arte cristã? existe?
O que está acontecendo? - Ricardo Gondim
Os mais antigos, que viveram os primeiros anos do movimento evangélico, têm urticária quando presenciam esse tipo de absurdo e se questionam o porquê do aparecimento de líderes e igrejas tão caricaturais.
Alguns pedem uma nova Reforma. Aliás, reivindicação que já virou chavão; mas ninguém fala sobre qual Reforma busca. Será que desejam a luterana, que ressaltou a graça e a primazia da fé? Ou a de Calvino, que enfatizou a soberania e a providência?
Jamais conseguiremos ressuscitar a Reforma. Ela aconteceu em um tempo histórico que já se acabou há muito. Aquela modernidade que facilitou a Reforma se esgotou. Hoje vivemos esse tempo doido que alguns chamam de pós-modernidade.
É preciso também lembrar que as inquietações religiosas que varreram a Europa a partir do século 16 se deram com enormes atritos internos. Calvino contendeu com Zwínglio e com o próprio Lutero. E, enquanto esses dois fortes segmentos se fortaleciam na Europa ocidental, não se pode esquecer dos pietistas alemães que corriam por fora do establishment — deles brotaram os anabatistas, os morávios, os wesleyanos e, posteriormente, os pentecostais.
Proponho aprendermos algumas coisas, se quisermos entender o que está acontecendo.
Carecemos aprender a adensar a fé considerando a realidade desta geração. Isso já é difícil, pois a hermenêutica evangélica continua presa aos paradigmas modernos do fundamentalismo; sua eclesiologia repete o modelo rural de igreja; sua escatologia mantém o otimismo do começo do século 20 — os evangélicos se contentam em “arrancar tições da fogueira”, salvando almas do juízo que virá antes do retorno glorioso de Jesus. Porém novas perguntas estão sendo feitas e, infelizmente, poucos se atrevem a respondê-las. Pior, muitos continuam tentando responder a perguntas que ninguém mais faz.
Carecemos aprender a desencantar o mundo. Grandes segmentos evangélicos acreditam que a injustiça e a miséria sejam fruto de algum tipo de controle do diabo sobre nações.
Certa vez, ouvi uma missionária testemunhando sobre uma rodovia com uma curva muito acentuada, que provocava acidentes fatais. Certo dia ela teve uma revelação de que um demônio territorial reinava ali. Sem hesitar, ela convocou uma vigília para “amarrar” aquele anjo da morte. Meses depois, o departamento de estradas daquele país colocou um quebra-molas no local, pondo fim aos desastres. Para ela nem havia necessidade de ensinar cidadania que ajudasse a resolver um problema de engenharia, bastava impedir as ações do diabo.
Carecemos aprender a ser menos apologéticos e mais construtores da história. Recebi muitas críticas por ter escrito que num mundo pós-moderno as pessoas não se preocupam tanto com a verdade e sim com a credibilidade. Afirmei que a igreja deveria se preocupar mais com o testemunho do que com o discurso. Continuo acreditando assim, pois entendo que foi esse o ensino de Jesus: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16).
Nos Estados Unidos a imagem dos evangélicos está arranhada devido ao recrudescimento do conservadorismo, que só privilegia moralismos comportamentais. Na América Latina inteira eles enfrentam descrédito por terem sincretizado a teologia da prosperidade com a religiosidade popular. Somente resgatando o testemunho, serão ouvidos.
Carecemos fazer missões sem tentar manipular o sobrenatural. Fico impressionado com a necessidade dos cristãos brasileiros de provar que milagres acontecem aos borbotões; que Deus “funciona”; que os crentes vivem protegidos de acidentes, doenças e desemprego; e que a doutrina evangélica gera certezas absolutas. Agindo assim, os crentes se distanciarão ainda mais da vida, querendo transformar suas comunidades em ilhas de ilusão.
Por tudo isso, considero que, para entender o que está acontecendo, é preciso começar a ouvir a advertência do Apocalipse: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Ap 2.5).
Soli Deo Gloria.
Carta aberta a Sua Santidade, o Papa Bento XVI - Ricardo Gondim

Respeitosamente o saúdo com paz da parte de Deus.
Percebo-lhe feliz em sua visita ao nosso país; sinta-se bem vindo. Espero que acontecimentos de bastidores não lhe tragam constrangimento – sempre existem futricas privadas nas instituições humanas.
Alegrei-me também de perceber sua coragem em defender alguns princípios inegociáveis para a igreja católica como o aborto. Concordo que os fetos não podem ser considerados meros apêndices indesejáveis do corpo das mulheres, podendo ser extirpados sem critério.
Alegrei-me de vê-lo abraçando duas velhinhas magras e pobres - acredito que elas eram conterrâneas minhas. Sua Santidade não imagina como os idosos sofrem no Brasil. A grande maioria depende que seus familiares os acolham e, geralmente, são considerados um estorvo. Lembrei-me de minha avó, Sua Santidade, que viveu seus últimos dias abandonada sem afeto e sem atenção. Ela ficou cega, e porque vivia na casa de um tio muito mau, angustiou-se até a morte com o desdém e o abandono.
Alegrei-me quando vi Sua Santidade rodeado de sacerdotes de tradições religiosas não alinhadas à sua. No Brasil, nutríamos um medo muito grande que a lenha já seca da Inquisição, que Sua Santidade já presidiu, ardesse novamente. Regozijei-me pelo rabino sorridente que pediu sua bênção. Espero que ele se sinta perdoado, principalmente, depois do constrangimento de haver quebrado um dos Dez Mandamentos, e de ser preso nos Estados Unidos.
Permita-me dizer-lhe, com toda reverência, que fiquei muito, muito, triste com os termos que Sua Santidade se referiu aos evangélicos. Por favor, entenda-me, não estou com melindres. Eu mesmo tenho criticado bastante os evangélicos pelos seus sérios problemas doutrinários e pelas suas enormes dificuldades éticas. Longe de mim ousar corrigi-lo, papa Bento XVI, mas o termo “seita”, é sociologicamente anacrônico; ele comunica uma atitude preconceituosa em relação aos outros, por isso, o considerei despropositado para uma declaração pública, mesmo dirigida ao seu clero.
Entristeci bastante porque notei que Sua Santidade ainda repete o antigo pressuposto agostiniano de que “fora da igreja não existe salvação”. Não o censuraria, até porque reconheço a distância que nos separa - Sua Santidade lidera centenas de milhões de crentes e eu cuido apenas de uma comunidade local –, contudo, referir-se ao grupo religioso que mais cresce na América Latina como “seita”, revela a falta de sintonia dos seus assessores com os eventos daqui.
Permita-me – com toda reverência – fazer algumas considerações sobre o crescimento dos evangélicos neo-pentecostais:
1. Os evangélicos crescem porque conseguiram juntar o discurso doutrinário protestante com a simbologia mística que o catolicismo tanto difundiu no Brasil. Acredito que bispos e teólogos católicos terão enorme dificuldade para arrefecer a força dessa combinação. Saiba que existem similares evangélicos até mais fortes para as pílulas milagrosas do Frei Galvão – acredito que um erudito como o Papa Bento XVI não dá muito valor para pedacinhos de papel, em forma de pílula, com preces escritas que precisam ser engolidos para fazer milagre, também não acredito muito nessas coisas. Os evangélicos agora se valem de rosas ungidas, copos d’água poderosos e dos vales com sal grosso para “amarrar demônios”. Parece-me que a máquina de criar símbolos é mais eficiente entre os neo-pentecostais até porque, todo dia, surge um novo objeto milagroso. Agora que a mensagem protestante foi adubada com a simbologia católica, o terreno ficou fértil.
Oro a Deus que se esvazie a retórica antagônica entre nós, afinal de contas, trabalhamos pela mesma causa. Sua Santidade, sou amigo de alguns padres e, confesso: suas colocações me causaram desconforto; pareceu que em seu papado, antigas rusgas da Reforma recrudescerão.
Pior, achei que houve uma atitude desprezível da cúria do Vaticano em relação às pequenas igrejas como a minha, que lutam com tanto esforço para anunciar o Evangelho com integridade. Escrevo-lhe com carinho, em nome da harmonia entre os cristãos.
[outra vez minha mãe] – texto 11
Escrevo agora esta carta de tristeza, de saudade e de dor, mas não de desespero.
Paulo Freire
Minha mãe está outra vez na pauta da minha vida. E assim continuará, imagino, até a minha morte, quando espero reencontrá-la. Então, “nos olharemos, nos abraçaremos, falaremos de mil coisas desconexas, mas com sentido” (Freire, 2001, p. 291). Será um privilégio compartilhar para sempre nossas vivências.
