frases que ouço porque saí da Igreja 3 - levi nauter

Levi Nauter
Levi, todas as pessoas que conheço e que fizeram o que tu tá fazendo acabaram montando uma igreja e se deram mal.

[galardão] - texto 12

Levi Nauter


Costuma-se dizer que Deus Nosso Senhor sacia o estômago antes dos olhos; não consigo percebê-lo: meus olhos estão fartos e cansados de tudo, e, contudo, morro de fome. Sören Kierkegaard

A pedra na nossa coroa celestial está garantida. Agora parece que é certo. Houve uma reunião no céu e a liderança decidiu fazer-nos uma espécie de oferta em razão da insalubridade evangélica que, ironicamente, tão de perto nos rodeia. Os mais bem-aventurados são os pertencentes às denominações pentecostais e neo-pentecostais, tendo em vista terem sido muitas vezes engodados pelos chamados 'homens de deus'. Segundo um ministro (no céu também é utilizada essa nomenclatura politicamente correta, em que pese pouco dizer do ocupante do cargo) redator da ata, os que se enveredaram para os mini ministérios também estão neste rol de agraciados. Também não ficou de fora aquele rebelde, insubmisso, chamado por alguns de desviado, cuja opção foi não pertencer a uma placa denominacional. Ufa! Fui salvo. Note-se a misericórdia divina.

A reunião celestial foi às pressas, uma correria. Os preparativos para "As Bodas" tiveram de ser suspensos devido a falta de colaboradores - no céu, como na terra, anjo não é empregado de ninguém. Para quem não sabe, "As Bodas" é uma espécie de Oscar, para ficar com um exemplo de um lugar que se diz cristão; ou Copa do Mundo, para ficar com um exemplo que respeita bem mais as diferenças. Particularmente prefiro a Copa, nela a possibilidade de encontrar-se oprimidos é bem maior. Pois, a reunião extraordinária não foi assim como nalgumas Convenções pentecostais: com muito barulho e pouca ação efetiva depois do eco. Não. Lá a coisa parece ser mais dinâmica, foram direto ao ponto: ser cristão-evangélico está tão difícil que a membresia merece um prêmio - acrescente-se menção honrosa aos que optaram, como eu, por sair da instituição e viver a verdadeira liberdade cristã.
O galardão será distribuído segundo a opressão sofrida por cada fiel. E não está ligado necessariamente ao que se fez de visível, senão ao íntimo do coração de cada um. Sinto muito, mas o anjo redator deixou claro que todos, sem exceção, receberão uma placa de ouro maciço com o seguinte dizer em ouro branco:
"Sejam bem-vindos, vós que viestes da GRANDE TRIBULAÇÃO GOSPEL"

Sim, você leu corretamente. Todos nós cristãos receberemos um epíteto: "os que vieram da grande tribulação GOSPEL". Logo explico. O anjo não deu grandes detalhes, disse-me apenas que há uma apreensão e uma leve tensão para que Cristo volte a esta Terra. Porém, o mais estarrecedor é que a volta não será em função da proliferação incomum da pecaminosidade, da iniqüidade, da concupiscência. Será, sobretudo, por causa da instituição Igreja. Ou seja, a razão do Apocalipse dever-se-á muito mais aos chamados co-irmãos do que aos servos do inimigo. Quem diria? Nessas alturas, bem-aventurados são os mortos porque não estão ouvindo nem vendo o que nós, os vivos, temos escutado e visto.
Gostaria muito de ter falado mais calmamente com o agente divino. Infelizmente a agenda do Além não foge muito ao nosso modelo. Talvez nisso tenham razão os defensores de que o nosso mundo terreal é reflexo do mundo espiritual. Espero que isso não seja cem por cento real, afinal, o mundo terreal está explodindo. O anjo resumiu o que pôde, não lançou mão de parábolas porque hoje estamos muito mais acostumado com mensagens-receita - aquelas do tipo "como tomar posse da bênção", "receitas para viver melhor" e assim por diante. Também não quis dar ênfase ao famigerado inimigo, o diabo, o satanás, o coisa-ruim. E num ímpeto, meio raivoso, meio irônico, disse que na burocracia evangélica há ministérios e/ou departamentos específicos para cuidar dessa área, gente, no dizer angelical, que já entrevistou os camaradas do mau, sabe até nomes, características indumentárias, além de quase já terem uma espécie de mapa astral dos referidos.

