[política e profecia] - texto 9


Levi Nauter









A vida inegavelmente é um ato político. Estar vivo, sobreviver e/ou tomar decisões ratificam esse ato. Quando Cristo disse a Zaqueu para que descesse da árvore, estava praticando um ato político. O grifo na frase "hoje me convém pousar em tua casa" representa o ápice da política das relações interpessoais. Significa dizer, como pode-se inferir, que existem duas políticas, a interpessoal e a sócio-institucional. A primeira faz parte de todas as nossas vivências e, a meu ver, é impossível dela se livrar; a segunda, faz parte das instituições, digamos, legalizadas e tem ligação direta ou indireta com partidos políticos.


Há quem não goste que se diga que Cristo teve atitudes políticas. Eu, ao contrário, considero que sim, na medida em que ele tomou forma humana. Embora não tendo pecado, sendo humano exerceu, sim, a política interpessoal - e bem, por sinal. Isso denota que política não é pecado. Pecado, talvez, seja negá-la, ignorá-la. Pecado é alguém ou uma liderança utilizar-se da política e não permitir que seus subalternos façam o mesmo, como ocorre, por sinal, na Igreja Deus é Amor. O missionário David M. Miranda diz claramente em seus discursos que política é pecado. Consciente ou inconscientemente, perpetua-se a idéia de que a história do mundo está pronta, dada e 'imexível'. Nós fazemos esse mundo, temos autoridade divina para isso, e essa construção se dá com políticas. Cristo foi perfeito em fazer essa demonstração. Inclusive dando-nos uma boa lição, a da morte, isto é, envolver-se em política (interpessoal ou institucional) pode implicar ter que morrer (denotativa e conotativamente).


A primeira acepção de política tem a ver com as decisões que tomamos para a nossa sobrevivência cotidiana, individual (e coletiva, desde que não institucional). Quando vamos emitir uma opinião sobre alguém ou algo, refletimos - antes ou durante - sobre as conseqüências que poderão advir. Às vezes, notamos que alguém não está vestido tão adequadamente como achamos que deveria. A reflexão 'falo ou não falo?' é política porque dela poderá surgir implicações tanto no presente como no futuro. Saber portar-se, vestir-se e/ou falar, além de fazer-se alguma coisa adequadamente requer uma decisão; por isso política.

A segunda acepção, que chamei de sócio-institucional, é mais conhecida como política-partidária. Mais conhecida ou pode estar a ela agregada. Isso porque, não podemos perder de vista, a instituição é sempre formalizada (ou tem peso formal perante uma determinada sociedade). Se, por um lado, pensarmos num partido político, por exemplo, vamos notar sua institucionalização e seu peso perante a sociedade. Mais que isso, neste exemplo, também observamos uma ideologia, uma cosmovisão com propósitos a serem alcançados. Contudo, por outro lado, se pensarmos numa igreja-instituição (entenda-se, portanto, uma denominação formalizada, com CNPJ) não iremos fugir da regra: possui peso/relevância para alguns da sociedade, possuem ideologias e cosmovisões diversas a respeito de suas teologias, possuem propósitos a conquistar. Nessa segunda acepção, podemos levantar a questão da associação igreja-instituição-política, ou, habitualmente chamado, Igreja X Estado. A história tem registrado as conseqüências, basta pesquisar.


Talvez seja tolice imaginar que um cristão não se envolve com a política mais formalizada, a política-partidária. É humano, natural e até necessário o conhecimento do maior número possível de cosmovisões, de teorias, de idéias e de projetos que vêm construindo nossa moral e ética. Essa é a razão (ou uma das) pela qual vemos muitos chamados irmãos em Cristo exercendo seu papel justo, legal, de um cidadão terreno que visa o céu. O que falta, com base em observações, é o respeito entre as diversas cosmovisões. Os esquerdistas criticam os direitistas, que não se denominam assim pois se acham liberais. Alguns esquerdistas vesgamente não enxergam os próprios erros e, ainda por cima, consideram-se mais socialistas. E assim segue uma ladainha que pouco beneficia a grande massa que não tem nenhuma bandeira oficial, embora, obviamente, pendam para algum lado, ainda que não saibam ou não queiram envolver-se. Afinal, não há neutralidade. O que existe são pessoas que, ao não tomarem posição, fortalecem o poder. Quem não deseja isso tem que se posicionar. Ter uma posição político-partidária é importante. Assumí-las também. Não é proveitoso o desrespeito com quem pensa diferente, a partir do desmerecimento e não da discordância.


