[é melhor ficar quieto] - frases boçais igrejeiras

Levi Nauter
Solidarizo-me com o pastor Ricardo Gondim. Transcrevo as frases boçais que ouvimos facilmente nos templos evangélicos ou nos programas de rádio. Os irmãos, infelizmente são muito bons em criar inutilidades que, paradoxalmente, às vezes, ajudam o autor que consegue tirar um troco. É por essas e outras que imagino que a tal igreja-instituição precisa ser repensada.
Frases (evangélicas?) que não agüento mais. Ricardo Gondim.

1. Amém? Está fraco. AMÉM? Amém ou não amém?
2. Quem quer receber uma bênção de Deus hoje, levante a mão.
3. Existe a lei da semeadura, e o número da conta é...
4. Isso é roubo, meu irmão; você nasceu pra ser cabeça, não cauda!
5. Esse acidente aconteceu porque você deve ter dado brecha.
6. O Diabo quer lhe destruir.
7. Estou vendo uma obra de bruxaria em sua vida.
8. Vamos quebrar as setas inimigas.
9. Nada vai impedir que você seja um conquistador.
10.Não há nada de errado com o dinheiro; o único problema é o amor ao dinheiro.
11. Nossa denominação ainda vai conquistar o mundo.
12. A partir de hoje São Paulo nunca mais será igual.
13. Nós somos um povo que não conhece derrota.
14. Venha para Jesus e pare de sofrer.
15. Você é filho do Rei e não merece estar nessa situação.
16. Temos a visão de conquistar a Europa para Cristo.
17. Essa doença não existe, ela é apenas uma ameaça do Diabo.
18. Deus está nos dirigindo para abrirmos uma igreja em Boca Raton.
19. Vamos amarrar os demônios territoriais que estão sobre o Brasil.
20. Todos os que fizerem a campanha das sete semanas alcançarão seus sonhos.
21. Compre esta Bíblia fantástica com os comentários de...
22. Estamos num mover apostólico e o avivamento brasileiro é semelhante ao do livro de Atos.
23. Teremos uma explosão de milagres na maior concentração religiosa da história.
24. Vamos ficar em pé para receber o Grande Homem de Deus, fulano de tal, com uma salva de palmas. 25. Quando vejo essa multidão de quinze mil pessoas, só tenho vontade de dizer que amo cada um de vocês.
26. O Reino de Deus precisa de um candidato na Câmara; vamos eleger nosso irmão que vai fazer a diferença.
27. Deus abrirá uma porta de emprego para você, meu irmão.
28. Semana que vem teremos mais uma sessão de cura interior.
29. Enquanto não pedirmos perdão ao Paraguai pela guerra, nunca seremos uma nação próspera.
30. Os Estados Unidos são uma bênção porque o presidente deles é crente.
31. Tudo é miçanga, só Deus é jóia.
32. Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono.
33. Este carro ficará desgovernado em caso de arrebatamento.
34. Crianças, cantemos: “Cuidado olhinho no que vê, cuidado mãozinha no que pega... nosso Pai está olhando pra você”!
35. Olhe para o seu irmão do lado e diga: Eu amo você!
36. O Espírito Santo está me revelendo que existem ladrões nesta igreja que não entregaram seus dízimos.
37. Ah, seu problema é maldição hereditária.
38. Quando você não entrega o dízimo na casa de Deus, Ele não tem compromisso financeiro com você.
39. Quero que vocês dêem uma oferta especial para manutenção do nosso programa de rádio e TV, pois foi Deus quem mandou pregar na mídia.
40. Ora em línguas aí, irmão.
41. Restitui, eu quero de volta o que é meu.
42. A visão da nossa igreja é evangelizar. Obra social é com o governo.
43. Abram suas Bíblias no livro "X". Quem encontrou diga amém, quem não encontrou diga misericórdia.
44. Eu gostaria de cumprimentar a igreja com a paz do Senhor (se gostaria, então cumprimente, ou vai ficar na vontade?).
45. Abra o seu coração (como?).
46. Deus está aqui (que algo mais óbvio que isso).
47 - Deus está curando voê, minha irmã, deste nódulo no seio que você nem sabia que tinha (depois dessa, dizer mais o que).
48. Deus está operando poderosamente (alguém já viu Deus operar "meia-boca"?).
49. Deus vai enxugar suas lágrimas (O que dizer? Como é fácil falar).
50. Tá amarrado! (alguém sabe quanto tempo o Diabo leva para se desamarrar?).
51. Deus vai dar à nossa igreja um programa na Globo (tô com uma pulga atrás da orelha. Acho que esse pastor quer figurar na novela das 8).
52. Irmãos, Deus me deu revelação. Esse será o ano de Elias, de Josué, de Gideão, de João Batista... (Não parece calendário chinês?).
53. Abra a boca e profetize; as palavras têm poder.
54. Hoje eu deixo de ser crente se Deus não operar um milagre. (Por favor, deixe mesmo!)
55. Meus irmãos, estas igrejas que usam rosas ungidas, sal grosso para descarrego, etc., não são de Deus!....Ao final do culto tragam seus documetos, carteira de trabalho, chave de casa e do carro para ungirmos, pois aqui a coisa é diferente, Deus opera!
56. Não diga isso. As palavras têm poder!!
57. Incendeia tua noiva, Senhor.
58. Seja um adorador extravagante!
59. Fui chamado para ser um levita na casa do Senhor. Posso cantar na sua igreja e vender meus CDs?
60. Não podemos fazer da igreja um clube.
61. Sendo dizimista, você pode colocar Deus contra a parede.
62. Meus irmãos, é hora de mudar o Brasil.
63. Quem tem um caroço em qualquer lugar do corpo, levante a mão que Jesus vai curar agora.
64. A Rede Globo conspira contra a igreja.
65. Quanto mais glória você manda pra cima, mais glória Deus manda pra baixo.
65. Não dá o dízimo na casa de Deus, mas acaba "dando" na farmácia (Hum, não sei não!)
66. Você que não dá o dízimo não tem moral pra exigir nada de Deus.
67. Vamos pisar na cabeça do diabo; o Diabo só conhece o número do meu sapato.
68. Quando o crente ora, deve esperar retaliação do Diabo.
69. Sabe qual o nosso problema? O mundo está entrando na igreja.
70.Eu soube que o Anticristo já nasceu e está se preparando para aparecer.
71. Eu soube de um pastor que encontrou uns feiticeiros que estavam jejuando para fazer os pastores caírem.
72. O Rei Leão da Disney é gay!
73. Minha irmã, você precisa da nossa cobertura! (essa é quase pornográfica).
74. Não esqueça de enviar os boletos bancários que eu prometo subir o monte nesta madrugada e interceder por sua vida.
75. Não fique triste com a morte do seu filho (ou com seu divórcio, ou com sei lá o que). Tudo tem um propósito e Deus sabe o que faz.
76. Irmãos, hoje o Senhor falou comigo pela manhã para trazer esta palavra.
77. Orei e a chuva parou.(então ora e manda chuva pro nordeste, não é?)
78. Estou sentindo uma opressão aqui.
79. Hoje vamos ouvir o testemunho do Irmão que era ex-gay, ex-traficante, ex-drogado, ex-macumbeiro, ex-cafetão, ex-morto, ex-satanista, ex-sei-lá-o-que e que agora é crente!!!
80. Todo inimigo, fora daqui!
81. Posso ouvir 3 aleluias e 8 améns?82. Cuidado para não perder a benção, irmão.
83. Não adianta fugir de Deus, Ele vai ter pegar na curva.
84. Se não vier pelo amor, vem pela dor.
85. Sabe quanto custa uma consulta, uma internação? Dar o dízimo é mais barato.
86. Deus me revelou que 50 irmãos vão contribuir com mil reais cada um. Quem é o primeiro? Se não tem ninguém, então devem existir aqui 50 valentes que vão contribuir com quinhentos... Agora chegou a sua vez, meu irmãozinho querido. Todos vocês que sobraram tragam suas ofertas de um real. (Que leilãozinho ordinário, heim?)
87. Tomara que ao sair daqui um carro não passe por cima de você; vou orar para que Deus lhe dê mais uma chance.
88. Não troque sua salvação por um copo de cerveja.
89. Nesta noite Deus vai disribuir dar sapatos de fogo (Eu prefiro os de couro!)
90. Infelizmente ele preferiu morrer sem salvação do que voltar pra nossa igreja.
91. O diabo tentou impedir que você viesse aqui nesta noite, porque ele sabia que você seria revelado
92. Eu tinha preparado uma mensagem, porém o Espírito Santo quer que eu pregue sobre santidade (...E dê-lhe regrinhas!).
93. Deus confirmou a mensagem desta noite enquanto a irmã cantava aquele hino.
94. Dê o melhor que você tem , Deus não quer troco de ônibus.
95. Tire a melhor nota que você tem e ofereça o melhor sacrificio ao Senhor.
96. Tive uma visão que no estacionamento da igreja só tinha carro zero km.(Acho que ele confundiu a igreja com a concessionaria ao lado).
97. Minha teologia é joelho no chão!!!(Essa teologia é no mínimo esquisita).
98. Deus conhece a sinceridade do meu coração! Eu preciso da sua ajuda para manter este programa no ar e o número da conta é... (Sim, eu sei que Deus conhece tudo. Eu é que estou com alguma suspeita).
99. Se você sair de férias e não deixar o cheque do dízimo vai dar tudo errado na sua viagem. (E agora? Esqueci! Deve ser esse o motivo porque furou o pneu do carro)
100. Deus não escolhe os capacitados mas capacita os escolhidos. (Há muitos pastores repetentes nessa escola de capacitação).
101. Não toque contra o ungido do Senhor. (Chavãozinho para proteger os líderes inseguros).
102. Não diga a Deus que seu problema é grande; diga ao seu problema que o seu Deus é grande. (Poesia de quinta categoria]
103. Você é a menina dos olhos de Deus [com remela?]
104. Aqui é uma igreja diferente (Sério? Então tá].
105. Se vocês confiam em nós, pastores, para trazer a palavra de Deus, devem confiar na nossa administração das ofertas. Não precisamos prestar contas a ninguém, só a Deus [Hummm. Acontece que a palavra foi fraquinha).
106. Chega de esperar; hoje o seu milagre vai chegar (Posso reclamar no Procon?).
107. Plante sua semente que você vai colher a cento por um (Pequenas igrejas, grandes negócios).
108. Deus sabe de todas as coisas (Que clichê cruel, na hora que não tem respostas para uma questão).
109. "Mateus, Mateus, primeiro os teus" [Não entendi, hã?]
110. Comunico o falecimento do irmão Fulano. Infelizmente, perdemos um bom dizimista (A família enlutada agradece pelo gesto de solidariedade...).
111. Depois do culto, compre meus livros e CDs de mensagens. Vão abençoar o ministério infantil que cuido. Tenho quatro filhos (Se a piada é sem graça, imagine a mensagem dos Cds e livros.).
112. Olhe para o irmão do lado e diga "você está bonito hoje" (Por que tenho que fazer esse tipo de coisa? Logo eu que sou gaúcho?).
113.Tem gente que lê muito e só cresce em sabedoria humana. O importante é o conhecimento de Deus ["conhessimento" com dois "esses", provavelmente...]Acho que chega, não? A lista do besteirol parece não ter fim.
Soli Deo Gloria.
Fonte: Pastor Ricardo Gondim [www.ricardogondim.com.br]
É muito besteirol pra uma crença só. Putz - Levi Nauter