Enquanto esse dia não chega vou vivendo nesse mundo com as belas lembranças que dela herdei. Sempre ouvi pessoas dizerem: “aproveite tua mãe, um dia ela não vai estar no mundo e você vai ver”. Agora tenho sentido isso na pele. É bem estranho ver comerciais de TV. Por dois motivos: primeiro, porque apenas mulheres bonitas, novinhas, sem rugas e, no entanto, com dois ou três filhos; segundo, porque vejo cenas que vivi e outras que poderia ter vivido. Mas, na verdade, o que mais sinto é saudade. Quando ouço a música-tema de um certo comercial (to louco pra te ver chegar/to louco pra te ter nas mãos) meus olhos ficam lacrimejantes. A saudade dói. Porém, a vida segue, ou deve seguir. As lembranças têm sido um ponto alto nesses meses.
O grande desafio é seguir em frente apesar das lutas e das perdas. Mais desafiador ainda é seguir de forma criativa. A criatividade parece não negar nosso passado, apenas torna-o alavanca, escada, para um novo momento, uma nova chance, uma nova leitura da vida. E ler mais de uma vez o mundo e a palavra vai-nos capacitando para, digamos, ganharmos mais corpo, mais força, a fim de (re)interpretarmos nossa vivência, tornando-nos aptos a reescrevê-la. Assim é que a criatividade ressuscita-nos torna-nos ativos, mais úteis aos que estão por perto. Esse tem sido meu esforço.
Fui criado num ambiente bastante religioso, numa teologia fundamentalista – aquela que proibia tudo, do tipo não podia-se: usar bermuda, usar barba, cabelo comprido, ouvir ‘música do mundo’ (entenda-se não cristã), olhar TV, entre outras diabólicas proibições; às mulheres, coitadas, a proibição estendia-se até que quase negassem o ser gente. Um evangelho desgraçado, sem nenhuma Graça. Deus era uma coisa, um estraga-prazer, afinal, eu precisava ser de um outro mundo. Achava Deus um ser injusto que me colocara num terrível lugar para, do céu, me controlar, ver se eu era forte e dava conta do recado. “Deus é um masoquista”, pensei muitas vezes, “gosta de ver gente sofrer”. Quão longe estava do Deus que hoje conheço.
Vi minha mãe em meio a muitas agruras. A vi chorar algumas vezes. Em inúmeros momentos ouvi a explosão de alguém sufocado pelo machismo, além do sufoco das contas a pagar. Palavrões e palavrinhas vinham à tona, tudo era, por um instante, verbalmente metralhado. Sem ter consciência, estava aprendendo com aquelas situações.
Quanto mais me volto sobre a infância distante, tanto mais descubro que tenho sempre algo a aprender dela. Dela e da adolescência difícil. É que não faço este retomo como quem se embala sentimentalmente numa saudade piegas ou como quem tenta apresentar a infância e a adolescência pouco fáceis como uma espécie de salvo-conduto revolucionário. Esta seria, de resto, uma pretensão ridícula. (Freire, 2003, p. 37)
Agora casado, mais maduro, estou notando duas influências importantíssimas que ela exerceu sobre mim e nem soube. E o bom de ela não ter sabido foi que o ensino/influência se deu naturalmente, com tranqüilidade, com paz, sem pressões porque foi vivência pura. Penso que às vezes a influência consciente pode ser maldosa, com intenções implícitas. Não foi esse o caso. Minha mãe nem teve instrução suficiente para tal percepção. O que ela teve foi, no dizer de Paulo Freire, “um saber de experiência feito”. A vida a ensinou.
Na nossa casa havia apenas um aparelho radiofônico que, inevitavelmente, era sintonizado em emissoras que apresentavam notícias ou transmitiam programas religiosos (predominantemente evangélicos). Os discos (na época LP’s) eram todos religiosos. Meu mundo girava em torno disso. Um dia, porém, numa santa data, minha mãe apareceu em casa com uma sacola cheia de gibis e uma televisão velha – presente fruto de uma faxina.
Quase apanhou. Teve de devolver ou doar a TV e consumir com os livrinhos. Estupefato, consegui salvar um exemplar. Quanto à televisão, nada pude fazer a não ser lamentar e continuar tenho que assistí-la nos vizinhos. Mas a leitura do gibi foi-me fascinante. Imagino que senti um pouco do que Paulo Freire sentia: “as palavras eram como se fossem pedaços de comida” (Freire, 2003, p. 40). Coloquei, com muito zelo, o gibi embaixo do meu colchão e fui dormir lembrando da frase que dava início à próxima cena: “cai a noite em patópolis”. Nota-se, creio, que a primeira influência tem a ver com livros e leitura; a segunda, com música.
A influência musical da mãe só foi percebida por mim agora, nesse ano. Num dia desses estava fazendo alguma coisa em casa, o rádio ligado, e, de repente “as praias do Brasil ensolarada.../eu te amo meu Brasil, eu te amo”[1]. Fiquei maravilhado e pensando: “só um minutinho, isso minha mãe cantava”. Alguns dias depois escutei “quanto riso/oh, quanta alegria/mais de mil palhaços no salão/olha quem está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão”. Que coisa linda! Minha mãe cantava Zé Keti[2]. Meses adiante, tentando encontrar um canal de televisão que valesse a pena assistir, passei por um que homenageava um cantor: “pare de tomar a pílula/pare de tomar a pílula...” – mais uma das que a mãe cantava. Odair José fazia parte da musicalidade de dona Ilse Nauter. E não faltaram os “nana nenéns”.
Comecei a entender por que, às vezes, preferia o pai fora de casa: era justamente o momento no qual eu sintonizava o rádio em uma emissora que tocasse uma música diferente. Era o instante em que eu poderia exercer ou dar vazão a minha curiosidade.
Talvez venha daquela fase, a da infância remota, o hábito que me acompanha até hoje, o de entregar-me, de vez em quando, a um profundo recolhimento em mim mesmo, quase como se estivesse isolado do resto, das pessoas e das coisas que me cercam. Recolhido em mim mesmo, gosto de pensar, de me encontrar no jogo aparente de perder-me. (Freire, 2003, p. 38)
Os livros têm sido importantes na minha vida. Os gibis, demonizados na minha infância, foram crescendo, expandindo e se contextualizando; da leitura simples, estou partindo para a mais profunda, mais complexa, com mais vagar e significação. Deus não é mais um estraga-prazer. Nunca foi, apenas não sabia disso. As leituras ensinaram-me a não separar o mundo espiritual do meu cotidiano, ou seja, pouco importa o que leio, em tudo há uma dimensão humana e espiritual. Sinto-me mais perto de Deus, algo impensável na minha infância. Hoje entendo, embora não concorde, com as proibições relativas à leitura. Ler tira-nos do lugar comum, torna-nos mais questionadores e, talvez, mais aptos para melhor nos expressarmos. A leitura deixa-nos incômodos. Pois, hoje, ler “Nas garras da graça”, de Max Lucado, levou-me até “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski: Deus. Quando li “Desventuras da vida cristã”, de Yancey e Stafford, fui para o mesmo lugar de “O processo”, de Kafka: a ingratidão e a misericórdia divina. E ao observar um cristão fundamentalista e/ou machista lembro de “Dom Casmurro”, do célebre Machado de Assis. Um evangelista ou um missionário, por sua vez, lembra-me de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, do instigante Lima Barreto. E poderia continuar exemplificando.
Por outro lado, a música cristã e a não-cristã, ambas, sim, do mundo, têm sido cortina sonora para receber amigos, para embalar minha pequena produção, para esquentar o namoro com minha esposa, para meus protestos e momentos menos serenos. Compreendo as razões, embora com elas também não concorde, por que me proibiam de ouvir, entre outros, Legião Urbana, Titãs, Ira e, antes deles, Raul Seixas. Eles também inquietaram os calmos fiéis igrejeiros, questionaram o consumismo da fé. A música secular amplia horizontes. Todavia, hoje não tenho nenhum pudor em dizer que “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Também entendo a brabeza de alguns com o título de um bom disco: Jesus não tem dentes no país dos banguelas (Titãs).
Descobri uma brasilidade na minha mãe, razão pela qual insisto que nossa religiosidade deveria ter mais a nossa cara. Somos um país rico em recursos e belezas naturais, temos uma miscigenação de seres humanos e, conseqüentemente, cultural. Não obstante, pouco aproveitamos desse peculiar potencial. Nossa religiosidade deveria valorizar mais o que é daqui e menos o que é de lá (do exterior). Precisaríamos mergulhar mais obra de um Guimarães Rosa para entender que quanto mais ele se embrenhava na brasilidade mais universal se tornava. E esse meu pensar começa com a semente que minha mãe plantou, ratifico, sem perceber.
