bom filme e, creiam-me, conversar com descrentes.
A teologia bla-bla-blante só pinta o diabo. Vê Deus onipotente e tudo o mais que cause espanto, medo, receio, ressalvas. Esquecem-se do Deus-amor, do Deus que alivia o fardo e suaviza o jugo. A teologia bla-bla-blante é farisaica. A teologia bla-bla-blante possui pedras na mão para atirar.
Prefiro a teologia que dialoga. Cristo, basta ler a Bíblia, sempre dialogou mais. Foi incisivo quando necessário, chorou, riu, participou de festa, lia, conversava. Não tinha, diga-se logo, jeito machista.


A melhor notícia dos evangelhos é a graça. Talvez uma outra tão boa quanto essa seja a ausência de placa denominacional. Ufa!
NOTA
A ilustração foi feita por José Francisco Borges para a obra As palavras andantes, de Eduardo Galeano, 5.ed., 2007, publicado pela L&PM.

[democracia e cristianismo] – texto 13


Levi Nauter




Quem começar essa leitura deve concluí-la ou, então, não saia falando mal. Do contrário, serás anátema. Levi Nauter




Considero-me alguém democrático. Respeito as opiniões alheias, dialogo com gentes as mais diversas - até por trabalhar na área da educação, área de muito diálogo e questionamentos, área em que não se engole apenas uma visão de mundo. Ao longo dos meus poucos trinta e três anos, tenho escutado de tudo tanto a respeito do mundo quanto de mim. Chamaram-me de tudo nesses anos. Vários desses chamamentos foram escutados em silêncio. Aprendi (e ainda aprendo) muito com o silêncio, ele tem sido o professor que idealizo um dia ser.



Quando penso em democracia e cristianismo penso na História. E esta não tem sido conveniente nem conivente para com os ditos representantes de Cristo. Ou seja, historicamente a Igreja não tem sido democrática. E, na minha opinião, ainda não é. Todo o discurso dela gira em torno da unicidade, de uma só voz, de apenas uma visão, da unilateralidade. Aqui cabe um, digamos, clareamento. Não sou contra a que se tenha uma cosmovisão. Ao contrário, acho até necessário para estar vivo. O problema está no desrespeito.



A Igreja, ao longo da história, não respeita outra cosmovisão que se diferencie da sua. Ela, a meu ver, tem girado ao redor do próprio umbigo e recheado essa restrita visão com textos bíblicos. Com a máxima "só Cristo salva", com a qual compactuo, as instituições acham-se no direito de execrar quem não pensa da mesma forma. As milenares religiões orientais, os movimentos sociais minoritários, entre outros, são sistematicamente desrespeitados. Assim, absurdamente tenta-se criar um lado do bem (os salvos) e um lado do mal (os perdidos). Nessa, há julgamento sim. Ou se está no barco cristão ou se está no do diabólico. Eu prefiro dizer que não estou em nenhum. Primeiro porque não acredito em fatalismos. Segundo, porque se o barco cristão significa ser institucionalizado vou preferir estar fora.



Eu gostaria que democracia e cristianismo andassem de mãos dadas. Que o respeito ao outro tivesse o mesmo significado que o livre-arbítrio. E que essas duas frases fossem sintetizadas em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como amamos a nós mesmos. Gostaria de não ser execrado porque optei por não mais freqüentar um templo cristão. Espero pelo dia em que ser cristão não signifique vestir camiseta denominacional. Também sonho com a queima ou o lançamento no mar do esquecimento das tabelas nas quais constam quantos indivíduo fulano ou cicrano trouxe para a denominação; quanto foram batizados do grupo tal; quantas reuniões o grupo familiar fez. Para ser mais sincero, estou de saco cheio dessa ladainha.



Estou farto de ouvir milagres aqui, milagres ali. O povão, a plebe está doente e as lideranças estão com os bolsos cheios de dinheiro suado. A líderes construindo mansões ou casas tais que muitos dos seus membros nunca chegarão perto. Isso só pode ser coisa do diabo. Mas isso ninguém diz. Os discursos vazios que se ouve parecem dizer que os EUA e a pastorada brasileira vai salvar o mundo. Pastor pregando parece que nunca peca, nunca é tentado, nunca fala mal de ninguém. É perfeito, só falta morrer e ir pro céu. Chega!



Há exceções, claro, como em tudo na vida. Contudo, os que reivindicam essa liberdade e democracia cristã são tachados de ecumenistas. Tacham sem saber o que estão falando, sem a devida profundidade no estudo da palavra, do vocábulo. Esses fraternos irmãos - alguns dos quais nem sabem que eu existo - têm contribuído no meu aprofundamento com o Deus Todo-Poderoso. Esses serão os que vão (ou já estão a) enfrentar a grande tribulação gospel. São os diabolicamente chamados de rebeldes, insubmissos. Com esses me congratulo. Junto-me a eles para denunciar e anunciar. Denunciar injustiças, falácias; anunciar o Cristo que salva, que dá livre-arbítrio, que respeita, que é justiça e, sobretudo, amor.



Por enquanto estou vivendo a verdadeira liberdade. Com ela, tenho lido intensamente obras que edificam, que informam, que formam, que entretêm. Leio livremente, sem ter que ouvir sermão sugerindo o contrário, livros cristãos e não-cristãos. Diversas crenças têm passado pelas minhas mãos. E tem sido um privilégio folhear tais páginas. Poesias, contos, novelas, crônicas, cartas, desabafos, textos sagrados. Músicas diversas (como o maravilhoso grupo Mawaca, por exemplo), com a companhia da minha amada Lu, além de um bom cafezinho ou vinho. Não há como não gozar essa maravilha. E isso, pra mim, é privilégio dado pelo Deus a quem sirvo.



É por essas e outras que não vou mais discutir com quem, de antemão, quer impor. Vou optar pelo silêncio ou pelo desabafo, conforme a situação. Minha solidão tem sido muito produtiva. Estou rodeado de gente que viveu muito antes de mim, que sofreu tantas ou mais agruras: Paulo Freire, Kierkegaard, Nietzsche, Chesterton, Pagu, Ricardo Gondim, Caio Fábio, Robinson Cavalcanti, Elis Regina, V. Gogh, Gilberto Freyre, O Rappa, Mundo Livre S/A, entre tantos outros que me fogem da memória neste instante. Fogem para depois exigir companhia ao longo de páginas, por vezes, amareladas; fogem para depois compartilharem comigo os ritmos brasileiros, afro-brasileiros, maravilhosos.
Termino com o maravilhoso Freire, educador e mestre:

Estar só tem sido, ao longo de minha vida, uma forma de estar com. (...) recolhendo-me conheço melhor e reconheço minha finitude, minha indigência, que me inscrevem em permanente busca, inviável no isolamento.

Estou na aventura com Deus. Ele é o meu guia. Não aceito outro porque este teria algum conhecimento a mais, porém tão terreal quanto o meu. Com Ele é diferente e essa é a minha preferência.



Notas
FREIRE, Paulo. À sombra desta mengueira. 4.ed. São Paulo: Olho d'água, 2004, pág. 17.

A linda ilustração desse texto é um desenho da maravilhosa escritora infanto-juvenil Eva Furnari. Ela escreveu e desenho para a obra Advinhe se puder, publicado pela editora Moderna, 2.ed., 2002, p. 18.

meu jardim

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minha alegria

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Maria Flor

Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


"Viver é escolher, é arriscar-se a enganar, aceitar o risco de ser culpado, de cometer erros" [Paul Tournier]

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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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