meu querido Ricardo - Levi Nauter

Levi Nauter
Louvo a Deus porque não pertenço a nenhuma instituição evangélica. Fui, por muito tempo, assembleiano (nasci nela); depois, fui batista. Agora sou gente. Agora vivo. É óbvio que a culpa não é divina, não estou louco! Mas, sim, dos que vivem do poder institucionalizado.
Reproduzo aqui as palavras do meu querido Ricardo Gondim. Meu querido porque com ele me solidarizo e não aceito alguns pseudointeligentes que se aventuram - burramente - a analisar textos sem levar em conta as figuras de linguagens, as múltiplas possibilidades da língua. Cansei! Querem analisar, analisem. O brabo é tentarem nos colocar na fogueira devido a nossa opção. Lamentável. Desgraçada demonstração de graça.
Fale, Ricardo:
Deflagrou-se uma campanha nacional para me difamar. Adianto que ela não foi engendrada por alguém especificamente. Só aconteceu dos ratos saírem do porão imundo onde regurgitavam suas invejas e, unidos, passarem a se deliciar com os boatos que buscam me destruir.
Uma característica desse tipo de rato é de se acreditarem fortes. Como se alimentam da ração da maledicência, acreditam que a fofoca de quem não tem talento, unção, graça e educação se transformará em verdade. Mas, mesmo que ratos virem vampiros, ele não metem medo, pois continuam roedores. E ninguém precisa gritar exorcismos contra eles, já que acabarão mordendo uns aos outros.
Querido leitor deste site, não espere que eu me defina teologicamente. Minha teologia é provisória. Não sou adepto de nenhum rótulo doutrinário; não aceito arames farpados no meu pensar. Dou-me ao direito de examinar tudo e reter o que for bom.
Como o Paulo Brabo, condenei minhas idéias "à reformulação eterna". Antes que algum magno chanceler denominacional, que sobrevive das estruturas do poder de sua instituição, tente me taxar de herege, exponho aqui, publicamente, os autores que me influenciam. Não tenho medo de fornecer a lenha que pode me incinerar.
Leio Jose Comblin, Jürgen Moltmann, Frei Betto, Soren Kierkegaard, Henry Nouwen, Brian McLaren, Juan Luis Segundo, Andrés Torres Queiruga, Karl Barth, Paul Tillich, Rubem Alves (embora ele não se considere um teólogo), Jung Mo Sung, Antônio Carlos Melo Magalhães, Ricardo Quadros Gouvêa, Rene Padilha e outros. Gosto de autores judeus, católicos, protestantes e uns poucos evangélicos.
Ah sim! Também não receio ler os clássicos da sociologia como Roger Bastide, Micea Eliade, Max Weber, Émile Durkheim, Peter Berger, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freire.
E já que estou mesmo me expondo, também estudo filósofos da estirpe de Jean Paul Sartre, André Comte-Sponville, Nietzsche, Luc Ferry e Simone Weil.
Reconheço que fui precipitado em postar minhas entranhas existenciais aqui no site. Fragilizei-me diante de analfabetos funcionais que não conseguem transpor seus rígidos catecismos, não sabem abstrair na metáfora e sofrem de paralisia mental, quando expostos à linguagem mítica. São eles que, no espírito do Talebã, reúnem as massas para gritar: "Crucifica, queima, apedreja, metralha, explode".
Alguns mais imbecis espalharam pelo Brasil que abandonei a Bíblia para ler autores seculares como Lobo Antunes, Victor Hugo e Jorge Luis Borges – será que se esqueceram de Machado de Assis? Os menos avisados se escandalizam, pois não concebem como um pastor pode gostar de Fernando Pessoa, Drummond, Chico Buarque ou Lenine.
Nesse clima de absoluta estupidez, recebo vários e-mails me perguntando o que aconteceu comigo. Minha resposta cândida: Nada! Continuo o mesmo. Sou pastor de uma linda comunidade em São Paulo, que me ama; prego aqui e acolá; estudo no programa de mestrado de Ciências da Religião da Universidade Metodista; escrevo para duas revistas; mantenho as postagens deste site; e treino para a próxima Maratona.
O que acontece então? A escuma nojenta dos invejosos subiu à tona. Quer um exemplo? Acabei de ser exortado com a seguinte mensagem:
nome: XXXXQual é o preço? Mt 10:8telefone: XXXXXXXmensagem: Sou servo do Altissimo, e as vezes ouço algumas de suas pregações.Certa vez, indiquei o site e quando citei o seu nome, a pessoa me informou que o senhor cobra para pregar em outras igrejas, e em uma ocasião, uma igreja estava te pagando R$5.000,00, e outra ofereceu R$25.000,00, e o senhor atendeu a que ofertou mais.Espero que não seja verdade, mas, se for, peço que o Senhor tenha misericordia de sua vida.


Mesmo que eu desafie que qualquer pessoa prove que eu tenha me comportando com tanta baixeza no sagrado ministério, entendo que não conseguiria esvaziar com esse tipo de fofoca.
Resta-me imaginar que esse tipo de prática seja comum entre os ratos vestidos de pastor e que eles, para se protegerem, queiram me fazer igual.
Aviltado, sou tentado a invocar alguns Salmos precatórios, mas não vou fazer isso. Prefiro reafirmar que, por essas e por outras, não quero mais colar meu nome ao movimento evangélico – com “e” minúsculo; necessito de sanidade espiritual para continuar Evangélico - com “e” maiúsculo.
Soli Deo Gloria.

