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Levi Nauter
quinta-feira, 23 de julho de 2009
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Levi Nauter
Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer. Sêneca
Merecidamente estou curtindo minhas férias de inverno. Depois de um primeiro semestre de correria, o segundo promete mais calmaria. É uma felicidade poder estar por casa – ao lado de duas mulheres muito especiais: minha mulher e minha filha. Junto com isso, quero rever meus poucos amigos, ler bastante, ouvir mmmuuuuuiiiittttaaaa música. Darei muitos beijos no meu anjinho enviado por Deus.
Com o avanço da Gripo A, fui agraciado com mais alguns dias de folga, de puro alívio.
Textos por aqui vão demorar, só lá pelo meio de agosto. Quero aproveitar bem minha estada perto de meus amores. Sopa, vinho, founde com alguns primos são alguns dos atrativos que me aguardam.
Fico também – como se tivesse um facão em minhas mãos e uma madeira para talhar – polindo Companheiros de caminhada: uma opção sem igreja.
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Levi Nauter
sexta-feira, 10 de julho de 2009
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Levi Nauter
Já faz algum tempo que o clipe abaixo está rodando o mundo. Na minha opinião ele, há muito, vem prevendo aquilo que só agora nós – tupiniquins – estamos recebendo sob uma enxurrada de livros. O propalado Cristianismo Criativo não deveria ser novidade em nossas vidas. Infelizmente, porém, poucos cristãos, essencialmente os evangélicos de toda a espécie, são adeptos da arte, do belo, da estética. Bem que o filminho poderia rodar outra vez por essas bandas.
Não posso deixar de tocar na denguice da Rebecca S. James. Uma música é possível ouvir; mais de uma, só se a gente gostar de mulher dengosa (não é bem meu caso). Quanto ao Chris Tomlin, parece-me que ele pouco usa de criatividade; consider-o uma mesmice.
Ainda assim o clipe vale a pena pela mensagens que traz na imagens captadas.
Eu nunca fui muito crente. Cria e creio num Deus, evidentemente, mas não nesse difundido pela mídia gospel, tampouco nesse que vem se perpetuando pela tradição. Sempre tive grande dificuldade em acreditar na mandingomania existente nos templos evangélicos, especialmente nos neopentecostais (os pentecostais, digamos, clássicos tiveram de apelar pra não perderem a freguesia). Copo com água, pozinho santo; óleo disso, óleo daquilo são pífios exemplos de um vasto exemplo catálogo de enganação que tão de perto nos rodeia. A coisa tomou uma forma que, às vezes, parece um erro não acreditar nessa papagaiada. Outro dia passei na frente de um templo esteticamente feio (feiíssimo). Nele, uma faixa ‘encascurrada’ sugeria: “participe de sete quartas-feiras da vitória e ganhe sua causa impossível”. Que deus chinelão que dá bênçãos impossíveis e não arruma a própria casa?
Eu não acredito nisso. Acredito na racionalidade, no culto racional. Creio na inteligência, na cultura, na informação, no conhecimento, na ciência. Uno-me ao John Stott: crer é pensar. Ser cristão é ser humano, é acreditar que quanto mais humano mais perto de Deus vamos ficando. Ele se fez humano vindo ao nosso encontro, salvando-nos – como diria o Elienai Cabral Jr.[2] – da perfeição.
Por que estou escrevendo? Porque a tal mandingomania ultrapassa o evangelho. Aliás, uma reflexão até superficial revelará que o ‘evangelho’ tomou posse do mundo e não o contrário. O que era ‘despacho’ na esquina tomou forma gospel e está mais profundo: foi para dentro das casas. A rosinha que eu via junto com a bala de banana, na infância, tornou-se a rosa ungida, por exemplo. Trabalhei numa escola onde, certa vez, num despacho, uma cruz feita com sal causou frisson. A diretora chamou um pastor a fim de “desmanchar a coisa ruim”. Hoje irmãos em transe (ou querendo transar) cruzam no corredor de sal (olha a frieira!). Ouvi muito sermão contra a música do ‘mundo’, louvava o diabo e não a Deus quem a escutasse. Agora, num dia da semana, irmãos e irmãs – agarradinhos – louvam-se ao som da chata Celine Dion ou da protuber(r)ante Mariah Carey. Um vídeo da Colbie Caillat ou da Corinne Bailey Raeseria muito mais interessante; o clima pintaria mais rápido. E um do George Michael?
Agora eu tenho uma filha. A linda Maria Flor tem-me feito um pai muito feliz. Ao mesmo tempo, estou descobrindo outras crenças, a das velhas senhoras, devotas da benzedura e das simpatias. No ambiente fundamentalista em que me criei não havia tais conhecimentos.
Conversei sobre a bebezinha não evacuar. “Dá leite de vaca, virá uma diarréia fenomenal e resolverá o problema”.
- Ah, ela também não ta dormindo direito à noite – disse curioso pela resposta.
- Pega uma camisetinha dela, vire ao avesso e pendure na porta. Pode fazer que funciona.
Fiquei abismado. Mais de uma pessoa me falou a mesma coisa. Nunca ouvira aqueles conselhos/receita. Também pudera, nunca tive filhos.
E mais receitas:
- a filha tem soluço? Pegue ‘pluminhas’ da roupa dela, faça uma bolinha; em seguida, com a língua, faça o sinal da cruz na testa da criança e coloque a bolinha lá (na testa, claro). Nunca testei a receita, só o tempo para a confecção da bolinha somado ao tempo de escovação pré-sinal-da-cruz já fazia o soluço fugir.
Recentemente comentava que minha filha, com três meses, estava rindo pra caramba; dava uns gritinhos dignos de muitos beijos paternos e maternos. Parecia-me, confessei, que ela queria dizer algo. O que oujvi?
- ache um pintinho e coloque-o a piar na lingüinha dela. Ele tornar-se-á uma tagarela.
Outra amiga; mais receitas. “Ela tem enjoos?” Sim! “Quando ela ficar maiorzinha, dê um pouquinho de sal num pacotinho para ela por no bolso. É tiro e queda.”