Em meu caso, não sou filiado a nenhum partido político. E quanto mais olho para esse cenário, mais vejo que longe dele devo estar. Não obstante, esse passar de largo não poderá tornar-se acrítico, ao contrário, deve ser crítico. E, se crítico, para ambos os lados.


E esta tem sido minha defesa, porque não sou fatalista: o cristão deveria estar como que acima da política-partidária para, assim, ter voz profética. A meu ver, uma voz profética não pode estar comprometida com algum lado, beneficiando esta ou aquela visão, senão ser superior, independente. Se a profecia for tendenciosa o que teremos não será palavra profética, mas, sim, politicagem (entendida por mim como um arranjo a fim de adequar-se de acordo com certas conveniências). Política e politicagem funcionam; política e profecia, acho que não.


E, com esse pensamento, encerro dizendo que, tanto em nosso estado como em nível federal, estamos vendo/tendo péssimos exemplos de política e politicagens. Eventualmente alguma coisa presta. Onde estarão os profetas?









ILUSTRAÇÃO de Percy Deane para "Memórias do Cárcere, vol. 1", do maravilhoso Graciliano Ramos, 17. ed., São Paulo: Record, 1984.

[manipulação, dominação, controle e abuso espiritual] - resenha




Levi Nauter





A maior ameaça à igreja hoje não vem de fora, mas de dentro de nossa própria liderança.
Philip Keller




Imagino que, em pleno Século XXI, todos sabem que é possível e, por vezes, há manipulação, dominação, controle e abuso espiritual nas igrejas (estamos falando de instituição, sem descartar a ocorrência no corpo) - não necessariamente nessa ordem. Esse mal é facilmente detectado nas mais diversas denominações, a partir dos discursos de seus líderes. Uma característica que deveríamos começar a observar são lideranças que dizem, sem nenhum pudor, “eu te abençôo”, “eu libero perdão”, eu isso, eu aquilo. Cristo parece estar, obrigatoriamente, encarnado em homens que têm se intitulado apóstolos, reverendos, bispos, semi-deuses, sub-espírito santo – alguma coisa do tipo nem tão acima de Deus nem tão pra perto do diabo. Essa gente anda dominando crentes. Graças a esse pessoal, vemos pessoas com menos poder de crítica e/ou análise sendo engodadas e repetindo: “mas o irmão fulano falou; ele é um homem de Deus”. Incrivelmente esse mesmo pessoal está mais preocupado em encher templos, arrecadar muito dinheiro, enriquecer e montar programas de entretenimento gospel (grupos de dança, grupos de teatro, grupos de ação social, camisetas, canecas, agendas e todo tipo de parafernália que, ao mesmo tempo, perpetue a ideologia e traga rendimentos financeiros).
Esse foi o tema de dois livros que li nos saudosos dias de férias. Minha tentativa, a seguir, será resenhá-los.
A primeira obra, Manipulação, dominação e controle, de Yinka Oyekan[1], foi difícil de ser lida. Difícil porque o autor edimbuguense possivelmente lê autores que gostam de receitar. Partindo do princípio que nossas vivências e leituras vão formando-nos, justifica-se essa característica ao longo das páginas. O que, para meu gosto, é, no mínimo, desestimulante. Contudo, tenho tentado seguir o conselho do apóstolo (esse sim) São Paulo: “retenha o que é bom”[2]. Nessa linha de pensamento é que foi possível descobrir algumas interessantes recomendações anti manipulação.
O prefácio é um incentivo à leitura. Colin Urquhar, a uma certa altura, registra que

Um dos maiores empecilhos para o cumprimento do propósito de Deus em Sua igreja é a relação de manipulação, domínio e controle que existe entre muitos cristãos. Às vezes, líderes dominam e controlam suas congregações em vez de liderá-las com ouvidos sensíveis à voz do Espírito. Outras, membros enérgicos manipulam seus líderes valendo-se de uma espécie de chantagem espiritual.