O resultado da convivência com a mãe, entre muitas e muitas coisas, levou-me a ser um leitor compulsivo, bem como um apreciador da boa música. Não saio de casa sem algum exemplar para ler, nem fico um instante sem ouvir música. Aprendi a tocar bateria, violão e a cantar. Aliada a essas aprendizagens está a efetivação de minha autonomia, o que me permite ampliar ainda mais as leituras, as audições, além de confrontá-las com uma diversidade teórica existente. Está também a companhia de pessoas, inclusive pelo instrumento pós-moderno chamado internet. Meus horizontes alargaram-se. O véu que me separava de Deus já não separa mais. A implicação desse véu em mim tem sido traduzido por respeito às diferenças e no aproveitamento daquilo que é bom e inefasto. Posso dizer que vejo Deus no meu trabalho, na minha casa, pelas ruas, num bom bate-papo, num bom filme, numa boa música, num bom livro, num bom passeio, no lembrar e/ou imitar aquelas pessoas que sempre agiram para o bem de muitos e mantiveram a necessária coerência entre a prédica e a prática. Mas também vejo Deus naqueles que não têm vergonha de mudar de opinião, por terem o entendimento de que o mundo está em construção. Igualmente, Deus resplandece naqueles que humildemente reconhecem os próprios erros e, contudo, querem continuar na caminhada. Acredito sobremaneira num Deus que conhece as minhas falhas humanas, os meus desejos mais secretos ou não, nos meus anseios e medos. Creio num Deus que se fez humano para me entender, e isso faz toda a diferença durante as minhas preces. Num Deus-Pai que ultrapassa o meu entendimento e me dá infinitamente mais do que aquilo que peço ou penso.
Finalmente, para rebater o machismo, imagino que o Todo-poderoso deu-nos a mãe para que tivéssemos uma idéia do seu cuidado. Mas preveniu que “mesmo que uma mãe viesse do seu filho se esquecer, ainda assim não haveria de me esquecer de ti”. Acho que Leonardo Boff tem boas razões para ter tentado pintar, ao longo das páginas de sua obra, “O rosto materno de Deus”.
Se eu pudesse, diria à mãe que ando querendo cantar “pare de tomar a pílula” para minha querida Lu. Como não acredito em reencarnação, mas em ressurreição, talvez um dia eu possa concretizar o que posso ler em Freire (2001, p. 291/292):
Riremos juntos, relembrando tantas coisas. Tem de ter riso de criança, flores de muitas cores, um arco-íris bem bonito e passarinhos cantadores. Só depois deste momento necessário falaremos lentamente, mas nunca friamente, do que temos feito, do que estamos fazendo e do que pensamos fazer.
Enquanto isso, vou vivendo lembrando que “belezas são coisas acessas por dentro, tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”. Viva Caetano! “Palma para todos os instrumentistas” (Paratodos, de Chico Buarque). E os livros? Leiamo-los ou “por odiarmo-los podemos simplesmente escrever um” (trecho de Livros, de Caetano Veloso).
A vida deve seguir, se possível com criatividade; “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo” (Aprendendo a jogar, de Guilherme Arantes).
Vivam as mães!!!
NOTAS
ILUSTRAÇÃO de José Francisco Borges para a obra As palavras andantes, de Eduardo Galeano, 5 ed., L&PM, 2007.
FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Araújo Freire (org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.
FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minha práxis. Direção, organização e notas Ana Maria Araújo Freire. 2.ed.rev. São Paulo: Editora UNESP, 2003.
[1] Os incríveis. Leiamos um trecho: “as praias do brasil ensolarada/lalalala/elevou o amor que deus criou/lalalala/em terras brasileiras vou cantar amor/eu te amo meu brasil, eu te amo/meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
[2] www.mpbnet.com.br/musicos/ze.keti/index.html
OUTRA VEZ MINHA MÃE porque já escrevi outros textos sobre ela:
1- http://levinainternet.blogspot.com/2005_10_01_archive.html : Estou vendo a morte
2- http://levinainternet.blogspot.com/2006_01_01_archive.html : Meu coração está preto
3- http://levinainternet.blogspot.com/2006_12_01_archive.html : Daqui a pouco fará um ano
[o rock e o evangelho] - resenha 2
As coisas que a gente faz, conhece ou sabe são o produto de uma complexidade de influências na vida gente.
Paulo Freire, educador
Acabo de ler mais um livro sobre música cristã. Infelizmente, a maioria dos que li não me agradaram. Considerei-os muito clichês, ou seja, iam no lugar comum: tratavam de louvor e adoração usando invariavelmente Davi como centro. Nada contra Davi, claro; ele foi quem sistematizou a música e, de um certo ponto de vista, quem a profissionalizou. Ademais, admiro esse homem segundo o coração de Deus porque ele foi tão humano que pecou, tentou omitir o erro, sofreu na alma e confessou. Tocou um instrumento, matou bichos, matou um ser humano, arrependeu-se, em meio a isso escrevia poesia e fez parte da genealogia de Cristo. Logo, minha insatisfação é porque a maioria das obras não traziam novidades mais relevantes, mais palpáveis.
Trata-se de O rock na evangelização, de Flávio Lages Rodrigues[i]. O autor é teólogo e pós-graduando em Teologia Sistemática, além de líder de música na Igreja Batista da Lagoinha. Faço essa mini apresentação porque ainda se dá importância à institucionalização de um autor. Quanto mais famosa é a sua igreja-instituição maior a penetração midiática (com todas as boas conseqüências advindas daí). Ele é baterista - dado importante, se observarmos que poucos músicos lêem, poucos fariam um curso superior em teologia e não muitos teorizariam sobre o que fazem para o Reino de Deus - e tem envolvimento com a "cena alternativa e underground e na prática de esportes radicais como skate e patins".
Não é um livro profundo em termos de pesquisa bibliográfica. Está calcado em três obras (Cristo e Cultura[ii], Teologia e MPB[iii] e A morte da razão[iv]) que, a partir daí vão sendo contextualizadas e, paulatinamente, intentando levar o leitor para a compreensão da relevância de um ritmo pejorativamente mundanizado. O rock na evangelização é dividido em duas partes: parte 1 - revelação e cultura; parte 2 - novos movimentos culturais. A primeira parte é composta de onze razoáveis capítulos. A meu ver os mais interessantes pois fazem um apanhado histórico-cultural desde o Antigo Testamento, passando pela Idade Média e chegando nos contemporâneos teólogos defensores da teologia aliada à cultura. Penso que faltou um bom teórico, por exemplo, da sociologia. Também penso que esses capítulos deveriam ter sido mais aprofundados. Mas, enfim, é um bom pontapé inicial na temática. A segunda parte é mirrada, isto por que alguns dos sete capítulos são tremendamente curtos e, em conseqüência sem nenhuma análise mais crítica. Tais capítulos poderiam ter sido condensados em outros. Exemplifico citando o capítulo dezoito cujo tema, "uma maneira diferente de anunciar o evangelho", incita uma grande reflexão e, no entanto, mereceu do autor apenas vinte e nove linhas. Por outro lado, o autor utiliza quatro páginas para uma massante lista de bandas cristãs surgidas. Pior é, ao final das listas, como nota de rodapé, termos o site donde os nomes foram tirados. Apenas o site bastaria como pista para quem quisesse ler.
Considero importantes essas observações porque é uma obra de circulação em boa parte das livrarias evangélicas do país. Sendo editada por uma empresa com programa de marketing (com coordenação editorial, consultor editorial, produtor gráfico, com preparação e revisão de texto), não poderia ter deixado passar alguns erros gramaticais drásticos, bem como a falta da citação bibliográfica de ALTANER (nome da obra, editora etc). Isso, porém, está muitíssimo longe de desmerecer a obra.
O rock na evangelização tem muitos méritos. Um deles, a mim o mais importante, é a ousadia de tocar na ferida e declarar que o rock pode ser "um dos maiores atrativos na pré-evangelização dos jovens e adolescentes, mostrando as várias formas que Deus dá para Sua Igreja" (p. 108). Ouvi muito sermão dizendo que rock era coisa do diabo. Nos bastidores, os filhos desses mesmos preletores ouviam "o bom e velho Rock'n roll" (lembrei do IRA, um grupo que por vezes diz o que a Igreja deveria dizer). Em geral, uma das virtudes dos jovens, é acabar com o discurso ultrapassado dos pais; aos poucos, isso provoca, mesmo forçosamente, uma revisão nos conceitos e pré-conceitos de quem parece esquecer que um dia já foi jovem.