Não fiz nem nunca farei esses procedimentos. Prefiro seguir o conselho da nossa pediatra. Também me parece mais coerente acreditar que há uma espécie de ciclo vital (ou algum nome mais adequado) sob o qual nós estamos sujeitos, pouco importa a idade que temos: fomos crianças, adolescentes, jovens, adultos novos e adultos velhos (ou idosos). Acho importante que essas fases sejam inexoráveis, concordemos ou não com elas.
Em termos cristãos também sou cético à mandingomania. Creio num Deus milagreiro, creio na possibilidade de milagres. Mas descreio das pessoas que se acham abençoadoras e milagreiras. Discordo dos amuletos (mensagens ‘poderosas’ gravadas em DVD ou CD ou publicadas em livros do tipo Como tomar posse da bênção). Desconheço um Deus que me retribui segundo meus 10% ou coisa parecida. Esse Deus não merece minha confiança, prefiro o Deus incondicional. Descreio ferrenhamente da unções de qualquer coisa: do boi selvagem, da vaca, do leão, do porco. Quem me garante que não vem daí a doença da vaca louca, bem como da gripe suína? Em síntese, incomoda-me a fauna e flora gospel.
Sobra-me crer na vida que Deus me deu para viver intensamente. Acordar pela manhã, ir trabalhar, ser honesto, justo e responsável. Resta-me crer que Deus dá sabedoria à ciência médica, aos homens e mulheres que não têm estudo mas têm experiência pela vivência in loco. Nalguns momentos acredito e noutros desconfio da ciência jurídica e, pior ainda, na política. Contudo, creio na política da boa vizinhança. Creio piamente no respeito ao outro – independentemente da cor racial, sexual ou religiosa. Creio num Deus que é soberano sobre tudo e que não larga uma bomba e manda um avião atrás com alimentos.
Creio em um Deus que optou por dar-me o livre arbítrio.
Creio em um Deus que gosta do belo (não de ouvir o pagodeiro).
Creio num Senhor que odeia, como eu, a urucubaca.
NOTA
A ilustração é de John Astrop para o livro Diário de um adolescente hipocondríaco, de Aidan Macfarlane e Ann McPherson, publicado pela Editora 34.
[1]Texto escrito num quarto silencioso e digitado ao som do maravilhoso Michael Bublé e seu CD “Meets Madison Square Garden”.
[2]Salvos da perfeição, editora Ultimato. Obra do blogueiro Elienai Cabral Junior.
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Levi Nauter
domingo, 28 de junho de 2009
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Levi Nauter
Eu queria escrever sobre umas coisas que ando ouvindo desde a gravidez de minha mulher e que continua fazendo eco: as crenças populares sobre cuidados com bebês. Mas não é possível. Não por agora. Acordei neste domingo frio e decidi (re)ouvir meu disco recém adquirido, Michael Jackson King of Pop – Brazilian Collection. Enquanto tomava café lembrei de outros artistas que eu admirava e que já não estão mais nesse mundão. Quem tomará seus lugares, assim como acontece na Academia de Letras. Ainda bem, no mundo da arte musical a coisa não funciona assim. É sabido que Justin Timberlake e o ‘batedor’ Chris Brown ficariam satisfeitos com a cadeira. Mas Jackson é Jackson. O café estava bom, o mamão principalmente. Contudo, o Michael levou-me ao início da minha carreirinha de pretendente a músico. Eu sonhava tocar guitarra como aquele cara que tocou em Rock With You. Ouvia, ouvia e nada. Eu estava longe disso. Ademais, que música na minha igreja tinha aquele ritmo todo? Desisti. Larguei a guitarra, instrumento que admiro até hoje. Fui para a bateria. Os tais hinos igrejeiros eram tão chatos. Treinar ao som do Michael era bem melhor. Um dia fui arrebatado. Escutara pela primeira vez Billie Jean. O batera era um relógio acompanhado daquele baixo; tudo era perfeito. No meio daquilo tudo, o que aparece? A guitarra. Era o céu. O hit Bad também me levava ao céu, mas era mais difícil, carecia de mais fé. Na verdade eu tinha de me concentrar para conseguir a agilidade necessária. Devia também esquecer o lindo vocal que teimava em tirar minha atenção do ritmo. Ao fim dessa música, meu “ufa!” era o “usbé”. Suado, jogava as baquetas no chão com muito gosto. Afeito ao ritmo, faltava-me familiarizar com contratempos – uma parte importante no embelezamento musical. Fui ouvir Don't Stop 'Til You Get Enough e The Way You Make Me Feel. Crescido tive a fase, digamos, romântica. You Are Not Alone me fazia pensar na Lu – queri a repetir o que acontecia no clipe da música. Consegui!!! Casei. Terminei o café. Preciso dizer que o Michael Jackson era motivo de susto. Quando estava nas primeiras séries do ensino fundamental, um cara dublava o mega sucesso Thriller. Eu ficava impressionado com os passinhos, com aquele break. Junto com alguns colegas mais curiosos, íamos até o camarote improvisado, o refeitório. “O Michael ta lá, já chegou, eu vi” – dizia eufórico para os mais baixinhos. Gostei tanto que montei um grupo ‘breakdance’. Fiz sucesso em alguns recreios. Mas a vergonha, a timidez, me fez desistir. Ele foi um marco na minha vida e na de muitas e muitas outras pessoas. Há um antes e um depois do Jackson. A arte musical e a cinematográfica nunca mais foi a mesma depois dele. Ao longo de sua vida – também como nas nossas – houve páginas nebulosas, escuras. O importante foi que ele conseguiu tornar a maioria delas em arte. A nós, penso que cabe o conselho de São Paulo: reter o que é bom. Para mim ele foi um baluarte profético. Afinal, vamos combinar, me diz se Thriller não possui uma dança profética? E o que é aquele canto de vitória que insiste em nos convocar, melodicamente feito em Heal The World? Não me resta dúvida de que as canções que toquei no meu tempo de igreja tinham uma certa inspiração nesse negro divino.