Pode ser uma obviedade, mas é sempre bom vê-la grafada.
Oyekan inicia de maneira contundente, afirma, sem rodeios, que “Assenhorar-se de outra pessoa é... uma tentativa de estender nossa esfera de domínio além do que Deus originalmente determinou” (p. 13). Ocorre que o poder corrompe e a tentativa de perpetuá-lo cega os limites do aceitável. É assim que nascem grupos de pessoas cujo líder domina mesmo, se possível em todos os níveis da vida do sujeito, são os chamados “pai”na fé (ou será pau na fé?). “Os dominadores consideram um ato de traição à atividade normal de um indivíduo no sentido de crescer na fé e, conseqüentemente, sair da sua tutela” (p. 18). Esses indivíduos (não há como chamá-los de outro jeito) frequentemente são os mesmos que distorcem 2Co 3.17. Líderes manipuladores, dominadores e controladores não aceitam opiniões, não se compactuam com as palavras liberdade e autonomia, pois isso significa arrazoar discursos e opiniões. Então, “eles só aceitam boas idéias se eles mesmos forem, ou parecerem ser, os autores” (p. 24). Coisa do capeta.
Para minha felicidade (e a de quem ler), Oyekan não esqueceu de dar pinceladas numa idéia que toma conta dos pequenos grupos, tão em voga nos nossos dias. Trata-se da vesga idéia de subestimação das pessoas, ou seja, “para eles [pastores e lideranças], discipular ou “pastorear” é uma forma de confinar pessoas a um relacionamento em que um cristão obedece a outro sem questionar” (p. 48), o que é lamentável em plena era democrática e, mais vergonhoso ainda, quando o próprio Deus dá-nos o livre-arbítrio. Resta-nos, nesses casos, o que, a meu ver, é a síntese desse livro, a saber, “qualquer manipulação da liderança da igreja pelos membros deve ser rejeitada” (p. 33).
Acaba aí a possibilidade de reter-se o que é bom dessa obra. Adiante, o que lemos é uma mistura de assuntos que poderiam ter sido evitados ou melhor explorados. Ou seja, o autor toca de maneira superficial em temas que mereceriam outro momento para a reflexão, talvez outro livro, por exemplo. Então ele faz referência à sexualidade (p. 53), ao lar (p. 63), à música (p. 105) sem nenhum tipo de aprofundamento. Oyekan não esquece de se mostrar ao leitor, de exibir-se a partir dos demônios, ao dizer: “toda vez que ordenamos que eles deixem os oprimidos, eles têm de dobrar os joelhos” (p. 117). É a típica mania de quem se acha superior, a quem não basta expulsar demônios, há que expô-lo ao ridículo, fazer, como vemos em algumas denominações, eles falarem, dizer donde vem e para onde vão. Um exibicionismo desnecessário.
Para finalizar, no último capítulo (pp. 151-156) o autor não resiste à tentação da homogeneização. A começar pelo título, Lista completa sobre o domínio, lemos uma espécie de teste advindos de subtítulos como sintomas de domínio, intimidação, você é dominador ou manipulador? Ora, se Deus é onisciente, onipresente e onipotente e, além disso, multiforme, rasguemos essas páginas ou peçamos desconto no momento da aquisição de um livro assim.

Menos exibicionista é a segunda obra que li. Abuso espiritual: como libertar-se de experiências negativas com a igreja, de Ken Blue
[3], tem o mérito de ser mais interessante, de nos cativar mais para a leitura. Possui muito mais relatos do que tentativas de manipular o leitor. A linguagem parece ter mais a ver com o que ouvimos nos templos brasileiros, talvez porque o autor seja norte-americano e nossa teologia, infelizmente, ser uma simples cópia gringa. Mesmo assim podemos reter bastante lições. A primeira vem com uma analogia na qual o fiel, o crente, é como um cliente. Leiamos atentamente:
Certos líderes espirituais exercem gentilmente coerção sobre suas congregações através do uso habilidoso da linguagem da intimidade e da confiança. Essa mesma técnica de manipulação sutil é evidente em restaurantes finos. Os garçons desses restaurantes sáo muito bem treinados no vocabulário e na linguagem corporal da amizade e da familiaridade. Através do uso apropriado de palavras-chave, toques e gestos, o garçom ganha a confiança do freguês. E então, com base na confiança conquistada, manipula o freguês de forma que ele peça o que o restaurante quer vender, e não o que deseja comer. O propósito é extrair do freguês o máximo de dinheiro fazendo-o, ao mesmo tempo, sentir-se querido e cuidado.
Muitos líderes de igreja são habilidosos na linguagem da intimidade e da confiança. Através dela ganham o apoio de seus seguidores e são capazes de levar a igreja como querem.
(p. 11)