RG

Ricardo Gondim, in "Fofocas sem fim", www.ricardogondim.com.br

Os tambores de Nietzsche - de Rodrigo Ferreira

Recentemente, através do Youtube, deparei-me com uma cena, no mínimo, inusitada: uma famosa cantora gospel brasileira, em um show (que insistem em chamar de “ministração”) começou a afirmar que, ao som dos tambores que seriam tocados pelos seus músicos, as potestades do mal seriam destronadas em nosso país, Satanás e seus asseclas seriam eternamente envergonhados, e o nome do Senhor seria exaltado. Infelizmente, não sei se isso ocorreu antes do recrudescimento da violência no Rio pré-PAN ou antes da avalanche de escândalos morais no Congresso Nacional. Porém, vi que, ao serem tocados os tambores, houve um frenesi, tanto na platéia como no palco: a cantora, sem muita intimidade com instrumentos de percussão, começou a “surrar” um gongo chinês, atravessando todo o ritmo, repetindo a todo tempo os mantras “o Brasil é de Jesus” e “diabo, você está derrotado”.
Sinto-me meio sem rumo. Em minha conversão, há 19 anos, nunca esperaria ver um ritual de macumba gospel palatável à burguesia divulgado pela internet. Ao formar-me no seminário e assumir uma igreja como pastor, há dez anos, não pensava em concordar tão prontamente com a banda de hip hop “Apocalipse 16”, na música “Meus inimigos estão no poder”, uma citação da composição “Ideologia”, de Cazuza.
É triste pensar no cristianismo evangélico atual no Brasil. Tornamo-nos pastiche de uma religiosidade irrelevante — e, o que é pior, tornou-se prato cheio para uma mídia com má vontade e sedenta de escândalos. Afinal, em dois dos mais recentes escândalos no país, evangélicos estão envolvidos de forma negativa: a recente acusação contra um deputado federal, líder de uma denominação, que pagou para um pistoleiro matar outro deputado, também pertencente à sua denominação; e, no caso do senador Renan Calheiros, Mônica Veloso, a repórter que não sabe fazer planejamento familiar e engravidou de um poderoso senador meio sem querer, afirmou ser, de acordo com entrevista à “Folha de S. Paulo”, “evangélica, batista, do Vale do Amanhecer”.
Friedrich Nietzche é um nome que causa arrepios entre nós, nem tanto por sua colaboração filosófica vital ao nazismo, mas mais por sua virulência contra o cristianismo protestante, atacando sem dó nem piedade a moral e os valores cristãos. Para ele, a figura de Jesus é o retrato mais bem acabado do fracasso e da derrota. Esta moral deveria ser suplantada por uma outra. Para tanto, ele propunha a nova moral, a nova ética, a partir do super-homem. Mas, para que tal intento tivesse sucesso, era necessário ter a consciência de que Deus, a fonte da moralidade cristã, morreu. Ele mesmo escreveu, em um de seus textos: “Deus morreu e nós o matamos! Sinta o cheiro da putrefação divina!”
Será que Nietzche está, afinal, certo? Será que Deus realmente morreu? Afinal, qual a relevância de Deus para o movimento evangélico de hoje? Qual a relevância dos valores do Evangelho do Reino, reduzidos a um mero exorcismo com tambores em um “show gospel” mal tocado? Aquilo que aprendemos nos domingos, em nossas comunidades, é praticado no dia-a-dia? Aquilo que aprendemos é mesmo aquilo que está na sua Palavra? Deus é relevante, ou se torna figura de retórica, pedra de toque, fetiche religioso para manipulação mágica do mundo espiritual, como o temos reduzido ultimamente?
Se não retornarmos (ou melhor, nos convertermos) ao Evangelho do Reino, abandonando o falso evangelho da macumba gospel, infelizmente, seremos obrigados a imaginar Nietzche, com aquele bigodão de vassoura, dando folgadas gargalhadas no inferno e gritando em alemão: “Eu venci!”. Que sejamos sal em um mundo apodrecido e luz no meio das trevas religiosas. Que o Senhor tenha misericórdia de nós.
Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e pós-graduando em missões urbanas, hoje pastoreia a IPI de Serranópolis, GO.
Rodrigo, na minha opinião mandou bem. É o que penso dessa falta de criatividade musical cristã que vem tomando conta dos cristãos brasileiros. Carecemos de mais brasilidade.

[o desenho de um pai] – texto 15



Levi Nauter



- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. (...) Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. (...) E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande. (Graciliano Ramos)





O que prende mais a nossa atenção é o sentimento de culpa que todo homem experimenta, não pelo mal que fez, mas pelo bem que deixou de fazer.


A vida sempre traz conflitos, fundamenta-se no conflito, mesmo no caso da mais humilde célula que só subsiste defendendo-se constantemente contra o meio ambiente.
(Paul Tournier)










Falar de pai sempre foi para mim uma tarefa difícil. Somente agora, com a idade de Cristo, me é possível fazer uma reflexão. Mais que isso, a possibilidade está intimamente ligada ao meu desejo de também ser um pai. Sei dos riscos dessa empreitada, haja vista não existir um manual de boas práticas para essa nobre e linda 'tarefa'. Opto, contudo, por correr o risco. E o faço em função de duas razões: (1) porque nunca gostei da mesmice, o risco deixa a vida mais interessante e (2) porque tenho um pai - digamos - carnal, um pai celestial, um desejo de fazer parte desse rol, além de, na minha profissão, conviver com alguns pais.

O PAI TERREAL




Minhas lembranças paternas guardam um misto de alegria, tristeza e esperança. Essa tríade possivelmente acompanhar-me-á até minha velhice, quando, então, sob outra ótica, observarei minha atuação, meu desempenho, minha entrega ou falta dela ao longos dos irrecuperáveis anos. Equivale dizer que não se pode negar o passado; ao contrário, precisamos encará-lo de frente, de trás, pelos lados, por cima e por baixo. Assim é que se criará a possibilidade da mudança possível e/ou mudança necessária. Negar o passado é dizer sim à falácia, viver uma superficialidade disfarçada de profundidade.
Minha alegria tem a ver com saber-me filho de alguém. Saber quem é meu pai, como é seu rosto, qual o seu nome, a sua profissão. Lembro-me do seu colo na infância, um colo forte, aconchegante. Sentia-me bem protegido. A profissão de meu pai dava-lhe a condição de ter braços fortes, sua autoridade dentro de casa parecia-me incontestável. Na época escolar, quando algum coleguinha me ameaçava, ele prontamente resolvia o problema e o que me causava medo logo era dissipado. Na juventude ouvi alguns de seus conselhos - a rebeldia impediu-me de concordar com outros. Era sempre bom poder contar das minhas conquistas, o que fazia no colégio, no trabalho, na igreja.
Porém, ao lado dessa alegria, por vezes caminhava a tristeza. Isso porque nossos momentos de diálogo profundo foram poucos. Raramente conversávamos sobre nossos sentimentos. Os assuntos giravam, digamos, em torno de superficialidades e (pseudo)certezas. "Como foi o dia?", "obedeceste a mãe?", "fizeste os deveres de casa?". Havia momentos em que meu coração, por uma razão ou outra, parecia apertado. Tinha que arranjar um jeito solitário para o desaperto. Noutros momentos a razão do aperto era o próprio pai, a mãe havia prometido contar minhas traquinagens ao chefe da família. Enquanto eu não deitava na cama a fim de dormir para acordar no dia seguinte, meu coração quase saía pela boca. Nem sempre escapava ileso. Trinta e três anos depois, ainda pareço sentir a dor das surras que levei, muitas delas por motivos fúteis.
Também senti tristeza por ver um interesse muito maior em ausentar-se de casa do que uma alegria em estar com os filhos e as filhas. A igreja, o templo, a "obra de Deus" eram as culpadas, ou as desculpas. Tivemos tão poucos momentos de lazer com os pais que tenho de fazer esforço para lembrá-los. Os desfiles em comemoração ao sete de setembro são quase as únicas lembranças. No dia 7 acordava às seis da manhã para não perder de passear. O passeio consistia em ficar das sete às treze horas olhando a parada militar. Ficava com fome, mas agüentava quieto para poder garantir o passeio do ano seguinte. Fui herói, só hoje noto.
Não poderia deixar passar em branco a imagem que me abalava: um homem inexorável, impenetrável, infalível. Nunca o via chorar, era sempre forte, tudo sabia; mandava e desmandava. Que pena e que triste deve ser para alguém não poder ser humano, demonstrar que é frágil, que precisa de abraço, de aconchego tanto quanto uma criança. Que sem graça deve ser a vida sem a possibilidade do erro, do arrependimento, do perdão, do recomeço, da criatividade. Quão desumana deve ser a vida que nos exige perfeição. Que injusto terá sido Deus que nos exige perfeição colocando-nos num mundo de imperfeições.
Cresci, cortei o cordão umbilical, casei. Vivo na esperança.
Alimento uma esperança infindável na possibilidade de mudança. Imagino que todos os seres humanos são passíveis de erro e, sobretudo, da mudança de foco. Ou seja, acredito que arestas podem ser aparadas e um bom diálogo pode fluir a partir daí.