Menos mal que ainda temos a rainha do pop, vivinha da Silva. Mas dela falemos noutro dia.
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Levi Nauter
sexta-feira, 19 de junho de 2009
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Levi Nauter
Eu trabalho manhã, tarde e noite. Aos sábados, às vezes, trabalho o dia todo. Tô reclamando? Não. Apenas gostaria de ter tido a sorte de ter um desses sobrenomes: Sarney, Maluf, Quercia, Malafaia, Macedo - entre outros.
Talvez isso facilitasse minha vida e, assim, eu teria mais tranquilidade para pagar minhas contas sem suar tanto a camisa.
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Levi Nauter
quarta-feira, 10 de junho de 2009
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Levi Nauter
Enquanto meus escritos não fluem como eu gostaria, vou curtindo muita música. Estou cheio de novidades para os meus ouvidos. Fogão à lenha, sopa de ervilha, chimarrão, vinho; a esposa e a filhota. Ah, a temperatura maravilhosa de 5 graus. Todo o clima.
Logo penso em fazer o que alguns colegas andam fazendo (eles, em relação a livros): listar o que venho escutando musicalmente.
Por ora, deixo-vos com a Tammy Trent - interpretando a linda At the foot of the cross. Eu prefiro a norte-irlandesa Kathryn Scott (no CD Satisfy) ou o clássico Don Moen (no CD Thank You Lord). Mas a Tammy não compromete. O lugar também é bonito.
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quarta-feira, 27 de maio de 2009
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Levi Nauter
Ah, esse Deus que sirvo.
Meu novo Deus é brincalhão e teimoso. Teima em me amar, teima em querer me ver bem. Teima em me querer bem. É um brincalhão porque me faz poesias. Deu-me poucos , mas bons amigos. Com eles dou muitas risadas. Deu-me uma mulher maravilhosa, de quem não sou dono. E uma filha lindona e delicada. Com elas tenho poesia ao longo do dia.
Mas duas coisas me relembram esse Deus poético: os livros e as músicas.
Semana passada, em meio às turbulências da vida, Ele me fez chorar. Descobri um cantor de primeira grandeza. Um artista mesmo e não só mais um músico.
Vander Lee, com sua mineirice, fez a oração que eu gostaria de fazer para o meu Deus. Quando desci do ônibus, estava em prantos. Tive de me controlar para não fazer tanto fiasco.
Se eu não tivesse conhecido esse novo Deus nem saído do fundamentalismo cristão jamais teria conhecido essas pérolas da riquíssima música brasileira.
Vamos à música que me tocou – com letra e vídeo.
Salve, Vander Lee!!!
Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta
Que maravilha é, agora, a poesia cantada pelo próprio autor.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009
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Levi Nauter
Eu obviamente não acredito em inspiração, foi apenas uma brincadeira. Acredito, isso sim, na 'transpiração'.
Pois, enquanto nada melhor me acontece que ficar perto do fogão à lenha curtindo minha filhota e minha mulher, bebericando um vinho, comendo pinhão ou milho verde sob a temperatura de oito graus, vou curtindo muita música.
Gracias ao 'Dioni' e à Chris que me agraciaram com novidades - aquele em 2000, esta recentemente. Reafirmo: é bom ter amigos com bom gosto musical. Os CDs estão 'furando' de tanto rodar.
E como é bom ouvir música sem medo de ir para o inferno (he, he, he - tinha que ter uma pitada de cristianismo).
Curtam o Babyface (cantor, compositor, instrumentista múltiplo)
e também o excelente Jorge Drexler, aqui das fronteiras uruguaias.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009
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Levi Nauter
Sempre me admirei com o potencial de Arnaldo Antunes. Considero-o fora do comum no pleno sentido da palavra: cantor, compositor, músico-instrumentista, artista plástico e poeta (a obra AS COISAS, publicado pela Iluminuras, vale a pena ser lida. Escrita por ele, ilustrado pela filha). Ele, na minha opinião, era a 'alma' dos Titãs. Somando-se o Nando Reis, os Titãs eram (notem bem, eram) imbatíveis.
Em termos religiosos, considero-me como a música que transcrevi abaixo. Para ilustrar melhor, inseri o vídeo. Um momento belo tem muito de divino, por mais simples que seja. Ouçamos.
Não Vou Me Adaptar Composição: Arnaldo Antunes
Eu não caibo mais Nas roupas que eu cabia Eu não encho mais A casa de alegria Os anos se passaram Enquanto eu dormia E quem eu queria bem Me esquecia...
Será que eu falei O que ninguém ouvia? Será que eu escutei O que ninguém dizia? Eu não vou me adaptar Me adaptar...
Eu não tenho mais A cara que eu tinha No espelho essa cara Não é minha Mas é que quando Eu me toquei Achei tão estranho A minha barba estava Desse tamanho...
Será que eu falei O que ninguém ouvia? Será que eu escutei O que ninguém dizia? Eu não vou me adaptar Me adaptar...
Não vou! Me adaptar! Me adaptar! Não vou! Me adaptar! Não vou! Me adaptar!...
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domingo, 26 de abril de 2009
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Levi Nauter
Minha amiga, e filósofa/folísofa, Camila Abadie[1] escreveu dois textos[2] cujo conteúdo dialogou comigo. Mais especificamente, fez-me rever, por outro ângulo, a incursão que fiz na leitura (na escrita também, mas esse não é meu foco por ora).
Na infância, minhas leituras restringiram-se à Bíblia. Havia os famosos cultos domésticos (nem tão sistemáticos na minha casa) no quais eu e meus irmãos tínhamos de ler alguns trechos das Sagradas Escrituras. Adolescente, li alguns (poucos) livros do discurso evangélico-fundamentalista. Agora noto o quanto isso me foi nefasto. Há um buraco nas minhas leituras de fábulas. Era pecado ‘na época’.