Então, do inimigo não falemos. Resta-nos a "Grande Tribulação Gospel" (que indicarei como GTG).
E aí é que está, a GTG é como o diabo, mostra-se como um anjo de luz, como se fosse bela, criativa e sensualmente atraente. É exatamente com e por essas características que ela atrai adeptos. Ninguém iria atrás de alguém com cara de desencanto, de monstro ou sabidamente mentiroso. Ela não ruge como o leão, na pós-modernidade há maneiras mais inteligentes de atração. Por isso veste-se e lança mão de gravadoras, editoras, jornais, CDs e DVDs de pregação. Ou seja, busca ganhar-nos a partir de discursos - no sentido lingüístico da palavra.
A GTG é diabólica porque engoda-nos, ilude-nos e, em razão disso, não resolve nossos problemas. Acaba por deixar muitos de nós em depressão, achando-se por baixo, imaginando que Deus possa ser um estraga-prazer. Tal como a serpente no paraíso e como o tentador de Cristo no deserto, a GTG distorce os escritos bíblicos.
Como isso acontece? O agente divino foi legal comigo, não me arrebatou - como outros privilegiados ou azarados que puderam escrever uma divina revelação do céu e do inferno -, apenas foi mostrando-me, digamos, de maneira mais prática.
As ditas mensagens ou preleções proferidas pelos pastores, bispos etc, são muitas vezes uma afronta à capacidade humana de raciocínio. Superficiais, elas massageiam o ego dos gogós-liderança que, a cada dia, aumentam suas contas bancárias. Suas mensagens são do tipo receita, parecem-se com os livros de auto-ajuda: "se você quer vitória, ore assim"; ou, se você quer vencer a tentação, faça esses 'dez passos'. E acaba que a vida segue com suas complexidades e a membresia tateia buscando praticar os delírios do homem de deus. Muitos destes parecem que não vivem neste mundo, devem ser ETs, tal é prepotência com que se dirigem aos ouvintes sem incluirem-se como pecadores, como propensos a errar tanto quanto a membresia ou leigos. Com essa aura, saem a sermonar por todos os cantos e a utilizarem-se do poder midiático. Assim, gravam CDs, DVDs e publicam livros com mensagens. Se dão entrevistas a importantes canais de televisão, também gravam e vendem. Tudo é motivo de venda. Tenho a impressão que quase a totalidade desses pastores midiáticos é que merecem o título de "vendedores pitt bull". Não têm nenhum constrangimento de dizer: "esse livro deveria custar R$ 100,00, mas, como é pra Deus, estamos fazendo uma promoção e ele custará R$ 99,90". E não têm nenhum pudor ao dizer que o tal livro "poderá mudar o curso da história da sua vida".
Contudo, a venda ainda é democrática, afinal, compra quem quer ou pode. O engodo maior está no pedido de dinheiro sistematizado; para esse fim, criam-se nomenclaturas próprias e até criativas: colaborador fiel, patrocinador, evangelizador, entre outras. Alguns desses provocadores da GTG anunciam a recompensa: todos os que contribuirem (R$) receberão uma bênção especial de Deus, desde que enviem um fax comprovando o pagamento. Mas notem o detalhe: a bênção é por conta de Deus, ou seja, se Deus não abençoar a culpa ou é do próprio Dono da Obra ou do contribuidor que, pobre e coitado, não tem fé. O anjo, como eu, acha isso deplorável.