O PAI DE PRIMEIRA VIAGEM




Os meus sonhos com a paternidade não estão imunes à tríade. Compartilho com a Lu da imensa alegria de planejarmos um filho ou uma filha. Até sugestão de nomes temos. Na nova casa que estamos construindo, há um lugar especial para ela ou para ela. Dele, imaginamos uma pequenina criança saindo e batendo na nossa porta chamando-nos de pai ou mãe. Às vezes, enquanto estou dirigindo o automóvel, digo pra Lu: "ah, se tivéssemos um 'bichinho' aqui no banco de trás". A emoção toma conta!
Quando penso num filho ou numa filha imagino sua fisionomia, seus olhos (serão castanhos como os meus ou verdes como os dela?), o corpo, a voz, os diferentes tipos de choro, o cheiro, as manias, as manhas, as vontades, os desejos. Que histórias vou contar? Que músicas cantarei? Com o que vou me preocupar? O que, como e por que ensinar? Como fazer acordos? Em que momento discordar? Todas essas perguntas consideramos importantes; todavia, mais importante ainda é termos esse pequeno ser. Ele certamente será um presente de Deus nas nossas vidas. Com ele certamente muito mais aprenderemos do que ensinaremos.
Em face do que disse, poderia haver lugar para alguma tristeza? Ora, nossa única tristeza, se é que podemos assim nos referir, tem a ver com o mundo do trabalho. Seria muito bom se as condições financeiras permitissem-nos tê-lo antes. No entanto, não é assim. Só agora é possível realizar o sonho. De outra parte, a tal tristeza é logo superada pelo entendimento de que esse é o melhor momento para vivermos o que estamos vivendo.
As esperanças, portanto, são muito maiores.
Que esperanças? O que posso esperar na convivência com um filho ou uma filha? Na verdade minhas esperanças estão embrenhadas na minha cosmovisão. Ao explicitar minha visão de mundo, trago 'casado' aquilo que espero, que sonho. Meu esforço será dizer mais do sonho/esperança e deixar nas entrelinhas minha cosmovisão.
A maior esperança que carrego é o desejo de ser amado por meu filho ou filha. Tudo que disse até aqui, as emoções que me tomam ao falar de um vindouro filho é uma espécie de preparação para a sua chegada. Se minha imaginação corre mundos e mundos de sonhos, tem tudo a ver com a criança que fará parte da minha vida. Seria difícil saber-me não amado pelo meu filho.
Ser um parceiro na caminhada da vida de meu filho ou filha é outra esperança que acalento. Quero que ele ou ela possa contar comigo incondicionalmente, em todas as etapas da vida ou, como diz a Dra. Karin Wondracek, em todas as 'estações' da vida. Assim, quero mostrar-lhe o mar, o barulho das ondas, a gostosura de caminhar na beira da praia. Ao mesmo tempo, o perigo do mar, o risco que se corre ao sair de perto dos salva-vidas. Na primavera, quero - com ele ou ela - apreciar as flores, suas tipologias, os cheiros; a estética é um presente de Deus. Mostrar-lhe as folhas caindo, o vento as carregando e o burburinho que faz, será outro desafio no outono. A beleza da Serra, de um bom café, um bom livro, a culinária, as artes em geral, mas também o silêncio, a quietude, os temporais os relâmpagos, as chuvas. Ah, inverno da vida. Que desafios me aguardam! Estou ansioso por eles. Quero tanto ver e fazer parte da alegria de meu filho ou filha.
Não penso em ser o mestre infalível. Não me imagino com um livro de boas maneiras debaixo do braço, nem sonho com obras que tentam dizer como ficar rico, como ser profissional de sucesso, como ser um pitt bull. Caso ele ou ela opte por essas obras, tudo bem. Eles, espero, serão gente e farei de tudo para que vivam gentificados.
Penso em ensinar pelo exemplo, ensinar a fazer fazendo. Penso em pedir desculpa e perdão quando cometer erros. Penso em continuar coerente com meu discurso contra o machismo, contra os preconceitos de gênero e de opção sexual. Anseio disseminar nele ou nela a fé cristã que, com alegrias, tristezas e esperanças, venho cultivando - não obstante os ventos contrários. Mas uma fé cristã de mais prática que prédica, independente de denominação e/ou instituição eclesial. Uma fé com íntima relação divina porque com íntima relação humana.

O PAI CELESTIAL




Contrariando o que dizem alguns (que a relação com nosso pai carnal refletirá na relação com Deus), o meu relacionamento com Deus vem melhorando sobremaneira conforme me vou imaginando pai. Na medida em que tiro de mim as pretensas sabedorias, as doutrinas, os dogmas, vou chegando mais perto daquele que É. Por isso, no meu caso, a instituição demonstrou-se inútil, ineficaz. Sem ela é que venho compreendendo o sentido do relacionamento com Deus. Sinto a necessidade da companhia de outras pessoas, claro. Mas isso independe de um templo. O templo sou eu.
O Pai Celestial não me exige perfeição, se assim fosse não me criaria. Requer meu esforço e, ainda assim, concede-me o livre-arbítrio. Na passagem por esse Planeta, quer ver-me aproveitando da sua criação e quer ser adorado com a imensidão e a profundidade de todas as artes. Imagino que sua multiformidade exclua os rótulos, as nomenclaturas, as vãs doutrinas, o passa-tempo religioso. Possivelmente odeia o fundamentalismo. Um bom exemplo de pai é Deus que não poupou o próprio filho. Por outro lado, Cristo também é um bom exemplo de pai da fé, basta lermos os evangelhos.
A melhor notícia do pai celeste é que posso desabafar com ele todas as minhas alegrias, tristezas e esperanças. Suas misericórdias se renovam a cada manhã. Talvez esse seja o modelo a ser seguido, um amor acima de qualquer suspeita.
Em que pese a minha pecaminosidade, o Pai (com letra ‘bem’ maiúscula) me ama e tenho vivido cotidianamente esse amor. NEle não preciso ter medo de ser entregue por alguma estrepolia. Desconfio que Ele me acharia anormal se assim eu não fizesse. Se um filho meu não subir numa árvore, por exemplo, acho que estará faltando alguma coisa para ele ser considerado normal, gente. Também acho que esse mundo é o lugar no qual estou para duas consciências: (1) saber que vivo num processo de aperfeiçoamento para um mundo vindouro, cujo reflexo dele (2) tenho de esforçar-me para que comece por aqui. Isso significa, em outras palavras, que nesta Terra não há perfeições, há tentativas do melhor. O melhor está por vir. Preciso, portanto, aprender a partir do(s) erro(s). E o Pai sabe disso; Ele está no controle.
Só Deus, o melhor pai do mundo!
Obrigado Deus! Por tua graça estou vivo.




NOTAS NÃO MENOS IMPORTANTES

A ILUSTRAÇÃO deste texto foi retirada, com o todo o respeito, da bela novela de Drummond Amorim, Xixi na cama, publicada pela editora Dimensão, de Belo Horizonte, em 2006. Ainda bem, o livro está na segunda edição. O desenho de Robson Araújo.

A primeira citação foi retirada da página 10 da maravilhosa obra Vidas Secas, do maravilhoso Graciliano Ramos. Retirei da edição 83, publicada em 2001, pela Record. Na verdade fiquei na dúvida cruel entre essa obra ou um trecho de Infância. Esta ficará para uma próxima; a significação da outra, agora, pesou mais.

As duas outras citações são de um senhor com cara de carrancudo, mas que, no entanto, nos faz chorar com sua sensibilidade e sua minuciosa análise da alma humana. Ler sua obra tem sido a descoberta de que Deus tem muito para mim, apesar dos meus erros. Ele é autor, entre outras, das obras Culpa e Graça (editora ABU, 1985) e Mitos e Neuroses (editora Ultimato, 2002)

A Dra Karin H. K. Wondracek é a pessoa com quem venho aprendendo a ver a criação divina com mais graça e menos culpa. Com ela descobri que Deus tem o melhor pra mim em todos os sentidos. Duas obras, entre outras produções suas, destaco: Aprendendo a lidar com as crises, editora Sinodal, 2004 (em co-autoria com o Dr. Carlos Hernandez); e Caminhos da graça, editora Ultimato, 2006.

igreja emergente, por Ed René Kivitz

Ed René Kivitz
Bastou que ficassem sabendo que eu estava lendo Brian McLaren e Rob Bell para perguntarem se eu havia aderido ao “emerging church”, ou “igreja emergente”, um movimento que nas duas últimas décadas vem ganhando corpo na igreja evangélica, especialmente de fala inglesa.[1] Você agora é do Emerging church?, querem saber. A pergunta é típica de quem gosta ou precisa rotular pessoas, e muito peculiar à realidade evangélica brasileira que vive de modas do tipo agora é isso, agora é aquilo. De minha parte, sigo o que recomenda o apóstolo Paulo: examino tudo para tentar reter o que é bom. Interessante como tem gente que confunde investigação com adesão.Por trás da pergunta existe também uma certa ignorância a respeito do movimento emerging church. Primeiro, porque o movimento é recente e ainda não está consolidado em suas bases teóricas. Mas também pelo próprio espírito do movimento que visa romper com o dogmatismo da modernidade e abrir um diálogo mais aberto e inclusivo no contexto da chamada pós-modernidade. Dentre tantas tentativas de enquadramaento do movimento, opto por seguir o conceito de Brian McLaren:“What are we in the so-called emerging churches seeking to emerge from? We are seeking to emerge from modern Western Christianity, from Colonial Christianity as a white man’s religion”.[2]
Em outras palavras, a igreja emergente está emergindo de onde ou de que? De acordo com McLaren, da cultura e mentalidade modernas e do imperialismo religioso anglo-americano. Isso fica mais claro quando McLaren confessa que o Emerging church está atrasado:“African and African American Christians (Black theology) and Latin American Christians (liberation theology and integral missiology) have been hitting these themes with intelligence and passion for decades, but few of us listened to their spokespeople, whether it was Dr. King or Desmond Tutu, Gustavo Gutierrez or René Padilla”.[3]Agora sim posso responder se estou no Emerging church. Estou sim. Desde 1983 quando li René Padilla pela primeira vez. E depois continuei lendo: a série Lausanne,[4] Richard Shaull, Orlando Costas, Samuel Escobar, Robinson Cavalcanti, Severino Croatto, Norberto Saracco, Harold Segura, Pedro Arana, os irmãos Leonardo e Clodovis Boff, José Comblin, e mais recentemente, Frans Hinkelarmmert, Hugo Assmmann, Jung Mo Sung, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e André Queiruga.Há mais de 20 anos estou mergulhado no universo de pensamento onde o labor teológico acontece não apenas nas categorias da filosofia clássica, do padrão racionalista da modernidade, e do horizonte de reflexão norte-americano. Há vida, teologia, e eclesiologia fora do eixo do primeiro mundo.
Há inteligência entre os pensadores que falam os dialetos africanos, o espanhol e o português. Existem casas de profetas longe de Dallas, Atlanta e Los Angeles. Pena que as editoras cristãs evangélicas sejam casas tradutoras dos que falam apenas inglês.Oxalá o Emerging church se torne mais do que uma tentativa de dialogar com a pós-modernidade e um rompimento com o etnocentrismo anglo-americano. Oxalá o primeiro mundo ouça o suspiro dos oprimidos e considere fazer teologia para responder também ao sofrimento do corpo e não apenas às angústias da mente. Oxalá o mercado evangélico publique o que vale a pena ser lido e não o que vende. Oxalá os teólogos acadêmicos ocupem-se não somente com a ortodoxia, mas também com a práxis cristã. Oxalá os pensadores do Emerging church tirem o atraso – são benvindos em nossa estrada. Oxalá sigamos todos cobertos pela poeira dos pés de Jesus.[1]
Você pode encontrar mais informações em:
Scot McKnight. Five Streams of the Emerging Church, In: http://www.christianitytoday.com/ct/2007/february/11.35.html;Michael Edward. An emerging Christianity,In: http://emergingchurch.info/reflection/michaeledward/index.htm.07;http://igrejaemergente.blogspot.com.http://www.emergentvillage.com[2] McLaren, Brian. Church emerging. In: Paggit, Doug e Jones, Tonny. An emergent manifesto of hope. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2007, p. 149.[3] Idem. p. 147.[4] Congresso Mundial de Evangelização realizado em 1974 na cidade de Lausanne, Suíça, e que deu origem ao “Pacto de Lausanne”, que sintetizou a missão integral da igreja como “o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”.