A Camila, com seus textos, remontou-me ao início da minha vida profissional. Foi nesse período que fiquei sabendo dos livros de auto-ajuda. Quando trabalhei na área de vendas, um colega emprestou-me Sem medo de vencer, do Roberto Shinyashiki. Devorei! Nunca lera algo que me parecia tão empolgante. Tive alguns professores que incentivavam o aluno a querer ser um empreendedor no futuro. A ‘literatura’ de auto-ajuda fortalecia essa, digamos, doce ilusão (não por eu não acreditar no empreendedorismo, senão que nem todos os leitores desses textos o serão). Foi uma boa iniciação. Um livro parecia impulsionar a outro e assim sucessivamente. Numa certa altura, comecei a me dar conta da sistemática repetição, da trama comum em todos eles. O ponto culminante se deu com Lair Ribeiro. Comprei O sucesso não ocorre por acaso. Terminada a leitura, fui para os fundos do pátio, acendi uma fogueira e, folha por folha, queimei toda a (pseudo)obra.
Atualmente sinto-me mais maduro em relação a leitura (tanto do mundo quanto da palavra) – em que pese saber da infinita produção no mercado editorial. A experiência e/ou a prática da leitura vai lapidando, refinando, nosso gosto literário. Em uníssono com a minha amiga, devo afirmar que “a mesma obra que me é tão útil, em pouco ou nada serve a um terceiro”. Também com ela penso que esse tipo de texto pode contribuir nalgum ponto de nossa vida, o perigo estará em “tornar-se dependente de respostas descobertas por terceiros”. Cá pra nós, em 2006 não resisti e adquiri Tudo ou nada. Cá pra nós ainda: já li mais de uma vez.
Mas por que disse o que disse até agora? Para falar de um livro de auto-ajuda. Sim, confesso, li um livro de auto-ajuda nas férias de janeiro.
Passei numa biblioteca, o livro estava lá de bobeira; eu também. Então nos juntamos. Peguei-o pelo título: Como evitar preocupações e começar a viver, do Dale Carnegie. O livro é de 1948, faz parte dos primórdios da auto-ajuda. Li a 29ª edição[3] (1991), dita revista e aumentada. Tenho a sensação que muito dos ditos popularescos vieram dessa obra. ‘Se você tiver um limão, faça uma limonada’, por exemplo, é um capítulo do livro (17). Não chorar o leite derramado também está lá.
Em Como evitar preocupações e começar a viver está o princípio básico da auto-ajuda: “...o propósito deste livro não é contar a você nenhuma novidade. O propósito deste livro é fazer com que você se lembre do que já sabe, instigando-o a pôr em prática os seus conhecimentos.” (p. 126). Igualmente encontramos títulos de capítulos exóticos, como Não tente serrar serragem (11) ou Lembre-se de que ninguém chuta um cão morto. Mesmo levando-se em conta a antiguidade do livro e a do autor (1888-1955), há registros deploráveis de preconceito:
...deveria ter o bom senso de fazer o que o cientista negro George Washington Carver fizera... (p. 124 – grifo meu)
Nem mesmo um idiota da Mongólia sonharia tentar voltar a 180 milhões de anos atrás... (p. 123)
Milhões de pessoas... continuam... a desperdiçar, a esbanjar energia, tão descuidadamente como sete marinheiros bêbedos em Singapura! (p. 257)
É possível encontrar, ainda, momentos místicos. Comecemos pelo momento Igreja Universal/Internacional/Mundial do Rein/da Graça e do Poder de Deus:
Comecei a trabalhar com seguros de vida, orientado ainda pelo meu Divino Guia. Isso aconteceu há apenas cinco anos. Hoje, todas as minhas contas estão pagas. Tenho um lar feliz e três filhos inteligentes. Possuo uma nova casa, um novo automóvel e vinte e cinco mil dólares de seguro de vida. (p. 229)
Nem faltou um momento pentecostal, ou The Secret:
Sinta a energia fluindo dos seus músculos faciais para o centro do seu corpo. (...) Repouse sempre que puder. Afrouxe o corpo, deixando que fique mole como uma velha meia. Quanto a mim, conservo uma velha meia marrom sobre minha mesa, enquanto trabalho, para me lembrar de como é que devo afrouxar os músculos. (p. 258/9)
Apesar de tudo, o livro, com um bom filtro, pode contribuir para iluminar nosso caminho. Afora os relatos quase fantasiosos, pode-se tirar algum proveito de alguns conselhos. Afinal, se eles fossem infalíveis seriam vendidos, já dizia um ditado. Então, um resumo dos conselhos apresentados nos 28 capítulos, divididos em sete partes – a oitava é composta de depoimentos sob o título “como venci as minhas preocupações”.
PARTE 1(capítulos 1-3) – Fatos fundamentais que você deve saber a respeito das preocupações:
- viva cada dia apenas até a hora de ir para a cama;
- procure melhorar a situação partindo do pior;
- um lembrete: aqueles que não sabem como combater as preocupações morrem jovens.
PARTE 2 (capítulos 4-5) – Técnicas básicas para a análise das preocupações:
- obtenha fatos;
- tome uma decisão;
- siga sua decisão.
PARTE 3(Capítulos 6-11) – Como eliminar o hábito da preocupação antes que ele elimine você:
- mantenha-se ocupado com algo criativo;
- não se perturbe por ninharias;
- coopere com o inevitável;
- tenha coragem de dar um ‘basta’ no que o incomoda.
PARTE 4 (Capítulos 12-18) – Sete maneiras de cultivar uma atitude mental que lhe trará paz e felicidade:
- pense e aja alegremente;
- não desperdice um minuto sequer falando das pessoas que não lhe agradam;
- não espere gratidão, dê pela satisfação de dar;
- conte as bênçãos que recebeu e não os seus aborrecimentos;
- não imite os outros, sejamos nós mesmos;
- faça do limão uma limonada;
- faça uma boa ação para alguém.
PARTE 5 (Capítulo 19) – O modo perfeito de vencer as preocupações:
- orar.
PARTE 6 (20-22) – Como deixarmos de nos preocupar com a crítica alheia:
- crítica injusta é um cumprimento disfarçado;
- aja da melhor maneira possível e não deixe a crítica lhe derrubar;
- façamos ou peçamos uma crítica honesta e construtiva que nos auxilie.