Deplorável porque é uma falta de vergonha. Isso é um assalto, isso é pecado, isso é diabólico. Um determinado ministério, dono de empresas de comunicação, sem nenhuma consciência ética sai cobrando por tudo e pedindo dinheiro como se isso desse em árvore. Uma dessas emissoras, passa, aos domingos, um programa no qual os cantores de seu casting deleitam-se numa churrascaria. Quantos dos patrocinadores vivem essa mesma vida? Quantos desavisados deixam de fazer o seu próprio churrasco e, no entanto, assistem os homens de deus 'mandando ver numa picanha'? Concordo com o anjo, nossa diferença é que ele mora lá e eu cá.
Há uma superficialidade no meio gospel, no meio evangélico. A melhor coisa que podemos fazer é não ligar o rádio nem a televisão. As mensagens são como 'tapinhas nas costas' das pessoas, embalados por músicas, em sua maioria, superficiais, que só cantam vitórias. Ouvindo essas músicas que estão 'na onda' nos apequenamos intelectualmente, elas dizem apenas "como Deus é bom", "você vai vencer ou vencer" ou como a famigerada "tá chorando? Louve".
Foi pauta no céu esse superficialismo e esse afã pelo dinheiro. Não há justificativa plausível - a não ser o fortalecimento do capital e não do evangelho - para esse comércio desmedido. As músicas já não cantam nossa realidade, apenas traduzem a realidade de outros países. Paradoxalmente as composições nacionais mais parecem terem sido feitas com o imaginário dessas traduções que nos chegam. Estamos perdendo a identidade cristã nacional, se é que algum dia a tivemos. Nossos ritmos (ricos), nosso linguajar, nossa gramática, nossa cosmovisão, nossa identidade está esvaindo-se. Não sabemos mais quem somos. O resultado é que esperamos um lançamento musical no exterior para traduzí-lo (muitas vezes uma má tradução) e cantar como se fosse nosso, como se pertencesse ao nosso contexto. Faz tempo que nossa música não é profética. O anjo, preciso registrar, está querendo levar alguns bons CDs brasileiros. Ele gostou da Maria Rita, dos clássicos Chico Buarque, Caetano, Tom Jobim, Elis e até, pasmem, Rita Ribeiro.
Os livros estão tomando o mesmo rumo de publicações seculares: Je$u$, um bom negócio. É uma raridade encontrar obras com profundidade teológica, com conteúdo típico da experiência com Deus. O que vemos nas prateleiras é o mesmo que encontramos em grandes magazines, isto é, livros-receita. Como ter sucesso no empreendedorismo gospel, como saltar de 10 para 10.000 membros. Como montar uma equipe de louvor, como lotar a escola dominical. Como ter sucesso, como se relacionar bem com as pessoas. Esses são os temas tratados. E quando queremos algo mais, encontramos obras que dizem pouco e dão aparência de profundidade. É o caso de obra com títulos do tipo "como derrotar o devorador". O anjo não se conteve, chegou bem perto do meu ouvido e lascou: "vá ler Machado, Drummond, Adélia, Scliar, João Ubaldo, Paulo Lins. Vocês têm tanta gente boa!". Eu acho que ele tem razão.
E as Bíblias? O que são essas Bíblias? Não estou me referindo, claro, às diferentes importantes e necessárias versões disponíveis. Falo, por indicação do mensageiro e 'ateiro', daquelas que inserem estudos: da mulher, do jovem, do homem, do ministro, vida espiritual, apologética, vida financeira e todas as que ainda virão. Vivemos um festival, quem dá mais? O anjo me confidenciou que prefere aquela simples, sem nome de denominação que, inclusive, e é mais barata. Não possui nenhum tipo de estudo, essa Bíblia é a melhor. Com ela é possível ter fome e sede. Ela permite a aventura.