O bom é que o pastor não se faz de rogado e logo tasca a questão do dinheiro como uma das fontes de abuso/manipulação. Nesse mesmo capítulo, chamado muito bem de Um convite à liberdade, ele propões que suscetíveis ao abuso são “os crentes mais comprometidos”. “O ‘movimento do discipulado’ foi trazendo cada vez mais morte espiritual àqueles que eram espiritualmente vivos” (p.15), afirma citando Berks. Blue une-se a Oyekan mostrando que nem Cristo suportou/aceitou a manipulação farisaica, “por que deveríamos nós deixar por menos?” (p. 16). O autor não deixa passar nem mesmo essa nomenclatura na qual subjaz a perpetuação do poder (bispo, pastor presidente, doutor, reverendo etc), ou seja, o cargo dá visibilidade (p. 18).
Na página 24, Blue, por assim dizermos, ‘pisa na bola’ e deixa implícita a idéia de que pastorear pode ser um grande negócio. Ao contar que um determinado pastor fora acusado publicamente de ter seduzido uma moça e que, em razão disso, fora exonerado do cargo, sem provas, posteriormente sendo comprovadas as mentiras, o autor encerra a questão mostrando que o injustiçado estava “se saindo muito bem vendendo seguros de vida” (p. 24). Lamentável é que não tenha se dado conta de que há uma diferença assustadoramente gritante entre vender seguro de vida e pastorear uma denominação – seja ela qual for. Esta é uma característica da teologia que venho chamando de norte-americanizada: colocar num mesmo pacote a administração de negócios e a administração eclesial. Não deveríamos compactuar com essa idéia; pois é nesse bojo que encontramos obras de escritores cristãos da América (como se eu não fosse do mesmo continente) nas mesmas prateleiras de auto-ajuda, de sucesso empresarial, de como fazer crescer o mercado pós-moderno de indulgências. Não obstante o que acabei de dizer, tem mais ‘luzes’ interessantes na obra que podemos aproveitar.
O que me fez considerar este segundo livro melhor que o primeiro foi a ousadia do autor em dizer muito do que já podíamos inferir e que poucos tiveram a coragem de expor, com algumas minúcias, os podres da instituição. Esta, para manter-se, pouco mede esforço. Seus líderes arranjam palavras, digamos, espiritualizadas para direta ou indiretamente subjugar seus fiéis. “Autoridade espiritual”, “dom de Deus”, “chamada”, “talento especial”, “grande experiência”, “revelação profética” e “ungido do Senhor” são alguns dos epítetos possíveis de se observar no meio evangélico-manipulatório. Para minha surpresa (agradável surpresa, diga-se de passagem) o autor de Abuso espiritual critica Watchman Nee (p. 29) por essa estrutura hierárquica castradora e repressora responsável pelo estrago causado a muita gente. Quantos fiéis receberam penalidades e/ou foram chamados de rebeldes porque ousaram discordar de seus líderes? Lembro-me de já ter sido acusado de insubmisso e rebelde, além disso, havia um pseudolíder que queria, vejam só, ministrar comigo a fim de arrancar, exorcizar o que ele chamou de “espírito de rebelião”. Ainda bem não compareci e nunca comparecerei a uma coisa dessas. Meus demônios, se os tenho, estão em conchavo com os anjos, isto é, se um sair o outro também sai. Não posso deixar de registrar que esse meu ex-líder era leitor voraz de Nee; era Deus no céu e Nee na terra. Realmente, ninguém é perfeito.
Blue não deixa passar em branco essa balela chamada ‘cobertura espiritual’. Incrivelmente, mesmo que Jesus não compartilhe da sua glória com ninguém, há líderes que insistem nessa típica idéia de poder. Assim, o subalterno só pode ir a algum lugar com a (pesudo) benção do líder que tem o poder de cobrir. Nessa mesma idéia, surge o vestir a camiseta. Nalgumas reuniões (cultos) os fiéis são constrangidos a servir sob qualquer custo, sob pena de perderem seus lugares no céu. Ocorre que esses líderes “se assentam na cadeira de Moisés e se posicionam como mediadores entre nós e Deus” (p. 37). Criam estatutos, do tipo faça isso, não faça aquilo (p. 44) e induzem à culpa ao proporem que Deus responde a todas as orações, desde que tenhamos fé e bom desempenho religioso (entendam-se doações, ofertas, dízimos, participação em algum ministério do templo). Acontece, porém, que Deus, soberano que é, pode resolver não atender e isso independentemente de fé. Mas a instituição precisa de regras que a beneficiem, a sustentem.