REFLEXÃO

Levi Nauter



"A gente pode alimentar-se sem comer e, a rigor, pode comer sem alimentar-se. Por exemplo, ingerindo os lanches do Mac Donalds... (sic)"

Sírio Possenti, lingüista e professor da UNICAMP
A frase está registrada na obra A cor da língua e outras croniquinhas de lingüística, publicado pela editora Mercado das Letras.

[teologia bla-bla-blante] - texto 14


Levi Nauter





No exato momento em que acabo de rever (perdi as contas) o belo filme Um lugar chamado Notting Hill, estou tomando um ótimo café preto, com um saboroso bolo feito pela Lu. Gosto do filme pela trilha sonora (especialmente a que encerra a entrevista e o filme) pela elegância de Grant e pela boca da Roberts; acima de tudo porque fala de livros. Meu assunto não é livros, no entanto. Ando lendo bastante, estudando bastante, porém não vou tratar disso. Esse foi, digamos um mote.
Quero falar de um discurso bla-bla-blante. Uma teologia que me parece igualmente bla-bla-blante.
Estou pensando, ao engolir goles quentes de café, que – para mim – assuntos teológicos ou, como diziam na minha infância, coisas de Deus podem ser muito chatas, massantes. É um saco (perdoem-me a indelicadeza) essa coisa de Deus pra cá, Deus pra lá. Há assuntos para os quais não estou mais disposto a debater. Veio a minha memória o slogan da Philco: “tem coisas que só a Philco faz pra você”. Pois, tem coisas que são só pra se perder tempo. Discussão teológica está me parecendo assim. Mais especificamente, a teologia que vislumbro está longe do senso comum. Em geral, o fundamentalismo cristão, travestido de radicalidade e com aparência bíblica, não aceita o diferente. Então, é perder tempo na discussão. Demais a mais, minha vida cristã não está para chamar a atenção de crentes. Sirvo a um Deus multiforme.
Chamo de teologia bla-bla-blante essa disposição em tentar desmerecer a opinião do outro. Há um afã no fundamentalismo, um verdadeiro tesão em dizer e fazer valer, a qualquer custo, a sua palavra. Palavra recheada de “eu”. Um “eu” vazio buscando fortaleza nos chavões, nos “eu determino” ou “eu não admito isso” ou “eu sou o pastor” (leia-se eu quem mando); em suma, uma reedição da temática já bem abordada pelo antropólogo Roberto DaMatta, sintetizada na famosa frase “sabe com quem estás falando?”. Síntese também da teologia do medo.
E é bla-bla-blá porque nada acrescenta e torna-se irrelevante, porque não quer dialogar, porque não aceita contraponto, porque não admite paralelos. É bla-bla-blá pois propõe-se salvadora do mundo e sanadora de todos os problemas da humanidade. Pior de tudo, quer pasteurizar, tornar uníssono o que é ou pode ser plural. É bla-bla-blá porque não pensa, apenas vai na onda. E falo mal dela por experiência própria. Já fui adepto da salvação english; por um bom tempo achei que só os “gringos” possuíam talento – aos do sul fora dado o dom de interpretação de línguas, começando pela tradução das músicas e, num segundo momento, pela de livros. Nessa experiência que não nego, mas da qual não tenho nenhuma saudade, tudo deveria acabar com palavras do tipo gospel, mission, bless, yes. Esse tempo foi-se, graças a Deus e ao Guimarães Rosa, ao Machado, ao Graciliano Ramos, entre tantos outros 'evangelistas' da brasilidade. Descobri que não nasci por acaso num país de terceiro mundo, agora dito ‘em desenvolvimento’. Minha teologia parte da minha realidade para dialogar com outras realidades, e não o contrário. Não quero simplesmente adaptar-me ao norte.
Minha teologia não nega – sob nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto – a soberania divina. Apenas não aceita o senso comum, o fatalismo, o discurso fácil fora da realidade. Minha teologia não é marqueteira, ou seja, não fico contando quantos se converteram enquanto eu falei; não digo quantas vezes oro por dia, se jejuo ou não; não considero o outro como um número no rol de membros ou no rol dos ‘desviados’ (palavra desgraçada). Ah, não tenho o dialeto, não fico pateteando com os ‘tá amarrado’, ‘foi tremendo’, ‘meu amado’, meu isso-meu aquilo, nem com ‘o Senhor é isso dessa ou daquela cidade’. Também não perdi tempo fazendo o ‘mapa astral’ do lugar onde moro, muito menos para o belo lugar onde logo vou morar.
Minha teologia não é humanista, mas tem ligação com o humano porque é feita de gente e porque Deus se fez gente. Deus não se fez de tolo para ganhar tolos; fez-se de gente para ganhar gentes. Sou um cristão genteficado. Humano, pecador, carente de companhia, carente da misericórdia divina. Ela, por outro lado, não tem medo. Pouco se importa com o que dizem. Ela é livre, não está atrelada a templo, não está gessada, amarrada, atada. Sim, minha teologia está livre de frases feitas e de efeito. Vivo na dependência divina. E não há lugar melhor para estar.
Portanto não discuto mais com fundamentalistas, com fatalistas ou quaisquer tipos cuja intenção seja converter-me. Estou pronto, sim, para o diálogo, para a conversa, para compartilhar as maravilhas divinas. Contudo, não para concordar e ser concordado. Para ser respeitoso sempre, conivente às vezes. Em vez de discutir, vou ler, ouvir música, namorar minha esposa, passear, assistir a um bom filme e, creiam-me, conversar com descrentes.
A teologia bla-bla-blante só pinta o diabo. Vê Deus onipotente e tudo o mais que cause espanto, medo, receio, ressalvas. Esquecem-se do Deus-amor, do Deus que alivia o fardo e suaviza o jugo. A teologia bla-bla-blante é farisaica. A teologia bla-bla-blante possui pedras na mão para atirar.
Prefiro a teologia que dialoga. Cristo, basta ler a Bíblia, sempre dialogou mais. Foi incisivo quando necessário, chorou, riu, participou de festa, lia, conversava. Não tinha, diga-se logo, jeito machista.


A melhor notícia dos evangelhos é a graça. Talvez uma outra tão boa quanto essa seja a ausência de placa denominacional. Ufa!
NOTA
A ilustração foi feita por José Francisco Borges para a obra As palavras andantes, de Eduardo Galeano, 5.ed., 2007, publicado pela L&PM.

[democracia e cristianismo] – texto 13


Levi Nauter




Quem começar essa leitura deve concluí-la ou, então, não saia falando mal. Do contrário, serás anátema. Levi Nauter




Considero-me alguém democrático. Respeito as opiniões alheias, dialogo com gentes as mais diversas - até por trabalhar na área da educação, área de muito diálogo e questionamentos, área em que não se engole apenas uma visão de mundo. Ao longo dos meus poucos trinta e três anos, tenho escutado de tudo tanto a respeito do mundo quanto de mim. Chamaram-me de tudo nesses anos. Vários desses chamamentos foram escutados em silêncio. Aprendi (e ainda aprendo) muito com o silêncio, ele tem sido o professor que idealizo um dia ser.