PARTE 7 (Capítulos 23-28) – Seis maneiras de impedir a fadiga e as preocupações e conservar a energia e o ânimo:
- descanse antes de ficar cansado;
- repouse, leia, converse, faça planos;
- organize-se no trabalho, defina prioridades;
Do capítulo sete faltou-me entender mais três ‘maneiras de impedir a fadiga e as preocupações e conservar a energia e o ânimo’. O autor só se repetiu.
Indico a leitura. Qualquer livro merece ser lido. Nem todos podem receber o nome ‘obra’. Tampouco se deve ler por respeito ao autor. Deve-se ler pelo prazer da leitura simplesmente, incluindo-se os livros sagrados. De preferência, sempre que tivermos tempo seria didaticamente enriquecedor se todos os leitores registrassem suas impressões pós-leitura.
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Levi Nauter
terça-feira, 21 de abril de 2009
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Levi Nauter
Não sei dar muita explicação, mas ando sem vontade de escrever. Até possuo algumas ideias, rascunho várias delas – mas ficam no caderno (eu ainda prefiro rabiscar num caderno e depois ir para um computador). Minha fissuração pela discussão, pelo debate, pela tentativa do convencimento simplesmente tem desaparecido. Já não me atrai tentar convencer ninguém, senão dizer o que penso. Igualmente não me atrai fazer algo porque todos a minha volta estão fazendo.
Estou tentando viver mais poeticamente. Busco estar pero da minha família recém constituída – com a chegada da minha filha. Intento tornar meus dias mais significativos, mais tranquilos; com menos correria possível. Acordo cada dia tentando vivê-lo da melhor maneira possível, sem estresse, sem atucanação. Porém não é fácil. Viver assim exige paciência, uma paciência que por vezes me falta. Se ao dirigir obedeço à sinalização de trânsito sou quase esculachado pelos apressadinhos, muitos deles com adesivos do tipo ‘Deus é fiel’ (que ironia).
Tenho três amigos, graças a Deus, que me presenteiam – de quando em quando – com uma penca de discos de variadíssimos estilos. O Marco Aurélio vem com o lado que eu chamaria de intelectual, apresenta-me músicas com alto teor de estudo. Parece que todas as notas foram milimetricamente pensadas. Andy McKee, John Mayer, Daiana Krall e o simpático smooth jazz são alguns exemplos do que passei a apreciar ainda mais depois da apresentação pelo Marco. Sua insistência para que eu escutasse levou-me a também admirar o poderoso Leonardo Gonçalves (bota saber usar a voz).
Outro amigo importante nessas viagens musicais tem sido o Guto Abadie. Ouvi dele uma frase que jamais sairá de minha cabeça: “como é bom ouvir música liberto”. Entendi perfeitamente que ele se referia ao ‘veneno’ que fazem beber nas igrejas quando nos dizem que não podemos ouvir coisas do mundo. E pensar que houve um tempo em que, influenciado por livros malditos (esses mereciam tal epíteto), eu quase queimei meus CDs do mundo. A Rebecca Brown[1] quase me dominou. Imagine, eu ficaria sem o excelente CD do Djavan, o Malásia. E sem a Paula Toller, seu primeiro disco e legalzinho de se ouvir. Mas, repito, a Dra. Brown não me venceu. Como a cautela foi maior, bastou pegar os CDs com um primo; deixei com ele antes de fazer o ritual de descarte dos demônios que atormentavam meu som. Ao contrário do que se podia imaginar, acrescentei mais diabinhos e o maior deles, desconfio, seja o Chico Buarque. Que ‘diabos’ fazem alguém ser tão unanimidade assim?
Pois, a frase do Guto faz todo sentido para mim. Assim é que saí desse dia com trilhas sonoras e com o nem tão midiático Dave Mathews Band. Nosso último encontro não me deixou com as mãos vazias. Loreena McKennitt (é a Irlanda em Nova Santa Rita) encabeça a lista que ainda contém Belle & Sebastian, Chat Baker, Miles Davis, Mercedes Sosa, The Cranberries e os gaudérios Vitor Ramil e Mauro Moraes. Quem tem esse privilégio de amigos tem riquezas que não há dinheiro para pagar. Tanto o Guto quanto a sua esposa, a filósofa Camila, ainda me abastecem de alguns empréstimos de livros. Sem contar o entusiasmo com que me falam de alguns experts: CS Lewis é um exemplo.
Outro amigo importante é o pastor Leandro. A cada encontro que temos, ele me presenteia com pérolas da música evangélica mundial. Com ele conheci Vineyard, Matt Redman, Tim Hudges, Lex Buckely, Scott Underwood, Eoghan Heaslip, David Ruis, entre tantos e tantos outros. Agora chegou a vez dos espanhóis, mais especificamente dos latinos. Jesus Adrian Romero tem sido, digamos, o cabeça-de-chave. Seus CDs e vídeos têm me emocionado. Relembro do Luiz Fontana, um outro pastor que, aliás, sempre me lembrou a importância desses latinos (foi quem pela primeira vez, há quase dez anos, me falou do Jesus Adrian e do Marcus Witt).
É por isso que não tenho escrito. Nada melhor que ficar curtindo minha pequena Maria Flor com os sons do mundo. Conversar com a minha Lu, fazer os serviços pesados de casa. Tudo vem ganhando um outro sabor com a música.
Meus poucos amigos são especiais. Não preciso do entrevero. Quero continuar nessa paz.
Tais amigos são de pouca fala e de mais ação. Ligam, escrevem, brigam, visitam. São bênçãos para mim.
Deus os pague.
[1] Prepare-se para a Guerra ainda está lá na minha estante, agora para dizer de um tempo que, espero, não voltará mais. Mas outros dessa ‘irmã’. Minha sanidade voltou quando li o ruim (muito ruim) Vaso para honra.