Outra virtude da obra é, ainda acanhadamente, falar de música brasileira, especialmente do samba, um ritmo demonizado pela elite igrejeira que prefere as traduções, às vezes bizarras, a aprender apreciar a maravilha de um ritmo que poetiza nossas virtudes e mazelas (vide ou ouça, por exemplo, Zeca Pagodinho ou o maravilhoso Grupo Semente com a linda voz de Teresa Cristina). Ainda devo ressaltar a relevante, mas também pincelada, abordagem na temática da cultura, na defesa de que os cristãos precisam inserir-se no seu tempo histórico em diversas áreas artísticas. Precisam estar cônscios do papel formador que tem a arte em geral.
Ao término da leitura fiquei pensando nos sonhos que ainda espero ver registrados. Pensei no dia em que efetivamente conseguiremos contextualizar os sons do mundo aos sons típicos do lugar em que Deus nos permitiu nascer. Aliás, Flávio Rodrigues bem lembrou que o grupo Sepultura fez isso (e bem) ao aliar o som metal com o som indígena. Infelizmente os grupos evangélicos que têm ousado brasilificar seus repertórios vivem à margem, passam ao largo da grande massa. Mas, atentemos ao que já nos alertou Jorge Mautner: "ou o país se brasilifica ou vira nasista".
Também pensei no dia em que veremos artistas cristãos nas bienais brasileiras, ou escritores nas grandes feiras de livros.
Para que tudo isso aconteça, vislumbro pregadores - se possível sem a preocupação com vocativos (reverendo, pastor, evangelistas etc) - refletindo, nos púlpitos ou em qualquer outro lugar com seus liderados, um chamado evangelho sensível.
ILUSTRAÇÃO: de Philip Reeve para ISAAC NEWTON E SUA MAÇÃ, de Kjartan Poskitt, Cia das Letras, 2001.
[ii]H. Richard Niebuhr, editora Paz e Terra.
[iii]Carlos Eduardo B. Calvani, editora Loyola.
[iv]Francis Schaeffer, editora Fiel.
[aos leitores] - texto 10

Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas.
José Saramago
Receber comentários de leitores é sempre bom. Isso demonstra que se está sendo lido, ou olhado. Há, escondido, um narcisismo em cada escritor. Tenho a sorte ou o azar (é sempre uma dubiedade) de, às vezes, alguém comentar o que escrevi. Em alguns momentos recebo-os no próprio blog; noutros, via e-mail – ferramenta importante na pós-modernidade. Contudo, receber comentários não significa com eles concordar nem a eles responder. Muitas vezes o comentário poderá, por ‘n’ motivos, ser considerado pouco contribuidor para um diálogo mais amplo na discussão em tela; pode, ainda, considerar que alimentar o comentado vai gerar mais truncamentos que fluidez e/ou fruição. Noutras vezes, também, ignorar é uma boa resposta. Todas essas decisões são políticas.
No texto Política e profecia, recebi um questionamento em forma de três perguntas, feito por um leitor a quem quero bem: pastor Leandro Barbosa, teólogo, músico e com quem tenho aprendido e conhecido muito sobre louvor e adoração, essencialmente os ministérios internacionais.
Minha decisão de postar como texto e não como comentário deve-se ao fato de outras pessoas demonstrarem, ainda que implicitamente, a mesma intenção de discurso. A resposta, portanto, extrapola às questões levantadas pelo pastor Leandro e vai ao encontro de quem já fez ou faria interrogações semelhantes. Quero, antes, ratificar meu respeito a todos os que comentam o que escrevo; gostaria que mais pessoas fizessem o mesmo. Porém, também reafirmo o que já disse no primeiro parágrafo.
Vamos às perguntas.
Cara 3 perguntas???1º o fator da politica de sobrevivência, pode chamar de politica o fator de que desde que nascemos somos abrigados a nos adaptarmos a padrões de uma sociedade? ou seria apenas sobrevivência?2º Quanto a religião; a politica não é uma reação a pressão que a sociedade impõe como padrões de Igreja?tipo ela nos pede respostas, e por não as termos, apenas as recriamos com a leves pitadas de algo espiritual?3º a Politicagem esta diretamente relacionada com o fator PODER? que pensas em relação de uma revisão pessoal dos conceitos de uma liderança segundo jesus? (sic)
Algumas questões parecem-me importantes num primeiro olhar: as perguntas não estão claras como deveriam ou como seria mais adequado. Quanto mais claro o que se quer saber, mais fácil, ao menos em tese, a resposta - ou com menos bifurcações. Nós, com uma formação de terceiro grau, o famigerado nível superior, temos o compromisso de ir - mesmo paulatinamente - melhorando a escrita, aprimorando nossa morfologia, sintaxe, citando fontes, fazendo referências diretas ou indiretas a outras leituras e, nisso, respeitando as convenções do tipo ABNT; inclusive discordando dela, se for o caso.
Às considerações.
Relativo à primeira pergunta, precisamos de alguns entendimentos. O primeiro deles tem a ver com o como vemos este mundo (Terra). Há uma série de teses, teorias, propostas, filosofias, crenças, ou seja, cosmovisões que ditam nosso jeito de interagir sócio-historicamente. Essa epistemologia nos forma, queiramos ou não, dentro de determinados limites, saberes e vivências; forja-se uma cultura. Cria-se, assim, uma moral (regras) e uma ética (valores) próprias. É com base nisso que posso afirmar que não existe uma sociedade, mas, sim, sociedades. Em conseqüência, há padrões e/ou pressupostos para se fazer parte de uma sociedade. O termo política por mim utilizado faz referência ao que se refere a um grupo de pessoas - quando há jogo de interesses no qual se pesa prós e contras. Em síntese, política, nesse sentido, é uma espécie de adaptação a uma sociedade, cristã ou não, e, ao mesmo tempo, tem a ver com sobrevivência. Política e sobrevivência não são palavras dicotômicas. Muitas e muitas vezes melhor que meu texto é o de Max Weber, entre outros autores, que trata desse assunto. A obra chama-se Ciência e política: duas vocações, publicado pela editora Martin Claret.
Seguindo meu raciocínio, a resposta para a segunda questão está praticamente dada. Acrescentaria como ratificação que tanto uma possível pressão da sociedade na qual estamos inseridos como da religião a essa sociedade são políticas igualmente. Ou seja, a vida em sociedade é sempre tensa; há pressão de e para todos os lados. Importante também é a consciência de que política não significa necessariamente superficialidade. À política-partidária é mais provável. Agora, se como resposta a uma sociedade dita laica damos uma resposta cristã superficial é um problema nosso, de uma visão cristã vesga, sem profundidade. A sociedade dita laica está cumprindo com seu papel; se aceitamos suas imposições pode significar que estamos influenciando muito pouco, quase nada, o que, aliás, não é novidade. O que seguidamente ocorre é uma espiritualidade ET; nela, a (pseudo) espiritualidade não parte de nada palpável, não tem como base nosso contexto terreal nem perpassa-o. Pois, essa espiritualidade ET é, ainda bem, questionada pela sociedade que quer mais encarnação. E tem mais: só se pede ou se impõe algo se se dá lugar para isso.
Finalmente, a terceira pergunta questiona dois temas diferentes. Um deles parece claro: politicagem, no meu entender, tem tudo a ver com poder, mas com um poder que não necessariamente traz visibilidade. Significa dizer que politicagem é um arranjo, um acerto a fim de atender a alguns interesses que podem até ser escusos. O outro tema, com o qual encerro este texto, diz respeito ao que penso sobre o nosso Senhor Jesus Cristo.
que pensas em relação de uma revisão pessoal dos conceitos de uma liderança segundo jesus?
Considero essa pergunta ótima, principalmente porque ela me permite dizer da opção que tenho feito em relação ao evangelho, à leitura das Escrituras, à visão que tenho das personagens bíblicas. A resposta que daria é depende. Não estou disposto, a priori, a qualquer mudança. Se a liderança proposta tem como base essa norte-americanização que circunda o meio gospel, esqueça a mudança. Não a quero. Não me imagino sendo conivente com liderança à la James Hunter (autor de O monge e o executivo e de Como se tornar um líder servidor), nem com quem escreveu Jesus, o maior líder que já existiu (Laurie Beth Jones), tampouco com Kenneth Hagin, muito menos com Augusto Cury. Também não pretendo adotar a visão de Rick Warren (Uma igreja com propósitos, Uma vida com propósitos, entre outros). Na minha opinião, gente que faz do cristianismo um mercado, e bem lucrativo. Esses sim, no meu entender, dão "leves pitadas de algo espiritual". Respeito-os, várias pessoas devem ter sido alcançadas através deles. Contudo, há outras formas de se olhar, ver, ouvir e se relacionar com Deus; ou Ele não é multiforme e mentimos quando fazemos essa afirmação.