Quando penso em democracia e cristianismo penso na História. E esta não tem sido conveniente nem conivente para com os ditos representantes de Cristo. Ou seja, historicamente a Igreja não tem sido democrática. E, na minha opinião, ainda não é. Todo o discurso dela gira em torno da unicidade, de uma só voz, de apenas uma visão, da unilateralidade. Aqui cabe um, digamos, clareamento. Não sou contra a que se tenha uma cosmovisão. Ao contrário, acho até necessário para estar vivo. O problema está no desrespeito.



A Igreja, ao longo da história, não respeita outra cosmovisão que se diferencie da sua. Ela, a meu ver, tem girado ao redor do próprio umbigo e recheado essa restrita visão com textos bíblicos. Com a máxima "só Cristo salva", com a qual compactuo, as instituições acham-se no direito de execrar quem não pensa da mesma forma. As milenares religiões orientais, os movimentos sociais minoritários, entre outros, são sistematicamente desrespeitados. Assim, absurdamente tenta-se criar um lado do bem (os salvos) e um lado do mal (os perdidos). Nessa, há julgamento sim. Ou se está no barco cristão ou se está no do diabólico. Eu prefiro dizer que não estou em nenhum. Primeiro porque não acredito em fatalismos. Segundo, porque se o barco cristão significa ser institucionalizado vou preferir estar fora.



Eu gostaria que democracia e cristianismo andassem de mãos dadas. Que o respeito ao outro tivesse o mesmo significado que o livre-arbítrio. E que essas duas frases fossem sintetizadas em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como amamos a nós mesmos. Gostaria de não ser execrado porque optei por não mais freqüentar um templo cristão. Espero pelo dia em que ser cristão não signifique vestir camiseta denominacional. Também sonho com a queima ou o lançamento no mar do esquecimento das tabelas nas quais constam quantos indivíduo fulano ou cicrano trouxe para a denominação; quanto foram batizados do grupo tal; quantas reuniões o grupo familiar fez. Para ser mais sincero, estou de saco cheio dessa ladainha.



Estou farto de ouvir milagres aqui, milagres ali. O povão, a plebe está doente e as lideranças estão com os bolsos cheios de dinheiro suado. A líderes construindo mansões ou casas tais que muitos dos seus membros nunca chegarão perto. Isso só pode ser coisa do diabo. Mas isso ninguém diz. Os discursos vazios que se ouve parecem dizer que os EUA e a pastorada brasileira vai salvar o mundo. Pastor pregando parece que nunca peca, nunca é tentado, nunca fala mal de ninguém. É perfeito, só falta morrer e ir pro céu. Chega!



Há exceções, claro, como em tudo na vida. Contudo, os que reivindicam essa liberdade e democracia cristã são tachados de ecumenistas. Tacham sem saber o que estão falando, sem a devida profundidade no estudo da palavra, do vocábulo. Esses fraternos irmãos - alguns dos quais nem sabem que eu existo - têm contribuído no meu aprofundamento com o Deus Todo-Poderoso. Esses serão os que vão (ou já estão a) enfrentar a grande tribulação gospel. São os diabolicamente chamados de rebeldes, insubmissos. Com esses me congratulo. Junto-me a eles para denunciar e anunciar. Denunciar injustiças, falácias; anunciar o Cristo que salva, que dá livre-arbítrio, que respeita, que é justiça e, sobretudo, amor.



Por enquanto estou vivendo a verdadeira liberdade. Com ela, tenho lido intensamente obras que edificam, que informam, que formam, que entretêm. Leio livremente, sem ter que ouvir sermão sugerindo o contrário, livros cristãos e não-cristãos. Diversas crenças têm passado pelas minhas mãos. E tem sido um privilégio folhear tais páginas. Poesias, contos, novelas, crônicas, cartas, desabafos, textos sagrados. Músicas diversas (como o maravilhoso grupo Mawaca, por exemplo), com a companhia da minha amada Lu, além de um bom cafezinho ou vinho. Não há como não gozar essa maravilha. E isso, pra mim, é privilégio dado pelo Deus a quem sirvo.



É por essas e outras que não vou mais discutir com quem, de antemão, quer impor. Vou optar pelo silêncio ou pelo desabafo, conforme a situação. Minha solidão tem sido muito produtiva. Estou rodeado de gente que viveu muito antes de mim, que sofreu tantas ou mais agruras: Paulo Freire, Kierkegaard, Nietzsche, Chesterton, Pagu, Ricardo Gondim, Caio Fábio, Robinson Cavalcanti, Elis Regina, V. Gogh, Gilberto Freyre, O Rappa, Mundo Livre S/A, entre tantos outros que me fogem da memória neste instante. Fogem para depois exigir companhia ao longo de páginas, por vezes, amareladas; fogem para depois compartilharem comigo os ritmos brasileiros, afro-brasileiros, maravilhosos.
Termino com o maravilhoso Freire, educador e mestre:

Estar só tem sido, ao longo de minha vida, uma forma de estar com. (...) recolhendo-me conheço melhor e reconheço minha finitude, minha indigência, que me inscrevem em permanente busca, inviável no isolamento.

Estou na aventura com Deus. Ele é o meu guia. Não aceito outro porque este teria algum conhecimento a mais, porém tão terreal quanto o meu. Com Ele é diferente e essa é a minha preferência.



Notas
FREIRE, Paulo. À sombra desta mengueira. 4.ed. São Paulo: Olho d'água, 2004, pág. 17.

A linda ilustração desse texto é um desenho da maravilhosa escritora infanto-juvenil Eva Furnari. Ela escreveu e desenho para a obra Advinhe se puder, publicado pela editora Moderna, 2.ed., 2002, p. 18.

profecia nietzscheana

Levi Nauter


"faço gosto antes em ser um sátiro do que um santo"
Friedrich Wilhelm Nietzsche
Pelo direito autoral, informo que o filósofo alemão disse essa ótima frase em Ecce Homo.

[excomunhão] - de Ricardo Gondim












[levi nauter] Mais um ótimo texto desse pastor que tem muito mais eco ao falar do que eu. Mas é exatamente o que penso. Não tiro uma vírgula. Leiamos:









Estou ouvindo o áudio book, "Generous Orthodoxy", do Brian McLaren, presenteado por meu amigo Carlos Alberto Junior. Espero e oro para que alguma editora brasileira se apresse em traduzi-lo (quem sabe inglês deveria comprá-lo imediatamente, aproveitando que o dólar está barato).Quando ouço esse pessoal da "Emergent Church", com quem tenho grande afinidade, mais me convenço de que o movimento evangélico, ou "evangelical", permita-me o estrangeirismo, é um barco que faz água.Há algum tempo, afirmei que não me considero mais "evangélico" e causei espanto entre meus pares. Porém, cada dia que passa, quanto mais notícias ruins sobem dos porões denominacionais, e quanto mais o Youtube mostra piadas sobre o besteirol dos púlpitos, mais convencido fico de que nada tenho a ver com o que foi meu berço religioso.


Minha "auto-excomunhão" do movimento evangélico não é estética, embora eu não tolere mais ouvir os cânticos de poesia rala e de música pobre que fazem sucesso; não agüento mais hinos de guerra, convocando os crentes para pisar os inimigos. Nem falo das coreografias das danças. Horrorosas!


Minha "auto-excumunhão" do movimento evangélico não é ética, embora eu tenha nojo do grande número de políticos que, em nome de Deus, exercem seus mandatos com as mesmas práticas que os mais nefastos; não suporto mais conviver com evangelistas e pastores, donos de um discurso radical quanto ao dogma, ao credo, ao moralismo sexual, e que sabem papagaiar a Reta Doutrina, mas se comportam como inescrupulosos manipuladores, sempre ávidos por dinheiro.


Minha "auto-excomunhão" do movimento evangélico não é doutrinária. Eu continuo crendo na Trindade; tenho a Jesus Cristo como Senhor e Salvador de minha vida; falo em línguas estranhas desde minha experiência pentecostal; creio e dou testemunho de milagres; oro por libertação de endemoninhados e aguardo novos céus e nova terra.


Minha "auto-excomunhão" do movimento evangélico aconteceu porque não posso conviver com auto-proclamados "teólogos" que guardam suas doutrinas e conceitos como verdadeiras vacas sagradas; não gosto do clima de caça às bruxas, que apedreja e queima quem ousa mexer em "cláusulas pétreas".Não tolero a intolerância, não aceito a exclusão, não me sinto bem com discursos fundamentalistas. Acredito que toda interpretação é interpretação e nada mais, e que ninguém - nem Santo Agostinho, nem Armínio e nem eu - tem a última palavra quanto a verdade.Minha "auto-exclusão" do movimento evangélico aconteceu porque cansei de ficar tentando ler a Bíblia com o literalismo fundamentalista.


Acho fatigante ter que, constantemente, fazer ginástica para explicar com a exegese própria dos evangélicos, textos que discriminam as mulheres em Deuteronômio, ou aquele que Deus manda um espírito de mentira para confundir os profetas. Não quero mais fazer contas para explicar para os adolescentes como a arca de Noé pôde abrigar todos os insetos, mamíferos, aves, répteis e batráquios do planeta.