Nesse momento de superficialidades, o melhor é optar por aventuras com Deus sem a instituição. A instituição quer ter lucro porque precisa sustentar-se. Para manter sua estrutura carece de grana. E não há nada de errado nisso, o erro está em não ter limites éticos e até morais na busca dessa necessidade; o erro está na perseguição de sonhos alheios aos interesses da membresia - até porque elas nem têm voz. Sim, a membresia não tem voz. Não há um momento para o contraditório na programação eclesial. Cabe aos integrantes da denominação ouvir o sermão, internalizá-lo e orar pelo ungido. Se algum indivíduo tiver dúvidas? "Leia a Bíblia e era isso". Já li num documento de uma instituição: "o discípulo obedece mesmo sem entender o que está fazendo porque sabe que é pra Deus". Não consigo concordar com essa tese. Deus, até onde sei, não tem vocação para ditador.
A aventura com Deus é muito melhor que as regras institucionais. Nela, não temos ninguém dizendo-nos "faça isso, não faça aquilo", "isso pode, aquilo não". Somente nessa aventura é que nos tornamos realmente autônomos da fé. Apenas na aventura vivemos a dita novidade de vida e a verdadeira liberdade. O costume nos faz considerar que é bom ser guiado por alguém que se diz apto para ser nosso guia e, assim, não vivemos a liberdade cristã, simplesmente porque não existe liberdade vigiada. Liberdade com a possibilidade de sermos repreendidos por usá-la como bem entendermos é falácia. E isso nada tem a ver com responsabilidade, que precede a liberdade.
Nesse novo caminho, somos efetivamente dependentes de Deus e Ele não nos responde como queremos. Sua vontade, na aventura, é soberana. Não existe EU com prestígio, isto é, aqueles líderes que adoram o "eu declaro", "eu determino", "eu abençoo". Na aventura que defendo não há receitas. Nela, o Cristo Salvador se apresenta em Sua multiformidade na medida em que vamos trilhando os caminhos da graça, enquanto saboreamos e percorremos os corredores, ruas e ruelas, às vezes íngremes, de sua Palavra. E parece não haver melhor jeito do que fazer esse exercício com curiosidade, humildade, com prontidão, sem pressa, vivendo intensamente cada momento, cada passo. A vivência vai tomando corpo, tornando-nos mais exigentes, as palavras vão adquirindo mais substantividade, o que antes nos satisfazia vai como que perdendo sabor para dar lugar a novas combinações. Nossa inteligência, dada por Deus, começa a ser exigida, turbinada e, numa espécie de explosão de graça e bondade divinas, de maneira que vamos nos tornando produtores de saberes. Mas a produção não pára em nós, com gemidos inexprimíveis pede para sair, ser compartilhada.
Nessa mesma aventura ocorre algo impensado: tornamos-nos sensíveis. Cria-se, paulatinamente, uma teologia do sensível, que não deve ser confundida com melindres. Tal acontecimento faz-nos ver Deus em lugares inesperados. Esses lugares inesperados acabam por nos mostrar que acreditávamos em falácias do tipo 'quem não louva a Deus louva ao Diabo'. A teologia do sensível aprimora nosso amor e, em conseqüência, vai lançando fora a teologia do medo. A sensibilidade mostra-nos, então, Deus em mais coisas e não apenas nos elementos sagrados. Assim é que podemos descobrir Deus em muitas músicas do universo secular-folclórico brasileiro, nas artes em geral e em toda a criação. A falta de contraponto em meio às preleções evangélicas são facilmente encontradas na famosa MPB. Por exemplo, quando cantamos "Paraíba masculina mulher macho, sim, senhor" podemos ampliar a reflexão e chegar nalguns questionamentos: por que muitos homens acham que têm de oprimir a mulher? Por que a igreja-instituição, ao longo da história, perpetua essa opressão? Porque poucas mulheres reclamam?
A aventura com Deus é infinitamente mais salutar que a dependência (quase química) de um líder religioso. Porém, a aventura não dá mídia; tudo sofre, tudo crê. É nela que podemos dizer "grandes coisas fez o Senhor por nós" ou "até aqui nos ajudou o Senhor". A aventura cristã não fica quantificando pessoas nem eventos (50 pessoas se converteram, realizamos 3 encontros). A aventura não nos estressa, a dependência sim.
É por essas e outras que o nosso galardão, agora, está garantido. Ainda bem que Deus é bom!