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Levi Nauter
quinta-feira, 16 de abril de 2009
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Levi Nauter
Minha amada filha, pelos planos médicos e, em consequência nossos, deveria ter nascido ontem – dia 15-04-09. Mas Deus em sua infinita misericórdia resolveu antecipar nosso presente. Nossa linda filha nasceu no dia 24-03. Nunca vou cansar de dizer que esse é o melhor presente do mundo. Esse pequeno ser já tomou conta da minha vida. Sou o pai mais feliz do mundo.
Deus obrigado pela Tua bondade. Ela é linda...
Hoje acordei pensando em ontem. Revivi todas as emoções do dia 24. Sobretudo, ouvi uma música que me emocionou profundamente. Ouvi o dia todo. Se a Maria Flor entendesse, eu arriscaria tocar e cantar (provavelmente em meio a choros) só pra ela essa canção. Acho tudo perfeito nessa música. Um dia, talvez, ela mesma cante e eu, bem mais velho, comece a chorar e a aplaudir a minha florzinha.
Filha, eu te amo!!! E essa música é pra ti.
Sixpence None The Richer
Melody Of You
you're a painting with symbols deep, symphony
soft as it shifts from dark beneath
a poem that flows, caressing my skin
in all of these things you reside and I
want you flow from the pen, bow and brush
with paper and string, and canvas tight
with ink in the air, to dust your light?
from morning to the black of night
this is my call I belong to You
this is my call to sing the melodies of You
this is my call I can do nothing else
I can do nothing else
you're the scent of an unfound bloom
a simple tune
I only write variations to sooth the mood
a drink that will knock me down to the floor
a key that will unlock the door
where I hear a voice sing familiar themes
then beckons me weave notes in between
a tap and a string, a bow and a glass
you pour me till the day has passed....
Uma tradução, nem tão boa, nem tão péssima.
Sixpence None The Richer
Melodia De Você
Você é uma pintura com símbolos profundos
Uma sinfonia, macia como as trocas da escuridão
Um poema que flui, acariciando minha pele
Em todas estas coisas você reside e
Eu quero fluir da caneta, arco e escova,
Então papel, fio, e toque de tela
Com tinta e o ar espanar a sua luz
Da manhã até a noite escura
Este é o meu chamado, eu pertenço a você
Este é o meu chamado, cantar a melodia de você
Este é o meu chamado, eu não posso fazer nada mais
eu não posso fazer nada mais
Você é o cheiro de uma flor inencontrável
Uma melodia simples, a qual eu só escrevo variação
Uma bebida que me derrubará no chão
Uma chave que destrancará a porta
Onde eu ouço uma voz cantar temas familiares
Então me acena, teça notas entre
Um arco e um fio, uma torneira e um copo
Você me derrama, até o dia passar
PS: tenho a impressão que Deus - mil vezes melhor do que eu - também canta enquanto a gente dorme. Faz poesia enquanto a gente segue tocando em frente. Alegra-se com a minha alegria e deve fazer de tudo para que eu fique bem. Exatamente o que faço pela minha filha: nunca irei cobrar pelo meu serviço, pelas acordadas que ela me dá ao longo da noite. Os seus olhos, o seu sorriso, o seu respirar são a minha recompensa.
Enquanto vou me aprumando - ou melhor - vou tentando encontrar tempo em meio às correrias do dia-a-dia, eu (re)posto textos de algumas pessoas as quais admiro. Ricardo Gondim, a quem tive o prazer de indicar a leitura de um livro do Paulo Freire, me impressiona pela ousadia em dizer o que muitos outros não dizem ou por covardia ou por conveniência mesmo. Sem contar que acho a sua escrita esteticamente bela. Vida longa, pr. Gondim!!!
Salvação Ricardo Gondim É preciso aprender a nadar entre as margens do bem e do mal, do ódio e do amor, da delicadeza e da estupidez. É preciso aprender a flutuar; encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o vôo dos balões. É preciso também acocorar-se ao lado dos irmãos que foram agrilhoados à crueldade da vida.
É preciso aprender a levar-se a sério. Mas não tão a sério que fique impertinente, malas sem alça. Tem hora que é bom viver sem propósito, ao sabor dos ventos. Cantar no coral das cigarras, enquanto formigas seguem em fila, sem saber porque obedecem à rainha. Vez por outra é bom considerar Deus um “cara muito legal”, compreensivo e longânimo, que não mete medo, mas nos faz sentir íntimos.
É preciso aprender a acordar tarde; a comer chocolate até enjoar; a comprar perfume caríssimo para dar de presente a alguém especial; a sentar para almoçar sem hora para acabar; a desligar o telefone celular; a conversar um monte de besteira só para rir à solta; a conversar com doido; a ler romance.
É preciso aprender a falar da morte, mas não ser mórbido; a acompanhar esportes, sem ficar muito deprimido com derrotas; a aplaudir trapezistas, equilibristas, contorcionistas, mágicos; a nunca confundir solidariedade com comiseração; a não esconder a inveja debaixo do lençol da discordância; a cantar no banheiro.
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Levi Nauter
segunda-feira, 13 de abril de 2009
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Levi Nauter
Ah, se eu tocasse bem violão. Sempre gostei desse instrumento, mas não tenho muita habilidade e, agora, nem tempo para estudar. Resta-me admirar os que fazem isso bem. Tornei-me fã de Andy McKee graças ao músico e amigo Marco Aurélio - um estudioso de violão e guitarra. Salve Marco!
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Levi Nauter
quinta-feira, 9 de abril de 2009
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Adoro essa música. A letra, como tudo do mester Chico, diz muito mais do que se pode ler. Tanto a letra quanto a música são dele. Acompanhemos.