Minha "auto-exclusão" do movimento evangélico aconteceu porque não tenho mais estômago para ficar ouvindo sermão do tipo: "Deus é poderoso, ele vai fazer milagre", e fechar meus olhos para os exilados de Darfur, ou para os miseráveis que esperam nas filas dos ambulatórios imundos da baixada fluminense. Não quero viver a fé ensimesmada e privatizada que tanto se alastrou, e que busca, ou convive, com o conceito burguês de mundo. Na verdade, não consigo mais orar pedindo bênção, proteção, imunidade, prosperidade ou livramento. Não quero ter que exercitar fé para "ver Deus abrir as janelas do céu".


Minha "auto-exclusão" do mundo evangélico aconteceu porque tenho sede de ser íntimo de Deus; porque, intuitivamente, percebo que a Bíblia possui uma riqueza imensamente maior do que me ensinaram; quero viver na liberdade do Espírito, sem medo das implicações e dos desdobramentos mais "perigosos" dessa decisão.


Minha "auto-exclusão" do mundo evangélico aconteceu porque me apaixonei por Deus de uma maneira que considero linda - mas que fica na contramão da maioria. Estou tão absolutamente cheio de curiosidade sobre dimensões da verdade que, reconheço, jamais compreenderei completamente; estou com sede de ler como nunca li, rir como nunca ri, dançar como nunca dancei; orar como nunca orei. Quero glorificar a Deus com leveza, sem paranóias de que o diabo vai me pegar se eu der brecha ou que serei punido com rigor se pisar na bola.


Minha "auto-exclusão" do mundo evangélico aconteceu porque hoje vejo meu Próximo como amado de Deus e não mais como filho da ira; de repente, comecei a perceber que a Graça foi espalhada sobre a terra assim como o sol, que indiscriminadamente abençoa.


Tento desvencilhar-me da linguagem excludente dos crentes. Já não tenho medo de dizer que aprecio "música do mundo", que considero os "Médicos Sem Fronteiras" uma bela expressão do amor de Deus, e que vou estudar, com enólogos, os mistérios dos melhores vinhos. Antes que me esqueça, não acho que treinar para uma maratona seja perda de tempo.Não me definirei por nenhum movimento porque acho que os movimentos, qualquer um, são cercas que empobrecem; não defenderei uma teologia específica, nem a Relacional, porque não acredito que elas sejam suficientes para explicar o Eterno.


Gosto da frase de Paul Tillich: "Deus está para além de Deus". Para onde vou daqui pra frente? Anseio caminhar humildemente com meu Senhor; vou tentar ser justo, desenvolver um coração misericordioso e amar a paz.






Soli Deo Gloria.






Ricardo Gondim






Ilustração de Clóvis Dias Junior in O ARQUEÓLOGO DO FUTURO, de Maria Valéria Rezende, ed Planeta, 2006.

frases que ouço porque saí da Igreja 3 - levi nauter

Levi Nauter
Levi, todas as pessoas que conheço e que fizeram o que tu tá fazendo acabaram montando uma igreja e se deram mal.

[galardão] - texto 12

Levi Nauter


Costuma-se dizer que Deus Nosso Senhor sacia o estômago antes dos olhos; não consigo percebê-lo: meus olhos estão fartos e cansados de tudo, e, contudo, morro de fome. Sören Kierkegaard

A pedra na nossa coroa celestial está garantida. Agora parece que é certo. Houve uma reunião no céu e a liderança decidiu fazer-nos uma espécie de oferta em razão da insalubridade evangélica que, ironicamente, tão de perto nos rodeia. Os mais bem-aventurados são os pertencentes às denominações pentecostais e neo-pentecostais, tendo em vista terem sido muitas vezes engodados pelos chamados 'homens de deus'. Segundo um ministro (no céu também é utilizada essa nomenclatura politicamente correta, em que pese pouco dizer do ocupante do cargo) redator da ata, os que se enveredaram para os mini ministérios também estão neste rol de agraciados. Também não ficou de fora aquele rebelde, insubmisso, chamado por alguns de desviado, cuja opção foi não pertencer a uma placa denominacional. Ufa! Fui salvo. Note-se a misericórdia divina.

A reunião celestial foi às pressas, uma correria. Os preparativos para "As Bodas" tiveram de ser suspensos devido a falta de colaboradores - no céu, como na terra, anjo não é empregado de ninguém. Para quem não sabe, "As Bodas" é uma espécie de Oscar, para ficar com um exemplo de um lugar que se diz cristão; ou Copa do Mundo, para ficar com um exemplo que respeita bem mais as diferenças. Particularmente prefiro a Copa, nela a possibilidade de encontrar-se oprimidos é bem maior. Pois, a reunião extraordinária não foi assim como nalgumas Convenções pentecostais: com muito barulho e pouca ação efetiva depois do eco. Não. Lá a coisa parece ser mais dinâmica, foram direto ao ponto: ser cristão-evangélico está tão difícil que a membresia merece um prêmio - acrescente-se menção honrosa aos que optaram, como eu, por sair da instituição e viver a verdadeira liberdade cristã.
O galardão será distribuído segundo a opressão sofrida por cada fiel. E não está ligado necessariamente ao que se fez de visível, senão ao íntimo do coração de cada um. Sinto muito, mas o anjo redator deixou claro que todos, sem exceção, receberão uma placa de ouro maciço com o seguinte dizer em ouro branco:
"Sejam bem-vindos, vós que viestes da GRANDE TRIBULAÇÃO GOSPEL"

Sim, você leu corretamente. Todos nós cristãos receberemos um epíteto: "os que vieram da grande tribulação GOSPEL". Logo explico. O anjo não deu grandes detalhes, disse-me apenas que há uma apreensão e uma leve tensão para que Cristo volte a esta Terra. Porém, o mais estarrecedor é que a volta não será em função da proliferação incomum da pecaminosidade, da iniqüidade, da concupiscência. Será, sobretudo, por causa da instituição Igreja. Ou seja, a razão do Apocalipse dever-se-á muito mais aos chamados co-irmãos do que aos servos do inimigo. Quem diria? Nessas alturas, bem-aventurados são os mortos porque não estão ouvindo nem vendo o que nós, os vivos, temos escutado e visto.
Gostaria muito de ter falado mais calmamente com o agente divino. Infelizmente a agenda do Além não foge muito ao nosso modelo. Talvez nisso tenham razão os defensores de que o nosso mundo terreal é reflexo do mundo espiritual. Espero que isso não seja cem por cento real, afinal, o mundo terreal está explodindo. O anjo resumiu o que pôde, não lançou mão de parábolas porque hoje estamos muito mais acostumado com mensagens-receita - aquelas do tipo "como tomar posse da bênção", "receitas para viver melhor" e assim por diante. Também não quis dar ênfase ao famigerado inimigo, o diabo, o satanás, o coisa-ruim. E num ímpeto, meio raivoso, meio irônico, disse que na burocracia evangélica há ministérios e/ou departamentos específicos para cuidar dessa área, gente, no dizer angelical, que já entrevistou os camaradas do mau, sabe até nomes, características indumentárias, além de quase já terem uma espécie de mapa astral dos referidos.