A revisão pessoal dos meus conceitos dão-se cotidianamente, quando sou confrontado no meu local de trabalho, nos meus estudos e pesquisas, no relacionamento interpessoal, na relação diária com minha mulher (de quem não sou dono). Meus conceitos não fazem distinção entre o sagrado e o profano; eles caminharam para um lugar donde posso ver Deus no sagrado e no profano, na música sacra, na música gospel e na música secular. Não vejo Deus apenas nas coisas importadas, geralmente do norte; vejo-O também a partir do lugar onde Ele me permitiu nascer. E, de certa forma, posso e ouso unir-me ao que disse o instigante e bom grupo musical O Rappa: "minha fé é minha cultura", obviamente que com todas as acepções desta palavra. A revisão dos meus conceitos está acontecendo e possivelmente dar-se-á enquanto eu estiver vivo, ou seja, não tem data definida.
Por fim, estou perto dos trinta e três anos, a idade de Cristo. Espero, sinceramente, não ser "crucificado". Caso seja, gostaria pelo menos de poder fazer o que Ele fez com os mercadores, com os fariseus, bem como a Sua atitude diante dos oprimidos, dos fracos e doentes, das crianças e das viúvas. O Cristo que escolheu doze pessoas distintas é bem diferente do que aquele que se nos apresentam hoje. Essa pasteurização divina não me interessa nenhum pouco.
[três indicações de leitura] - dica 1
Levi Nauter
Dormir é a suprema genialidade. Kierkegaard
Tomo a liberdade de sugestionar a leitura de três obras lidas nos últimos meses (jan-fev-mar). Elas não significam a (re)descoberta da roda, mas a ampliação da reflexão sobre nosso cotidiano. Em relação a estar postado num blog sobre cristianismo, a justificativa tem a ver com a quebra, ainda que paulatina, da idéia velada de que crente só lê crente ou, única e exclusivamente, a Bíblia. O cristão, querendo ou não, lê o mundo antes de ler o texto grafado - como, aliás, qualquer outra pessoa que está, tanto quanto ele, neste mundo. Começam a chegar publicações ao grande público cuja temática gira em torno de "o que é um texto?". Um texto, a partir dessas observações, é tudo o que vemos, lemos, interpretamos, interagimos. Assim, nossos olhos e nosso tato são leitores daquilo que vêem ou tocam.
A primeira sugestão é a leitura de A parte do diabo, de Michel Maffesoli. Uma obra que aborda a subversão pós-moderna. Mais que isso, diz, às vezes direta, às vezes indiretamente, aquilo que fazemos como que para sublimar nossas tristezas, frustrações, bem como nossas euforias, protestos, reivindicações; nossas vivências, afinal. Maffesoli propõe-nos uma vivência mais harmônica, não necessariamente concordante, com nossas disparidades. A parte do diabo parece ser um antônimo da parte de Deus; e nessa esteira temos a alegria/tristeza, o recato/piercing, o silêncio/festa ravi, entre outros duplos. Em meio a essa análise, o autor não esquece de alfinetar e tocar em pontos sensíveis da religiosidade - algo que nós poderíamos também fazer.
De tanto querer educar a natureza, chegamos aos estragos econômicos de que começamos a nos conscientizar. (Maffesoli, p. 33)
Qualquer um é pessoa: ator de uma teatralidade global. Nela, desempenha papéis diversos que só têm valor por sua multiplicidade e sua interação. (Idem, p. 99)
...o divino encarna-se no corpo social... (Idem, p. 125)
A maior verdade de alguma coisa é e não é, ao mesmo tempo. (Idem, p. 126)
A segunda sugestão é a leitura de um filósofo inconformado. Inconformismo que não significa, diga-se logo, desesperança ou nihilimo; mas a discordância de um superficialismo hipócrita e contraproducente. Somente neste caso específico, uno-me ao best-seller e auto-ajuda cristão Rick Warren que sugere, quando comemos peixe: "coma a carne, deixe os espinhos". Comer espinhos é sempre uma tarefa complicada, embora seja possível encontrar alguns sugerindo que, comendo-os, teremos uma pedra a mais em nossa coroa celestial. Desconfio que seja a mesma história das setenta mulheres que, dizem, é contada aos muçulmanos. Em todo caso, leiam A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer.
...só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade. (Schopenhauer, p. 39)
O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito... (Idem, p. 52)
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós... (Idem, p. 127)
Aproveitem o muito que há de bom na obra e, se pasmarem, fica, de soslaio, a proposta de Yalom para A cura de Schopenhauer.
A última sugestão, de alguma forma traz uma importância que abarca as duas outras já feitas. Em Maffesoli bem como em Schopenhauer o que lemos são, sobretudo, cosmovisões, interpretações de outras leituras; o lido, com o passar dos dias, vai ressignificado e alargando nossas memórias. E, mesmo que não nos demos conta, quando dialogamos vamos (re)transmitindo nossos recônditos.
Um dia assisti a uma entrevista com o cantor e compositor Martinho da Vila. Nela ele sugeria que todos nós deveríamos escrever sobre nossas vidas, como forma de entendê-la e de preservá-la. É o que tenho tentado fazer ao postar textos neste blog. Foi também o que fizeram os autores do livro que tem sido meu maior referencial de vida, a Biblia.
José Saramago fez isso muito bem ao escrever As pequenas memórias. Um bom exemplar para se ler e, inspirado na leitura, fazer, via escrita, terapia (minha preferência) a uma quebra de maldição (a espiritualização do consultório). Fica evidente na obra saramaguiana a relevância daquilo que nos fazem (ou o que nós fazemos) quando somos crianças e adolescentes. Noutros momentos, surgem interrogações:
Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas. (Saramago, p. 58)
Fica a dica. Leiam e aproveitem para ampliar conhecimentos e reflexões. Após a leitura, a audição do CD Eu não peço desculpas, com Caetano Veloso e Jorge Mautner. Maravilhoso!
AS OBRAS
MAFFESOLI, Michel. A parte do diabo.Rio de Janeiro: Record, 2004.
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2005.
A ILUSTRAÇÃO
Da obra AS MIL E UMA NOITES, contos árabes. Trad por Ferreira Gullar. Rio de Janeiro, ed. Revan, 2006, 4. ed.
[política e profecia] - texto 9
Há quem não goste que se diga que Cristo teve atitudes políticas. Eu, ao contrário, considero que sim, na medida em que ele tomou forma humana. Embora não tendo pecado, sendo humano exerceu, sim, a política interpessoal - e bem, por sinal. Isso denota que política não é pecado. Pecado, talvez, seja negá-la, ignorá-la. Pecado é alguém ou uma liderança utilizar-se da política e não permitir que seus subalternos façam o mesmo, como ocorre, por sinal, na Igreja Deus é Amor. O missionário David M. Miranda diz claramente em seus discursos que política é pecado. Consciente ou inconscientemente, perpetua-se a idéia de que a história do mundo está pronta, dada e 'imexível'. Nós fazemos esse mundo, temos autoridade divina para isso, e essa construção se dá com políticas. Cristo foi perfeito em fazer essa demonstração. Inclusive dando-nos uma boa lição, a da morte, isto é, envolver-se em política (interpessoal ou institucional) pode implicar ter que morrer (denotativa e conotativamente).
A primeira acepção de política tem a ver com as decisões que tomamos para a nossa sobrevivência cotidiana, individual (e coletiva, desde que não institucional). Quando vamos emitir uma opinião sobre alguém ou algo, refletimos - antes ou durante - sobre as conseqüências que poderão advir. Às vezes, notamos que alguém não está vestido tão adequadamente como achamos que deveria. A reflexão 'falo ou não falo?' é política porque dela poderá surgir implicações tanto no presente como no futuro. Saber portar-se, vestir-se e/ou falar, além de fazer-se alguma coisa adequadamente requer uma decisão; por isso política.
A segunda acepção, que chamei de sócio-institucional, é mais conhecida como política-partidária. Mais conhecida ou pode estar a ela agregada. Isso porque, não podemos perder de vista, a instituição é sempre formalizada (ou tem peso formal perante uma determinada sociedade). Se, por um lado, pensarmos num partido político, por exemplo, vamos notar sua institucionalização e seu peso perante a sociedade. Mais que isso, neste exemplo, também observamos uma ideologia, uma cosmovisão com propósitos a serem alcançados. Contudo, por outro lado, se pensarmos numa igreja-instituição (entenda-se, portanto, uma denominação formalizada, com CNPJ) não iremos fugir da regra: possui peso/relevância para alguns da sociedade, possuem ideologias e cosmovisões diversas a respeito de suas teologias, possuem propósitos a conquistar. Nessa segunda acepção, podemos levantar a questão da associação igreja-instituição-política, ou, habitualmente chamado, Igreja X Estado. A história tem registrado as conseqüências, basta pesquisar.