Hoje eu sonhei contigo, tanta desdita, amor nem te digo Tanto castigo que eu tava aflita de te contar
Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha E baba na fronha, e se urina toda e quer sufocar Meu amor vi chegando um trem de candango Formando um bando mas que era um bando de orangotango pra te pegar Vinha nego humilhado, vinha morto-vivo, vinha flagelado De tudo que é lado vinha um bom motivo pra te esfolar Quanto mais tu corria mais tu ficava, mais atolava Mais te sujava, amor, tu fedia, empesteava o ar Tu que foi tão valente chorou pra gente, pediu piedade E, olha que maldade, me deu vontade de gargalhar
Ao pé da ribanceira acabou-se a liça e escarrei-te inteira A tua carniça e tinha justiça nesse escarrar Te rasgamo a carcaça, descendo a ripa, viramo as tripas Comendo os ovos, ai, e aquele povo pôs-se a cantar
Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha E baba na fronha e se urina toda e já não tem paz Pois eu sonhei contigo e caí da cama Ai, amor, não briga, ai, não me castiga Ai, diz que me ama e eu não sonho mais
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Levi Nauter
quarta-feira, 8 de abril de 2009
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Levi Nauter
No meu tempo de guri (atualmente sou um guri, digamos, mais experiente), amava dois eventos que ocorriam na igreja fundamentalista que eu frequentava. Nessa época, o templo ficava abarrotado de gente. Pessoas que nunca pisavam numa igreja estavam lá, descaradas, aguardando o final do evento. Descaradas não tem aqui sentido pejorativo senão estratégico, bastará uma reflexão sobre o processo de formação de tal palavra para se descobrir. Note-se, voltando ao tema, que o mais importante era o final do evento e não o evento em si. Mais interessante era que eu, nascido e criado naquele ambiente igrejeiro, também ansiava pelo final da coisa.
Um dos eventos ocorria anualmente no mês de dezembro. Era o Natal. O outro era a Páscoa, que não tinha precisamente uma data definida. Em tais momentos a criançada era incentivada a ‘declamar’ poesias, encenar jograis e esquetes. Ainda lembro da vergonha que eu tinha em ter de dizer coisas como “Jesus nasceu em Belém, no meu coração também”. Na Páscoa, geralmente sobrava-me a opção de cantar a estridente Via dolorosa. Em muitas dessas ocasiões, ter que subir no palco era-me uma via dolorosa. Porém, o final era promissor. Bastava a nós pequenos seres subir no palco lembrando que cada um que declamava diminuía o tempo de espera.
Mas, afinal, o que acontecia ao fim dessas reuniões? Por que enchia o templo em tais eventos?
Ganhávamos um pacote com doces.
O natal era maravilhoso porque após as declamações eu me deliciava com bombons, mandolate, pipoca, balas e o desafiador quebra-queixo. Na época da páscoa uma ação entre irmãos proporcionava o acréscimo do chocolate, ocasião em que se evitava a colocação do coelho. Os dois eventos também eram bons porque nessa época a gente podia ser criança e não mini-adulto. Nessas épocas eu podia ser eu. Nas duas datas os discursos eram mais leves: falava-se mais sobre Cristo e menos de regras.
Tempos depois apareceu um pastor azedo; uma espécie de limão. Um pastor que devia ter, em vez da Bíblia, um balde de água fria. Ele amava jogar água fria nas crianças e nos adultos. Ocorre que criança reclama menos, tem alguns medos e algumas vergonhas. Com esse pastorzinho descobrimos a maldade. Ou melhor, ele devia ‘perder’ algumas horas da sua preciosa vida procurando diabos em tudo para, em seguida, nos apresentar. Era proibido olhar desenhos animados – havia, na opinião dele, insinuações homo ou incitações à violência. Era proibido ouvir ‘música do mundo’ (mesmo que as do outro mundo não nos tivessem chegado). Era proibido jogar bola. Era proibido montar árvores natalinas. Era proibido, por fim, ganhar ‘ovo de páscoa’. Era o pastor desmancha prazer. Eu não entendia por que um pastor quase odiado pelas crianças (odiar era um verbo proibido) era tão amado pelos pais. Hoje entendo, claro.
E a Páscoa? Bem, a Páscoa tem todo aquele significado da ressurreição de Cristo que não vou falar porque muito já se falou a respeito e porque há uma penca de livros que tratam disso muito bem. Também tem a ver com a “data em que os judeus comemoram a libertação e fuga de seu povo escravizado no Egipto”. Para isso basta o Google.
Para mim a Páscoa tem uma representação mais particular que não se desgruda do que me referi no parágrafo anterior. Vejo-a como uma festa – tanto porque celebramos a ressurreição de Cristo, quanto porque comer doce é muito bom. Nas poucas vezes em que minha saudosa mãe colocava amendoim na casca de um ovo, pintava-os e escondia-os, eu tinha a sensação do desafio. O desafio de encontrar um mistério: como aquele ovo tinha ido parar num determinado lugar. Era um desafio mágico, na minha cabeça de criança; era um milagre fantástico. Milagre puro. Milagre que me tornou apaixonado por literatura. Porque só a literatura tem esse poder misterioso que mete medo e, ao mesmo tempo, dá prazer. Desconfio, portanto, que a Páscoa tornou-me leitor.
Eu pretendo seguir o mistério. Meu desejo é, inclusive, pintas as patinhas do coelho pela casa para ver a reação da Maria Flor. Terei o maior prazer em vê-la pulando de alegria e já me imagino chorando de regozijo com minha filha. E será que Deus não é assim? Seria Deus um insensível que odeia coelhos e crianças? Claro que não, e a Bíblia deixa isso claro. A falta do mistério, a meu ver, é que cria o teólogo burocrata ou o pastor azedo.
Quanto ao Egito, lembrei de uma música que ouvi com o David Quilan, Coming out of Egypt (Saindo do Egito) – do CD Som da Chuva 2. No encarte havia uma nota propondo que o significado do título da canção tinha a ver com deixar de lado os vãos costumes eclesiásticos, deixar para trás as regras e barganhas, etc. Eu também saí do meu Egito. Para mim (e só para mim), significou deixar a instituição para conhecer mais o Deus de quem sou filho. Significou ainda ignorar os pastores azedos e burocratas cristãos. Prefiro continuar celebrando a Páscoa como um tempo de festa, de júbilo porque Deus escolheu morrer por mim. Quero repassar isso para a minha Flor. Espero que até lá acabe, de uma vez por todas, os malabarismos com a palavra chuva (som da chuva, faz chover, dançar na chuva, entre outras criatividades). Quero celebrar também com meu chocolate, minha pipoca, meu filme. E como quebra-queixo, talvez eu releia o ótimo Pessach…, do Carlos H. Cony – um cristão às avessas.
