leia um bom conselho - levi nauter

Levi Nauter
Retomei as sempre ótimas leituras de Gondim. Pois ele está escrevendo uma série de textos intitulados "Mentoria". O último texto vem a calhar exatamente com o que penso sobre a intelectualidade e, por isso, resolvi postá-lo. Os outros podem ser lidos no seu site: www.ricardogondim.com.br.
Falemos de literatura, uma área em que sou leigo, mas um apaixonado. Naquela conversa, eu já havia dito que adoro livros (aliás, muito obrigado pelos antigões que você me deu de presente). Portanto, meu primeiro conselho é simples: leia. Faça da leitura primeiramente uma disciplina; só depois de um tempo de trabalho árduo, você vai gostar e desfrutar de um bom livro.
A mesma regra que aplico na música, uso na literatura. Para mim não existem livros cristãos e livros seculares, apenas livros bons e ruins. Um Dostoievski é bem mais espiritual e teológico do que muitos manuais pragmáticos que os crentes americanos empurram aqui como literatura cristã.

Leia diversificadamente. Biografias, hagiografias, romances, poemas, novelas, contos, tratados filosóficos, teológicos, sociológicos, história universal, história da arte, história das religiões, história da Reforma, história dos jesuítas, tudo me fascina e de tudo tenho sede de saber um pouco mais. Às vezes vou a uma livraria e tenho vontade de sentar-me numa daquelas poltronas e nunca mais sair até que consiga comer cada palavra escondida nos tomos – as paredes do céu estarão recobertas de estantes entupidas de livros.

Leia sempre com uma caneta ou um marcador na mão. Eu posto no meu site frases parágrafos e pequenos textos que me chamaram a atenção. Vou revelar um segredo. Decidi que não postaria no site nada que copiasse da internet ou de livros de citações. Meus livros são rabiscados e sublinhados para que eu me lembre mais tarde do que me chamou a atenção. É verdade, a leitura fica demorada, mas é muito mais produtiva.

O mundo evangélico tem se mostrado bem superficial. Sabe a sensação que tenho quando escuto um pregador americano? "Quem ouviu um, ouviu todos”. A perda dos conteúdos, o empobrecimento da linguagem, a repetição enfadonha dos mesmos argumentos, vem da falta de leitura. A maioria deles lê apenas os seus pares; muitos morrem de medo de se exporem aos questionamentos de “ateus”; quase todos se contentam em “solidificar” o que já sabem. Resultado: o mundo gospel se restringe ao que os gerentes de marketing das editoras decidem como material “bom”. Pergunto a mim mesmo, muitas vezes: “Qual será o futuro de uma geração que forja sua esperança nos livros do Tim LaHaye?”.

Richard Dawkins causou grande alvoroço com um livro que pretendia combater a religião. Acredito que motivado pelo 11 de setembro Dawkins acusa a religião de fomentar intolerância. Porém, quando trata do cristianismo, ele sequer considera os teólogos de peso acadêmico, como Paul Tillich ou Dietrich Bonhoeffer. Dawkins se contenta em bater nas teologias ralas, comercialmente adaptadas, que a mídia popularizou nos Estados Unidos e que nós consumimos acriticamente no Terceiro Mundo. Cheguei a concordar com Dawkins em muitos pontos do seu livro, mesmo divergindo radicalmente de seu ateísmo militante.

Considero que as elaborações teológicas dos evangélicos se descolaram da realidade por falta de leitura. Quando ouço um desses apóstolos alardear que sua oração é “poderosa”, sei que ele é uma alienado. Tenho vontade de convidar essa gente a dar plantão na clínica de reabilitação e fisioterapia que ladeia o meu mestrado. Vejo as ambulâncias trazendo crianças deficientes, muitas carregadas nos braços das mães devido aos espasmos involuntários causados pelas síndromes e nessas horas questiono: “se eles têm tanto poder e são tão santos, não deveriam exercitar a fé deles (a cacofonia é proposital) aqui?”.

Portanto, leia, leia, leia. Permita-me sugerir. Nos romances, devore: tudo de Dostoievski e Tolstoi; “O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas; “Os Miseráveis” de Victor Hugo; “O Vermelho e o Negro” de Stendhal; “A Relíquia” de Eça de Queiroz; “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis; “O Quinze” de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas” de Graciliano Ramos; “O Eleito” de Thomas Mann; “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago; “Paula” de Isabel Allende.

Não esqueça da poesia. Fernando Pessoa, com todos os seus heteronômios; Pablo Neruda; Jorge Luis Borges; Vinicius de Moraes (sou apaixonado por sua prosa poética); Carlos Drummond; Clarice Lispector; Mario Quintana. Familiarize-se com o Rubem Alves em suas duas fases. Ele é ao mesmo tempo um teólogo brilhante e um poeta brincalhão; bata os dois no liquidificador e depois beba o sumo de sua teopoética, tão magistral.

Aprenda a apreciar música com letras ricas em nuances de aliteração, rimas e metáforas - Chico Buarque, Djavan e Caetano Veloso são craques.
Com esse fundamento literário, faça a sua teologia, construa a sua percepção. Leia a Bíblia com os olhos de um cidadão do mundo que percebe as angústias, paradoxos e desesperos da humanidade. Quando estudar os clássicos da teologia, sinta-se com liberdade de questionar os seus pressupostos. Para não enrijecer dentro de uma dogmática intolerante, coloque a vida, a riqueza da arte e beleza da criatividade no seu estudo. Não permita que a sua teologia fique presa na torre de marfim dos sectários.

Espero estar ajudando.

Soli Deo Gloria.
Esse conselho serve a cada um de nós. Leiamos!

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Maria Flor

Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


"Viver é escolher, é arriscar-se a enganar, aceitar o risco de ser culpado, de cometer erros" [Paul Tournier]

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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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  • textos sobre EDUCAÇÃO (livros, revistas, artigos)
  • PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS PERFEITAS, de John Burke
  • OS DESAFIOS DA ESCRITA, de Roger Chartier