Frases que ouço porque decidi sair da Igreja - 2

Levi Nauter
- Você tá congregando?
- Sim, em casa. Converso com bastante pessoas durante a semana. Mas o templo é pós-moderno. É via web.
- Ótimo! Mas, escute aqui...
- Pode falar.
- Vocês tão dizimando?

[teologia existencial] - Ricardo Gondim



Ricardo Gondim é um pastor, pensador, teólogo a quem muito admiro. Sua ousadia e coragem tem sido uma inspiração para as minhas reflexões e ações cotidianas, aquelas que ninguém vê, exceto Deus, claro. Não busco nenhum palco, nenhum púlpito. Meu pregar precisa ser minha vida, meu testemunho tem de ser minhas coerências. Tenho sido impactado por Deus, a partir da sua infinita misericórdia e mesmo não estando institucionalmente filiado a nenhuma denominação - o que não deverá acontecer tão cedo.


Pois, transcrevo, a seguir, um texto maravilhoso que diz muito bem o que penso - e já não é de hoje.




Por anos, não me dei conta de que agi como um religioso obstinado. Hoje lamento ter sido um inquisitorial que defendeu a “verdadeira doutrina”; renego ter me sentado na cadeira do fariseu intolerante que espezinhou pessoas simples; choro porque já calei diante de desmandos de gente “famosa” só para continuar bem quisto; tenho vergonha de já ter envernizado minha fala para angariar simpatias de um clero que hoje desdenho.


Para surpresa dos fundamentalistas, mas para alegria dos meus familiares, mudei bastante nos últimos anos. Adianto: não estou nem um tiquinho preocupado em ser bem falado pelos puritanos que tentam ressuscitar a ética vitoriana; não perderei meu sono com os que se escandalizam com meus textos pessimistas. Aliás, aconselho os piedosos que não visitem mais meu site, pois vou continuar escrevendo textos bem sombrios.
Amiga leitora, você não imagina como eu ri quando recebi mensagens eletrônicas de crentes escandalizados com meu arrebatamento profano. Lembra aquela noite quando me deliciei com a cananéia Mercedes Sosa?, foi aquele.


Minha nova teologia não é nova e nem é minha. Ela vem sendo vivenciada por teólogos latino-americanos que se distanciaram do cânon oficial – gente da estirpe de Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, René Padilla, Orlando Costas, Leonardo Boff e Jung Mo Sung. As coisas degringolaram de vez quando me apresentaram Brian McLaren, Rob Bell e os malucos da “Emergent Church”. Realmente, não consigo gostar dos livros do Max Lucado e não me sinto tentado a organizar minha igreja com os “propósitos” do Rick Warren.


Minha nova teologia carrega o anseio da liberdade. Aceito que sou um romântico desvairado sempre empolgado com essa palavra tão complicada. Eis o motivo porque concordo com Karl Rahner que “a liberdade é sempre mediada pela realidade concreta do espaço e tempo, pela corporalidade e pela história do homem”[1].


Assino em baixo com Jürgen Moltmann quando ele diz que “liberdade é um movimento criador". Vibro quando ele afirma que: “Aquele que em pensamentos, palavras e ações transcende o presente em direção ao futuro, este é que é livre. O futuro é para ser entendido como o espaço livre para liberdade criadora”[2].
Não tenho como negar meu apreço por Paul Tillich e por seu conceito de liberdade como fundante do destino – “A liberdade é experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade... Á luz dessa análise de liberdade, torna-se compreensível o sentido de destino”[3].