Este texto foi publicado no dia 06-04-09 noutro espaço virtual onde escrevo mensalmente: www.osprotestantes.wordpress.com
[GRAVIDADE: o melhor presente do mundo] – levi nauter
O texto a seguir foi escrito no dia 24-03-09, um dia completamente inesquecível na minha vida e na vida da Lu. Nessa data nasceu a nossa princesa, a nossa rainha, o nosso presente divino, a nossa Flor.
Neste momento a paisagem que nos cerca é linda. Passamos por um trânsito louco, mas agora tudo o que vemos é verde, bastante verde com alguns ‘pingos’ de árvores floridas. Da janela em que estou o entardecer não deixa a desejar – também é lindo. São 18 horas do dia 24-3-09.
Estamos no Centro Obstétrico do belo Hospital Divina Providência1. Alguns exames complementares foram necessários devido algumas suspeitas da nossa atenciosa doutora Débora Fichtner. Nosso nervosismo é intenso. Já choramos, rimos e dissemos pra nossa filhota aguardar mais um pouco. Acreditamos que tudo ficará bem.
A Lu foi chamada para os tais exames. Enquanto isso, eu, nervoso, fico na torcida e escrevendo esse texto como forma de alívio à tensão. O raciocínio e o polimento me escapa, toda a minha concentração está lá na ampla sala de investigações médicas.
Nossa filha é intensamente aguardada; contudo, não queremos que nada seja adiantado.
Vinte horas. A tensão está grande. A Lu ainda não voltou dos exames. Eu nada comi, a fome se foi. Ando de um lado ao outro. Para minha sorte, as atendentes (ou recepcionistas, não sei como elas deveriam ser chamadas) são atenciosas. O hospital é algo de primeira, administrado por católicos. Para quem possui convênio ou pode pagar, não há do que reclamar.
A doutora passou por mim; disse que precisamos conversar. Ela nos conhece bem, sempre cuidou da Lu. Acompanhei todo o pré-natal e fui a 95% dos exames e consultas. Isso aumenta ainda mais meus batimentos cardíacos. Comi dois pães de queijo e dirigi-me até a sala de recuperação. Nossa conversa (eu, a Lu e a médica) foi curta e clara. Meu amor estava chorando e tremendo muito. Eu, apavorado. Débora, quieta. Com aqueles lindos olhos verdes encharcados, a Lu tasca: - a Flor vai nascer hoje ou amanhã. Fiquei sem palavras por pelo menos um minuto (tudo estava acertado para do dia 15-4). A Dra. Débora entrou na conversa a fim de explicar que deveríamos evitar intercorrências. ‘Mas o que é a intercorrência?’ – indaguei com os nervos à flor da pele. Sem dó nem piedade ouvi a resposta: “a falência do feto. Vocês precisam tomar uma decisão; porém, acho que deveríamos fazer os procedimentos hoje”.
No ato, pensamos que tanto eu quanto a Lu entendemos (ainda que com muito a aprender) de educação e não de medicina. Portanto, autorizamos os procedimentos. A partir daí se seguiu uma outra maratona: a Lu foi para a preparação (o pré-parto) enquanto eu corria com a papelada e buscava um contato com alguns parentes. Como saíramos para simples exames de rotina, não havíamos levado roupas, nem para a mamãe tampouco para nossa joia.
Meus pensamentos era um turbilhão. Há pouco, a filha fazia parte de planos. Depois a gravidez. Em seguida, exames e mais exames. Hoje deveria ser mais um dia. Na agenda, uma ecografia (eu preferia dizer que ia assistir à minha filha na televisão). De repente eu estava num Centro Obstétrico me preparando para ver aquela de quem a gente apenas falava. Ganhei roupas especiais, chave de armário. Vesti-me. Fui para a sala de pré-parto ficar perto dos meus dois amores. A pequena ainda era uma imaginação. Como seria o rosto? As mãozinhas? Os pezinhos? Tudo imaginação até então.
Às 22 horas, a Lu se foi sorridente para a anestesia e a, digamos, preparação final. Os minutos demoraram, alguns parentes estavam a caminho, traziam máquinas para o registro histórico, traziam roupas para os meus amores. Meu choro se misturava com risadas, com curiosidades.
Às 22h19m eu estava ao lado da Dra. Débora vendo meu grande sonho se realizar. Aquele pequeno ser com quem eu muito falara e cantara estava aparecendo. Sempre fora meu sonho ver o rosto do maior feito de minha vida. Agora era fato. Toda branquinha, toda perfeitinha, toda linda, toda delicada, toda bendita pelo céu, toda... sei lá... faltam palavras. Tudo ao redor pareceu parar, inexistir. Nada mais importava. Ela parecia ocupar todos os cantos da sala de cirurgia. Com trinta e quatro semanas, a precaução e as estatísticas fizeram com que a UTI Neonatal estivesse de prontidão – aguardando nossa Flor.
Como diz o poeta, Maria é um dom, uma certa magia. Ela chorava, se esperneava. Foi a tal ponto que a pediatra disse: - se ela continuar assim não vai para a UTI. E ela chorou. Chorou. Chorou. Não foi para a UTI. Fiquei absolutamente o tempo todo com ela: desde o nascimento até volta para a mãe. Acompanhei o primeiro banho, notei sua inocente força. Também vi ser dada a primeira injeção.
Resta-me agradecer a Deus. Sua perfeição foi dada a mim como uma sombra. A Maria Flor é o sinal do amor de Deus na minha vida. Ela é tudo o que sempre sonhei. Sempre me pareceu que a vida sem um filho não teria graça. Agora minha vida tem graça. Graça divina, graça de menina. Tudo Graça, de graça.
Seja bem-vinda pedaço de mim. Tenha vida longuíssima pedaço mais perfeito de mim.
Maria Flor, você completa a minha alegria e a alegria da Lu.
LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.