Então, do inimigo não falemos. Resta-nos a "Grande Tribulação Gospel" (que indicarei como GTG).
E aí é que está, a GTG é como o diabo, mostra-se como um anjo de luz, como se fosse bela, criativa e sensualmente atraente. É exatamente com e por essas características que ela atrai adeptos. Ninguém iria atrás de alguém com cara de desencanto, de monstro ou sabidamente mentiroso. Ela não ruge como o leão, na pós-modernidade há maneiras mais inteligentes de atração. Por isso veste-se e lança mão de gravadoras, editoras, jornais, CDs e DVDs de pregação. Ou seja, busca ganhar-nos a partir de discursos - no sentido lingüístico da palavra.
A GTG é diabólica porque engoda-nos, ilude-nos e, em razão disso, não resolve nossos problemas. Acaba por deixar muitos de nós em depressão, achando-se por baixo, imaginando que Deus possa ser um estraga-prazer. Tal como a serpente no paraíso e como o tentador de Cristo no deserto, a GTG distorce os escritos bíblicos.
Como isso acontece? O agente divino foi legal comigo, não me arrebatou - como outros privilegiados ou azarados que puderam escrever uma divina revelação do céu e do inferno -, apenas foi mostrando-me, digamos, de maneira mais prática.
As ditas mensagens ou preleções proferidas pelos pastores, bispos etc, são muitas vezes uma afronta à capacidade humana de raciocínio. Superficiais, elas massageiam o ego dos gogós-liderança que, a cada dia, aumentam suas contas bancárias. Suas mensagens são do tipo receita, parecem-se com os livros de auto-ajuda: "se você quer vitória, ore assim"; ou, se você quer vencer a tentação, faça esses 'dez passos'. E acaba que a vida segue com suas complexidades e a membresia tateia buscando praticar os delírios do homem de deus. Muitos destes parecem que não vivem neste mundo, devem ser ETs, tal é prepotência com que se dirigem aos ouvintes sem incluirem-se como pecadores, como propensos a errar tanto quanto a membresia ou leigos. Com essa aura, saem a sermonar por todos os cantos e a utilizarem-se do poder midiático. Assim, gravam CDs, DVDs e publicam livros com mensagens. Se dão entrevistas a importantes canais de televisão, também gravam e vendem. Tudo é motivo de venda. Tenho a impressão que quase a totalidade desses pastores midiáticos é que merecem o título de "vendedores pitt bull". Não têm nenhum constrangimento de dizer: "esse livro deveria custar R$ 100,00, mas, como é pra Deus, estamos fazendo uma promoção e ele custará R$ 99,90". E não têm nenhum pudor ao dizer que o tal livro "poderá mudar o curso da história da sua vida".
Contudo, a venda ainda é democrática, afinal, compra quem quer ou pode. O engodo maior está no pedido de dinheiro sistematizado; para esse fim, criam-se nomenclaturas próprias e até criativas: colaborador fiel, patrocinador, evangelizador, entre outras. Alguns desses provocadores da GTG anunciam a recompensa: todos os que contribuirem (R$) receberão uma bênção especial de Deus, desde que enviem um fax comprovando o pagamento. Mas notem o detalhe: a bênção é por conta de Deus, ou seja, se Deus não abençoar a culpa ou é do próprio Dono da Obra ou do contribuidor que, pobre e coitado, não tem fé. O anjo, como eu, acha isso deplorável.
Deplorável porque é uma falta de vergonha. Isso é um assalto, isso é pecado, isso é diabólico. Um determinado ministério, dono de empresas de comunicação, sem nenhuma consciência ética sai cobrando por tudo e pedindo dinheiro como se isso desse em árvore. Uma dessas emissoras, passa, aos domingos, um programa no qual os cantores de seu casting deleitam-se numa churrascaria. Quantos dos patrocinadores vivem essa mesma vida? Quantos desavisados deixam de fazer o seu próprio churrasco e, no entanto, assistem os homens de deus 'mandando ver numa picanha'? Concordo com o anjo, nossa diferença é que ele mora lá e eu cá.
Há uma superficialidade no meio gospel, no meio evangélico. A melhor coisa que podemos fazer é não ligar o rádio nem a televisão. As mensagens são como 'tapinhas nas costas' das pessoas, embalados por músicas, em sua maioria, superficiais, que só cantam vitórias. Ouvindo essas músicas que estão 'na onda' nos apequenamos intelectualmente, elas dizem apenas "como Deus é bom", "você vai vencer ou vencer" ou como a famigerada "tá chorando? Louve".
Foi pauta no céu esse superficialismo e esse afã pelo dinheiro. Não há justificativa plausível - a não ser o fortalecimento do capital e não do evangelho - para esse comércio desmedido. As músicas já não cantam nossa realidade, apenas traduzem a realidade de outros países. Paradoxalmente as composições nacionais mais parecem terem sido feitas com o imaginário dessas traduções que nos chegam. Estamos perdendo a identidade cristã nacional, se é que algum dia a tivemos. Nossos ritmos (ricos), nosso linguajar, nossa gramática, nossa cosmovisão, nossa identidade está esvaindo-se. Não sabemos mais quem somos. O resultado é que esperamos um lançamento musical no exterior para traduzí-lo (muitas vezes uma má tradução) e cantar como se fosse nosso, como se pertencesse ao nosso contexto. Faz tempo que nossa música não é profética. O anjo, preciso registrar, está querendo levar alguns bons CDs brasileiros. Ele gostou da Maria Rita, dos clássicos Chico Buarque, Caetano, Tom Jobim, Elis e até, pasmem, Rita Ribeiro.
Os livros estão tomando o mesmo rumo de publicações seculares: Je$u$, um bom negócio. É uma raridade encontrar obras com profundidade teológica, com conteúdo típico da experiência com Deus. O que vemos nas prateleiras é o mesmo que encontramos em grandes magazines, isto é, livros-receita. Como ter sucesso no empreendedorismo gospel, como saltar de 10 para 10.000 membros. Como montar uma equipe de louvor, como lotar a escola dominical. Como ter sucesso, como se relacionar bem com as pessoas. Esses são os temas tratados. E quando queremos algo mais, encontramos obras que dizem pouco e dão aparência de profundidade. É o caso de obra com títulos do tipo "como derrotar o devorador". O anjo não se conteve, chegou bem perto do meu ouvido e lascou: "vá ler Machado, Drummond, Adélia, Scliar, João Ubaldo, Paulo Lins. Vocês têm tanta gente boa!". Eu acho que ele tem razão.
E as Bíblias? O que são essas Bíblias? Não estou me referindo, claro, às diferentes importantes e necessárias versões disponíveis. Falo, por indicação do mensageiro e 'ateiro', daquelas que inserem estudos: da mulher, do jovem, do homem, do ministro, vida espiritual, apologética, vida financeira e todas as que ainda virão. Vivemos um festival, quem dá mais? O anjo me confidenciou que prefere aquela simples, sem nome de denominação que, inclusive, e é mais barata. Não possui nenhum tipo de estudo, essa Bíblia é a melhor. Com ela é possível ter fome e sede. Ela permite a aventura.

Nesse momento de superficialidades, o melhor é optar por aventuras com Deus sem a instituição. A instituição quer ter lucro porque precisa sustentar-se. Para manter sua estrutura carece de grana. E não há nada de errado nisso, o erro está em não ter limites éticos e até morais na busca dessa necessidade; o erro está na perseguição de sonhos alheios aos interesses da membresia - até porque elas nem têm voz. Sim, a membresia não tem voz. Não há um momento para o contraditório na programação eclesial. Cabe aos integrantes da denominação ouvir o sermão, internalizá-lo e orar pelo ungido. Se algum indivíduo tiver dúvidas? "Leia a Bíblia e era isso". Já li num documento de uma instituição: "o discípulo obedece mesmo sem entender o que está fazendo porque sabe que é pra Deus". Não consigo concordar com essa tese. Deus, até onde sei, não tem vocação para ditador.
A aventura com Deus é muito melhor que as regras institucionais. Nela, não temos ninguém dizendo-nos "faça isso, não faça aquilo", "isso pode, aquilo não". Somente nessa aventura é que nos tornamos realmente autônomos da fé. Apenas na aventura vivemos a dita novidade de vida e a verdadeira liberdade. O costume nos faz considerar que é bom ser guiado por alguém que se diz apto para ser nosso guia e, assim, não vivemos a liberdade cristã, simplesmente porque não existe liberdade vigiada. Liberdade com a possibilidade de sermos repreendidos por usá-la como bem entendermos é falácia. E isso nada tem a ver com responsabilidade, que precede a liberdade.
Nesse novo caminho, somos efetivamente dependentes de Deus e Ele não nos responde como queremos. Sua vontade, na aventura, é soberana. Não existe EU com prestígio, isto é, aqueles líderes que adoram o "eu declaro", "eu determino", "eu abençoo". Na aventura que defendo não há receitas. Nela, o Cristo Salvador se apresenta em Sua multiformidade na medida em que vamos trilhando os caminhos da graça, enquanto saboreamos e percorremos os corredores, ruas e ruelas, às vezes íngremes, de sua Palavra. E parece não haver melhor jeito do que fazer esse exercício com curiosidade, humildade, com prontidão, sem pressa, vivendo intensamente cada momento, cada passo. A vivência vai tomando corpo, tornando-nos mais exigentes, as palavras vão adquirindo mais substantividade, o que antes nos satisfazia vai como que perdendo sabor para dar lugar a novas combinações. Nossa inteligência, dada por Deus, começa a ser exigida, turbinada e, numa espécie de explosão de graça e bondade divinas, de maneira que vamos nos tornando produtores de saberes. Mas a produção não pára em nós, com gemidos inexprimíveis pede para sair, ser compartilhada.
Nessa mesma aventura ocorre algo impensado: tornamos-nos sensíveis. Cria-se, paulatinamente, uma teologia do sensível, que não deve ser confundida com melindres. Tal acontecimento faz-nos ver Deus em lugares inesperados. Esses lugares inesperados acabam por nos mostrar que acreditávamos em falácias do tipo 'quem não louva a Deus louva ao Diabo'. A teologia do sensível aprimora nosso amor e, em conseqüência, vai lançando fora a teologia do medo. A sensibilidade mostra-nos, então, Deus em mais coisas e não apenas nos elementos sagrados. Assim é que podemos descobrir Deus em muitas músicas do universo secular-folclórico brasileiro, nas artes em geral e em toda a criação. A falta de contraponto em meio às preleções evangélicas são facilmente encontradas na famosa MPB. Por exemplo, quando cantamos "Paraíba masculina mulher macho, sim, senhor" podemos ampliar a reflexão e chegar nalguns questionamentos: por que muitos homens acham que têm de oprimir a mulher? Por que a igreja-instituição, ao longo da história, perpetua essa opressão? Porque poucas mulheres reclamam?
A aventura com Deus é infinitamente mais salutar que a dependência (quase química) de um líder religioso. Porém, a aventura não dá mídia; tudo sofre, tudo crê. É nela que podemos dizer "grandes coisas fez o Senhor por nós" ou "até aqui nos ajudou o Senhor". A aventura cristã não fica quantificando pessoas nem eventos (50 pessoas se converteram, realizamos 3 encontros). A aventura não nos estressa, a dependência sim.
É por essas e outras que o nosso galardão, agora, está garantido. Ainda bem que Deus é bom!

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Maria Flor

Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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