Talvez seja tolice imaginar que um cristão não se envolve com a política mais formalizada, a política-partidária. É humano, natural e até necessário o conhecimento do maior número possível de cosmovisões, de teorias, de idéias e de projetos que vêm construindo nossa moral e ética. Essa é a razão (ou uma das) pela qual vemos muitos chamados irmãos em Cristo exercendo seu papel justo, legal, de um cidadão terreno que visa o céu. O que falta, com base em observações, é o respeito entre as diversas cosmovisões. Os esquerdistas criticam os direitistas, que não se denominam assim pois se acham liberais. Alguns esquerdistas vesgamente não enxergam os próprios erros e, ainda por cima, consideram-se mais socialistas. E assim segue uma ladainha que pouco beneficia a grande massa que não tem nenhuma bandeira oficial, embora, obviamente, pendam para algum lado, ainda que não saibam ou não queiram envolver-se. Afinal, não há neutralidade. O que existe são pessoas que, ao não tomarem posição, fortalecem o poder. Quem não deseja isso tem que se posicionar. Ter uma posição político-partidária é importante. Assumí-las também. Não é proveitoso o desrespeito com quem pensa diferente, a partir do desmerecimento e não da discordância.
Em meu caso, não sou filiado a nenhum partido político. E quanto mais olho para esse cenário, mais vejo que longe dele devo estar. Não obstante, esse passar de largo não poderá tornar-se acrítico, ao contrário, deve ser crítico. E, se crítico, para ambos os lados.
E esta tem sido minha defesa, porque não sou fatalista: o cristão deveria estar como que acima da política-partidária para, assim, ter voz profética. A meu ver, uma voz profética não pode estar comprometida com algum lado, beneficiando esta ou aquela visão, senão ser superior, independente. Se a profecia for tendenciosa o que teremos não será palavra profética, mas, sim, politicagem (entendida por mim como um arranjo a fim de adequar-se de acordo com certas conveniências). Política e politicagem funcionam; política e profecia, acho que não.
E, com esse pensamento, encerro dizendo que, tanto em nosso estado como em nível federal, estamos vendo/tendo péssimos exemplos de política e politicagens. Eventualmente alguma coisa presta. Onde estarão os profetas?
[manipulação, dominação, controle e abuso espiritual] - resenha

Levi Nauter
A maior ameaça à igreja hoje não vem de fora, mas de dentro de nossa própria liderança.
Philip Keller
Imagino que, em pleno Século XXI, todos sabem que é possível e, por vezes, há manipulação, dominação, controle e abuso espiritual nas igrejas (estamos falando de instituição, sem descartar a ocorrência no corpo) - não necessariamente nessa ordem. Esse mal é facilmente detectado nas mais diversas denominações, a partir dos discursos de seus líderes. Uma característica que deveríamos começar a observar são lideranças que dizem, sem nenhum pudor, “eu te abençôo”, “eu libero perdão”, eu isso, eu aquilo. Cristo parece estar, obrigatoriamente, encarnado em homens que têm se intitulado apóstolos, reverendos, bispos, semi-deuses, sub-espírito santo – alguma coisa do tipo nem tão acima de Deus nem tão pra perto do diabo. Essa gente anda dominando crentes. Graças a esse pessoal, vemos pessoas com menos poder de crítica e/ou análise sendo engodadas e repetindo: “mas o irmão fulano falou; ele é um homem de Deus”. Incrivelmente esse mesmo pessoal está mais preocupado em encher templos, arrecadar muito dinheiro, enriquecer e montar programas de entretenimento gospel (grupos de dança, grupos de teatro, grupos de ação social, camisetas, canecas, agendas e todo tipo de parafernália que, ao mesmo tempo, perpetue a ideologia e traga rendimentos financeiros).
Esse foi o tema de dois livros que li nos saudosos dias de férias. Minha tentativa, a seguir, será resenhá-los.
A primeira obra, Manipulação, dominação e controle, de Yinka Oyekan
O prefácio é um incentivo à leitura. Colin Urquhar, a uma certa altura, registra que
Um dos maiores empecilhos para o cumprimento do propósito de Deus em Sua igreja é a relação de manipulação, domínio e controle que existe entre muitos cristãos. Às vezes, líderes dominam e controlam suas congregações em vez de liderá-las com ouvidos sensíveis à voz do Espírito. Outras, membros enérgicos manipulam seus líderes valendo-se de uma espécie de chantagem espiritual.
Pode ser uma obviedade, mas é sempre bom vê-la grafada.
Oyekan inicia de maneira contundente, afirma, sem rodeios, que “Assenhorar-se de outra pessoa é... uma tentativa de estender nossa esfera de domínio além do que Deus originalmente determinou” (p. 13). Ocorre que o poder corrompe e a tentativa de perpetuá-lo cega os limites do aceitável. É assim que nascem grupos de pessoas cujo líder domina mesmo, se possível em todos os níveis da vida do sujeito, são os chamados “pai”na fé (ou será pau na fé?). “Os dominadores consideram um ato de traição à atividade normal de um indivíduo no sentido de crescer na fé e, conseqüentemente, sair da sua tutela” (p. 18). Esses indivíduos (não há como chamá-los de outro jeito) frequentemente são os mesmos que distorcem 2Co 3.17. Líderes manipuladores, dominadores e controladores não aceitam opiniões, não se compactuam com as palavras liberdade e autonomia, pois isso significa arrazoar discursos e opiniões. Então, “eles só aceitam boas idéias se eles mesmos forem, ou parecerem ser, os autores” (p. 24). Coisa do capeta.
Para minha felicidade (e a de quem ler), Oyekan não esqueceu de dar pinceladas numa idéia que toma conta dos pequenos grupos, tão em voga nos nossos dias. Trata-se da vesga idéia de subestimação das pessoas, ou seja, “para eles [pastores e lideranças], discipular ou “pastorear” é uma forma de confinar pessoas a um relacionamento em que um cristão obedece a outro sem questionar” (p. 48), o que é lamentável em plena era democrática e, mais vergonhoso ainda, quando o próprio Deus dá-nos o livre-arbítrio. Resta-nos, nesses casos, o que, a meu ver, é a síntese desse livro, a saber, “qualquer manipulação da liderança da igreja pelos membros deve ser rejeitada” (p. 33).
Acaba aí a possibilidade de reter-se o que é bom dessa obra. Adiante, o que lemos é uma mistura de assuntos que poderiam ter sido evitados ou melhor explorados. Ou seja, o autor toca de maneira superficial em temas que mereceriam outro momento para a reflexão, talvez outro livro, por exemplo. Então ele faz referência à sexualidade (p. 53), ao lar (p. 63), à música (p. 105) sem nenhum tipo de aprofundamento. Oyekan não esquece de se mostrar ao leitor, de exibir-se a partir dos demônios, ao dizer: “toda vez que ordenamos que eles deixem os oprimidos, eles têm de dobrar os joelhos” (p. 117). É a típica mania de quem se acha superior, a quem não basta expulsar demônios, há que expô-lo ao ridículo, fazer, como vemos em algumas denominações, eles falarem, dizer donde vem e para onde vão. Um exibicionismo desnecessário.
Para finalizar, no último capítulo (pp. 151-156) o autor não resiste à tentação da homogeneização. A começar pelo título, Lista completa sobre o domínio, lemos uma espécie de teste advindos de subtítulos como sintomas de domínio, intimidação, você é dominador ou manipulador? Ora, se Deus é onisciente, onipresente e onipotente e, além disso, multiforme, rasguemos essas páginas ou peçamos desconto no momento da aquisição de um livro assim.
Menos exibicionista é a segunda obra que li. Abuso espiritual: como libertar-se de experiências negativas com a igreja, de Ken Blue[3], tem o mérito de ser mais interessante, de nos cativar mais para a leitura. Possui muito mais relatos do que tentativas de manipular o leitor. A linguagem parece ter mais a ver com o que ouvimos nos templos brasileiros, talvez porque o autor seja norte-americano e nossa teologia, infelizmente, ser uma simples cópia gringa. Mesmo assim podemos reter bastante lições. A primeira vem com uma analogia na qual o fiel, o crente, é como um cliente. Leiamos atentamente:
Certos líderes espirituais exercem gentilmente coerção sobre suas congregações através do uso habilidoso da linguagem da intimidade e da confiança. Essa mesma técnica de manipulação sutil é evidente em restaurantes finos. Os garçons desses restaurantes sáo muito bem treinados no vocabulário e na linguagem corporal da amizade e da familiaridade. Através do uso apropriado de palavras-chave, toques e gestos, o garçom ganha a confiança do freguês. E então, com base na confiança conquistada, manipula o freguês de forma que ele peça o que o restaurante quer vender, e não o que deseja comer. O propósito é extrair do freguês o máximo de dinheiro fazendo-o, ao mesmo tempo, sentir-se querido e cuidado.