Gosto das articulações de Jonathan Sacks quando ele afirma que o conceito de liberdade forma o alicerce do vínculo pactual entre Deus e o homem:
O conceito de um vínculo pactual entre Deus e o homem é revolucionário e não tem paralelo em nenhum outro sistema de pensamento. Para os antigos, o homem estava à mercê de forças impessoais que tinham que ser aplacadas... no humanismo secular, o homem está sozinho num universo cego às suas esperanças e surdo às suas preces. Todas estas visões são coerentes, e cada uma tem seus adeptos. Mas somente no judaísmo encontramos a asserção de que, apesar da sua completa disparidade, Deus e o homem se encontram como “parceiros no trabalho da Criação”. Não conheço nenhuma outra visão que confira ao ser humano tamanha dignidade e responsabilidade “[4].


Minha nova teologia tem como ponto de partida não a teoria, mas a vida com suas ambigüidades e paradoxos. Não parto de premissas teóricas do arrazoamento “científico” da verdade; não me encanto com devaneios conceituais do mundo do "andar de cima"; quero trabalhar com a revelação da história onde ponho os meus pés. Quero perceber o amor de Deus no decorrer da vida com tudo o que ela apresenta de bom e de ruim.
Não pretendo interpretar o mundo, só quero modificá-lo para que nele se antecipe o Reino de Deus. Faço minhas as palavras de Moltmann em sua análise da Teologia da Libertação:
“Ao contrário das teologias metafísicas, transcendentalistas ou personalistas, a Teologia da Libertação começa com a história como palco da manifestação de Deus e do encontro do homem com Deus. Com isto ela se liga às tradições bíblicas da história de Israel e da história de Cristo... “[5].


Nesse chão hermenêutico faço minha nova teologia, procurando criar práxis que desmonte estruturas injustas, opressoras e alienantes. Sem desmerecer a ortodoxia, procuro muito mais realizar ações transformadoras da realidades, do que tentar vingar minha exatidão conceitual – “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” João 13.35.
Minha nova teologia é a antiga “teologia da esperança”. Acho que foi por isso que vibrei tanto com Carlos Mesters quando me ensinou que o relacionamento de Deus com seu povo é um apelo ao dinamismo e não à resignação:
A presença de Deus na vida era percebida [no relato bíblico], antes de tudo, como apelo, como dinamismo, como futuro, que atraía e chamava o povo a ultrapassar-se, não permitindo que se acomodasse na estrada. A frase tantas vezes repetida: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo (Ex 6.7), fazia saber que o relacionamento com Deus no presente era apenas uma amostra-grátis daquilo que ele seria no futuro. A outra frase, igualmente freqüente despertava o povo a nunca contentar-se com o que já possuía, e a aprofundar onde estava escondido o germe de toda liberdade. Com outras palavras, a presença de Deus era percebida e vivida como o fundamento da esperança que os animava e os fazia caminhar. Ela era uma força que dinamizava a vida para a frente, levando o povo a conquistar-se e a conquistar o futuro que ele entrevia no contacto com esse Deus[6].


Minha nova teologia não se restringe em preparar gente para ir para o céu, quero aprender experimentar, aqui e agora, a vida em abundância que Jesus prometeu.
Por fim, acho que minha nova teologia tem uma pitada de existencialismo – não sei se Kierkegaard gostaria de saber disso - porque acredito que o Reino de Deus já está entre nós; peço que Ele me dê olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para sentir esta realidade.



Soli Deo Gloria.





[1] Rahner, Karl – Curso Fundamental de Fé – Edições Paulinas, 1989, p. 53.
[2] Moltmann, Jürgen – O Espírito da Vida. Editora Vozes, 1999, p. 118.
[3] Tillich, Paul – Teologia Sistemática, Editora Sinodal, 2005, p.193.
[4] Sacks, Jonathan – Uma Letra da Torá – Editora Sêfer, 2002, p. 109.
[5] Moltamann, Jürgen – O Espírito da Vida – Editora Vozes, 1999, p.111.
[6] Mesters, Carlos – Por Detrás das Palavras – Editora Vozes, 1999, p. 113.


FONTE:
http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=61&sg=0&id=1460



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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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