Muitos líderes de igreja são habilidosos na linguagem da intimidade e da confiança. Através dela ganham o apoio de seus seguidores e são capazes de levar a igreja como querem. (p. 11)
O bom é que o pastor não se faz de rogado e logo tasca a questão do dinheiro como uma das fontes de abuso/manipulação. Nesse mesmo capítulo, chamado muito bem de Um convite à liberdade, ele propões que suscetíveis ao abuso são “os crentes mais comprometidos”. “O ‘movimento do discipulado’ foi trazendo cada vez mais morte espiritual àqueles que eram espiritualmente vivos” (p.15), afirma citando Berks. Blue une-se a Oyekan mostrando que nem Cristo suportou/aceitou a manipulação farisaica, “por que deveríamos nós deixar por menos?” (p. 16). O autor não deixa passar nem mesmo essa nomenclatura na qual subjaz a perpetuação do poder (bispo, pastor presidente, doutor, reverendo etc), ou seja, o cargo dá visibilidade (p. 18).
Na página 24, Blue, por assim dizermos, ‘pisa na bola’ e deixa implícita a idéia de que pastorear pode ser um grande negócio. Ao contar que um determinado pastor fora acusado publicamente de ter seduzido uma moça e que, em razão disso, fora exonerado do cargo, sem provas, posteriormente sendo comprovadas as mentiras, o autor encerra a questão mostrando que o injustiçado estava “se saindo muito bem vendendo seguros de vida” (p. 24). Lamentável é que não tenha se dado conta de que há uma diferença assustadoramente gritante entre vender seguro de vida e pastorear uma denominação – seja ela qual for. Esta é uma característica da teologia que venho chamando de norte-americanizada: colocar num mesmo pacote a administração de negócios e a administração eclesial. Não deveríamos compactuar com essa idéia; pois é nesse bojo que encontramos obras de escritores cristãos da América (como se eu não fosse do mesmo continente) nas mesmas prateleiras de auto-ajuda, de sucesso empresarial, de como fazer crescer o mercado pós-moderno de indulgências. Não obstante o que acabei de dizer, tem mais ‘luzes’ interessantes na obra que podemos aproveitar.
O que me fez considerar este segundo livro melhor que o primeiro foi a ousadia do autor em dizer muito do que já podíamos inferir e que poucos tiveram a coragem de expor, com algumas minúcias, os podres da instituição. Esta, para manter-se, pouco mede esforço. Seus líderes arranjam palavras, digamos, espiritualizadas para direta ou indiretamente subjugar seus fiéis. “Autoridade espiritual”, “dom de Deus”, “chamada”, “talento especial”, “grande experiência”, “revelação profética” e “ungido do Senhor” são alguns dos epítetos possíveis de se observar no meio evangélico-manipulatório. Para minha surpresa (agradável surpresa, diga-se de passagem) o autor de Abuso espiritual critica Watchman Nee (p. 29) por essa estrutura hierárquica castradora e repressora responsável pelo estrago causado a muita gente. Quantos fiéis receberam penalidades e/ou foram chamados de rebeldes porque ousaram discordar de seus líderes? Lembro-me de já ter sido acusado de insubmisso e rebelde, além disso, havia um pseudolíder que queria, vejam só, ministrar comigo a fim de arrancar, exorcizar o que ele chamou de “espírito de rebelião”. Ainda bem não compareci e nunca comparecerei a uma coisa dessas. Meus demônios, se os tenho, estão em conchavo com os anjos, isto é, se um sair o outro também sai. Não posso deixar de registrar que esse meu ex-líder era leitor voraz de Nee; era Deus no céu e Nee na terra. Realmente, ninguém é perfeito.
Blue não deixa passar em branco essa balela chamada ‘cobertura espiritual’. Incrivelmente, mesmo que Jesus não compartilhe da sua glória com ninguém, há líderes que insistem nessa típica idéia de poder. Assim, o subalterno só pode ir a algum lugar com a (pesudo) benção do líder que tem o poder de cobrir. Nessa mesma idéia, surge o vestir a camiseta. Nalgumas reuniões (cultos) os fiéis são constrangidos a servir sob qualquer custo, sob pena de perderem seus lugares no céu. Ocorre que esses líderes “se assentam na cadeira de Moisés e se posicionam como mediadores entre nós e Deus” (p. 37). Criam estatutos, do tipo faça isso, não faça aquilo (p. 44) e induzem à culpa ao proporem que Deus responde a todas as orações, desde que tenhamos fé e bom desempenho religioso (entendam-se doações, ofertas, dízimos, participação em algum ministério do templo). Acontece, porém, que Deus, soberano que é, pode resolver não atender e isso independentemente de fé. Mas a instituição precisa de regras que a beneficiem, a sustentem.
A genialidade desse sistema é que cada grupo religioso pode projetar seus próprios fardos pesados de modo a satisfazer as suas necessidades. Em um local, o padrão é ofertar dinheiro; em outro, é se revezar como professor de escola dominical; em outro ainda, é participar de comissões. (p.55)
Criam-se fardos, o contrário do que a igreja deveria fazer. Blue acrescenta que
...os pastores têm ensinado a igreja a valorizar as coisas para as quais foram treinados e que eles têm tempo de fazer, como o estudo da Bíblia e a oração. Como são eles mesmos que administram seu tempo, eles podem ir a quantas reuniões de oração quiserem e passar horas estudando as Escrituras. (...)
Existe uma espécie de abuso espiritual que é desumanizante e que na verdade é pior do que o mau uso da lei de Deus. Ele acontece através de apelos que, sem uma definição clara, convidam as pessoas a “viver uma vida de maior profundidade”, a “deixar tudo no altar”, a “render-se”, a “renunciar”e coisas assim. Esse tipo de desafio, quando não é esclarecido nem explicado, nunca dá descanso à nossa consciência. (p. 57/58)
É por essas e outras razões que defendo o labor também aos pastores. Pastores deveriam trabalhar em serviços seculares como uma tentativa de tornar seus sermões mais calcados na realidade. Talvez nossos ouvidos seriam poupados de algumas asneiras. Talvez seríamos menos usados com fins manipulatórios, “sem pressão social e ‘palavras proféticas’” (p. 65). Como diria Larry Crabb, chega de regras. Não mais regras abusivas, que, “para alguns pode ser o uso de terno e [ou] gravata; para outros, jeans e camiseta” (p. 80) e assim por diante.
Tenho a impressão que algumas lideranças acham que não cansam com seus discursos. Pois cansam. E quando isso acontece, o que fazemos? Esse é o tema que toma conta das páginas seguintes de Abuso espiritual. Já na 65 temos uma pista:
Se você não agüenta mais tentar manter seus medos, compulsões e pecados sob controle, a primeira resposta de Jesus não é mais disciplina ou mais memorização das Escrituras, mas sim descanso. Descanso em sua aceitação amorosa e descanso em seu poder.
Deixo claro que o autor não suaviza as críticas às manipulações, aos abusos, simplesmente optei – para não me estender – ir para alguns conselhos que ele, em meio aos desvelamentos, vai nos presenteando. Na sexta parte do livro ele sugere que “se o abuso é menor e ocasional, quem sabe o melhor seria ignorá-los”, mas se, ao contrário, for implacável “e bem-defendido, nós provavelmente precisamos partir.” (p. 99). Em meio aos conselhos, não esquece de algo tão importante quanto denunciar e confrontar o abusador: perdoá-lo (p.102). E a conseqüência posterior ao perdão (ou talvez concomitante) seja afastar-se do lugar, do templo, “para se cuidar” (p. 141), resistindo, inclusive, aos bem-intencionados amigos que nos dão conselhos como se tivessem descoberto a roda. E não sejamos ingênuos, precisamos “de tempo para se recuperar” (p. 141).
Uno-me a Blue para dizer que
...embora não obedeçamos a Deus perfeitamente, Jesus o fez e, aos olhos de Deus, seu sucesso substitui nossa falha. Nós não oramos, amamos, louvamos, perdoamos ou sofremos perfeitamente – mas Jesus, sim, e seu desempenho é creditado a nós. É como se todas as notas dez do boletim dele fossem transferidas para o nosso boletim. (p. 134/135)
O que precisamos é de lideranças que não tenham preocupação com a própria aparência, mas que vivam de maneira simples e franca, que estejam “prontos a aliviar a pressão dos protocolos religiosos quando estes conflitam com as reais necessidades humanas” (p. 146).
Por fim, carecemos de uma teologia da alegria, centrada no amor divino, na graça divina. Sendo sal e luz, trabalhando em prol dessa humanidade com a esperança e os olhos fixos no porvir. Não esquecendo de tornar essa Terra um lugar melhor para se viver, um pedaço do céu.
NOTAS
Ilustração de Peter Kuper para A metamorfose, de Franz Kafka, Conrad Editora do Brasil, 2004.
[1] OYEKAN, Yinka. Manipulação, dominação e controle: desenvolvendo relacionamentos saudáveis. Rio de Janeiro, Danprewan, 2002. Trad. Valeria Lamin Delgado. Título original: Manipulation, domination and control.
[2] 1Tessalonicenses 5.21.
[3] BLUE, Ken. Abuso espiritual: como libertar-se de experiências negativas com a igreja. Trad. Sérgio R. Stancato de Souza. São Paulo: ABU Editora, 2000. Título original: Healing Spiritual Abuse, InterVarsity Press, 1993.
o desejo de ser pai
A Ouvidoria foi o lugar onde mais escutei pais e mães reclamar, criticar, sugerir e discordar das ações daqueles que deveriam educar para a vida. Certa vez, uma pai queria me bater porque eu não tinha exatamente a resposta que ele esperava. Quando pais chegam na Secretaria de um município para reclamar, normalmente estão estressados de tanto já terem reclamado na escola (para a equipe diretiva, bem como para o próprio professor ou professora).
Sinceramente, era lindo ver alguns pais. Se eu pudesse, para alguns, diria "você tá muito calmo". Existem coisas que acontecem numa escola que só Deus não duvida.
Para quem ainda não sabe, comunico que sou casado. E bem casado. Há doze anos. Por que estou dizendo isso? Porque estamos numa fase de querer ter filhos. Nunca imaginamos a falta que uma criança faria. Quando passeamos ou em qualquer lugar que estejamos, parece que a meninada põe-nos lente de aumento. Só enxergamos crianças.
Correndo, pulando, sorrindo, chorando, tentando caminhar, brigando, colocando a língua para estranhos, querendo colo, querendo mamá. Tudo ganha beleza. Até dormindo a criança fica linda. Quando elas falam tudo "errado", acho maravilhoso. Estudando lingüística, em meio aos exemplos de aquisição da linguagem, ficava imaginando a criança falar.
Pois, agora chegou a nossa vez. Muitas vezes, nas nossas conversas, dizemos que queremos uma criança sapeca, arteira, mas saudável. Nos perguntamos: "será mais parecida comigo ou contigo?". A emoção toma conta. Nossos olhos enchem-se de lágrimas ao mesmo tempo em que parece nos dar mais força para batalhar por alguns outros sonhos.
Quando penso num filho, penso em cansar-me de tanto brincar com ele. Penso que gostaria que ele me amasse tanto quanto eu o amarei. Gostaria que ele me visse com um parceiro, um amigo, alguém com quem poderá contar - a qualquer momento. Igualmente, quero que ele não tenha medo de mim, nem me tema; que me respeite assim como se deve respeitar a todos os seres humanos. Acho que ele não precisará concordar sempre comigo nem eu com ele, mas, que saibamos mutuamente nos respeitar e cumprir as possíveis e necessárias combinações.
É nesse ínterim que penso em Deus. Tenho dito nos meus escritos e a quem me pergunta que estou redescobrindo Deus. Por um bom tempo não chamei Deus de Pai. A minha visão de pai era diferente da que possuo atualmente, momento em que pretendo ser um. A parábola do filho pródigo ganhou uma amplitude maior após a leitura que fiz de A volta do filho pródigo, no qual o autor propõe que existem fases da nossa caminhada cristã que têm a ver com essas histórias. A fase de pai pode representar a maturidade espiritual, a maturidade no relacionamento conjugal. A, digamos, fase pai simboliza o doar-se sem espera de recompensa. Sinto-me apto a ser pai.
Pois, retomando, achava que não podia brincar, dar boas risadas, fazer trapalhadas e até traquinagens. Minha visão de Deus era a de um carrasco. Um Deus como o que me apresentaram era ruim e melhor seria não tê-lo. A única justificativa para tê-lo por perto era a consciência de que Ele era melhor que o Diabo. Os tempos mudaram, eu mudei. Minha visão de Deus tem sido outra.
Penso que Ele gosta de rir no céu. Também acho que - profeticamente - os anjos quase desafinam ao ouvir nossas criancices terreais. O que O entristece é a leviandade e a malandragem - a tentativa de passa-lO para trás. Mas o viver a vida intensamente, nesse curto espaço de tempo que possuímos - se comparado a eternidade, parece deixá-lo muito contente. Tenho certeza de que Ele quer que vivamos todas as fases da nossa vida. Sem neurose, sem culpa.
Como filho de alguém que teve um cargo importante na igreja pentecostal, posso afirmar que não pude ser criança. Fui muito mais o filho do fulano do que a criança que todos as outras podiam ser. Enquanto todos podiam fazer estrepolias, se assim agisse desabonaria meu pai. Devia ser o exemplo para dar autoridade ao meu pai. Vejam que horror. Psicologicamente, sublimava fazendo o que muitos crentes fazem ainda hoje: dava o tapa e escondia a mão. Vivia, assim, em dualidade, ou seja, se alguém me visse e comigo não convivesse considerar-me-ia um santo. Caso convivesse, mudaria logo de opinião. E, para encurtar a história, na sexta série fui expulso do colégio. Então comecei mudar.
Quando penso na aguardada paternidade, imagino meu filhote sendo criança, adolescente, jovem e adulto vivendo intensamente todas essas etapas. Quero ser um refúgio para aquela "pessoinha" que terá uma mescla de mim e da Lu. Um refúgio para que ela saiba que haverá proteção. Quero segurá-la até que ela aprenda a caminhar, a andar de bicicleta. Se eu eu tiver algum tipo de autoridade, que seja pela minha conquista e não às custas de uma criança. Espero que, tal como os pais, a criança não viva de aparências, com máscaras.
Nossa idéia é levá-la para passear, mostrar algumas belezas naturais e artísticas para a pequena criança. Pretendemos dialogar muito. Queremos ouvir a frágil voz gritando, tentando dizer o meu nome ou o da Lu. Ficamos imaginando os gestos, as mãozinhas. Ficamos bobos...
Hoje tenho certeza de que Deus se alegra comigo muito mais do que fica triste. Mesmo quando triste, não diminui seu amor por mim - e essa é a melhor notícia: saber que um pai não perde o amor por um filho. Um filho pode até desdenhar os pais, mas estes não fazem o mesmo. Ele não me ama nem demais nem de menos. Ama-me por completo, sabendo que vou cometer muitos erros, que vou desdenhá-lo.
Digo várias vezes pra Lu que a imagino com aquele barrigão. Pretendo conversar com o neném desde os primeiros meses de gestação. Vou me sentir como uma espécie de Deus: o filho ou a filha sairá à nossa imagem e semelhança.
Ouvi uma música lindíssima, de Jesus Adrian Romero, que expressa muito bem esse sentimento. Ela chama-se Me dice que me ama. Leiamos:
Me dice que me ama
Que Deus maravilhoso! Que redescoberta aliviante. Saber que Ele me aceita como sou não tem preço.
O grande desafio no qual me vejo é o de reproduzir na Terra minha função evangélica de pai. Ou seja, ajudar as pessoas tanto quanto for possível, desvendar as mitificações igrejeiras; fazer combinações e, na medida do possível, enfatizar a autonomia cristã de cada um. Não pretendo ensinar a descobrir a roda. A roda já foi descoberta e faz tempo. Quero apenas tentar mostrar, cotidianamente, que há diversos tamanhos. Não vou ensinar ninguém a tomar posse de bênção alguma, nem quero orar determinando a cura de nada, tampouco vou requerer ofertas e dízimos - embora o capitalismo aliado ao Reino seja atraente e, logo, tentador. Quero sempre frizar que existem bênção e existem curas, mas que dependem do querer de Deus, no tempo dEle.
No recreio, a escola fica em polvorosa. As crianças não param um segundo. Brincam de pega-pega, esconde-esconde, 'ovo podre', o famigerado e politicamente incorreto 'atirei o pau no gato' e até o antiguíssimo 'marcha soldado'.
'Marcha soldado' que me fez lembrar, neste instante, de uma composição muito bem feita do grupo carioca Pedro Luis e a Parede (do CD É tudo 1 real, Universal Music, 1999).
Marcha soldado
cabeça no papel
a vida de avião
não vai levar você pro céu
Música de criança tem significado adulto. Bem-aventuradas são as crianças e quão (des)venturados somos nós, às vezes.