A genialidade desse sistema é que cada grupo religioso pode projetar seus próprios fardos pesados de modo a satisfazer as suas necessidades. Em um local, o padrão é ofertar dinheiro; em outro, é se revezar como professor de escola dominical; em outro ainda, é participar de comissões. (p.55)

Criam-se fardos, o contrário do que a igreja deveria fazer. Blue acrescenta que

...os pastores têm ensinado a igreja a valorizar as coisas para as quais foram treinados e que eles têm tempo de fazer, como o estudo da Bíblia e a oração. Como são eles mesmos que administram seu tempo, eles podem ir a quantas reuniões de oração quiserem e passar horas estudando as Escrituras. (...)
Existe uma espécie de abuso espiritual que é desumanizante e que na verdade é pior do que o mau uso da lei de Deus. Ele acontece através de apelos que, sem uma definição clara, convidam as pessoas a “viver uma vida de maior profundidade”, a “deixar tudo no altar”, a “render-se”, a “renunciar”e coisas assim. Esse tipo de desafio, quando não é esclarecido nem explicado, nunca dá descanso à nossa consciência.
(p. 57/58)

É por essas e outras razões que defendo o labor também aos pastores. Pastores deveriam trabalhar em serviços seculares como uma tentativa de tornar seus sermões mais calcados na realidade. Talvez nossos ouvidos seriam poupados de algumas asneiras. Talvez seríamos menos usados com fins manipulatórios, “sem pressão social e ‘palavras proféticas’” (p. 65). Como diria Larry Crabb, chega de regras. Não mais regras abusivas, que, “para alguns pode ser o uso de terno e [ou] gravata; para outros, jeans e camiseta” (p. 80) e assim por diante.
Tenho a impressão que algumas lideranças acham que não cansam com seus discursos. Pois cansam. E quando isso acontece, o que fazemos? Esse é o tema que toma conta das páginas seguintes de Abuso espiritual. Já na 65 temos uma pista:

Se você não agüenta mais tentar manter seus medos, compulsões e pecados sob controle, a primeira resposta de Jesus não é mais disciplina ou mais memorização das Escrituras, mas sim descanso. Descanso em sua aceitação amorosa e descanso em seu poder.

Deixo claro que o autor não suaviza as críticas às manipulações, aos abusos, simplesmente optei – para não me estender – ir para alguns conselhos que ele, em meio aos desvelamentos, vai nos presenteando. Na sexta parte do livro ele sugere que “se o abuso é menor e ocasional, quem sabe o melhor seria ignorá-los”, mas se, ao contrário, for implacável “e bem-defendido, nós provavelmente precisamos partir.” (p. 99). Em meio aos conselhos, não esquece de algo tão importante quanto denunciar e confrontar o abusador: perdoá-lo (p.102). E a conseqüência posterior ao perdão (ou talvez concomitante) seja afastar-se do lugar, do templo, “para se cuidar” (p. 141), resistindo, inclusive, aos bem-intencionados amigos que nos dão conselhos como se tivessem descoberto a roda. E não sejamos ingênuos, precisamos “de tempo para se recuperar” (p. 141).
Uno-me a Blue para dizer que

...embora não obedeçamos a Deus perfeitamente, Jesus o fez e, aos olhos de Deus, seu sucesso substitui nossa falha. Nós não oramos, amamos, louvamos, perdoamos ou sofremos perfeitamente – mas Jesus, sim, e seu desempenho é creditado a nós. É como se todas as notas dez do boletim dele fossem transferidas para o nosso boletim. (p. 134/135)

O que precisamos é de lideranças que não tenham preocupação com a própria aparência, mas que vivam de maneira simples e franca, que estejam “prontos a aliviar a pressão dos protocolos religiosos quando estes conflitam com as reais necessidades humanas” (p. 146).
Por fim, carecemos de uma teologia da alegria, centrada no amor divino, na graça divina. Sendo sal e luz, trabalhando em prol dessa humanidade com a esperança e os olhos fixos no porvir. Não esquecendo de tornar essa Terra um lugar melhor para se viver, um pedaço do céu.




















NOTAS


Ilustração de Peter Kuper para A metamorfose, de Franz Kafka, Conrad Editora do Brasil, 2004.



[1] OYEKAN, Yinka. Manipulação, dominação e controle: desenvolvendo relacionamentos saudáveis. Rio de Janeiro, Danprewan, 2002. Trad. Valeria Lamin Delgado. Título original: Manipulation, domination and control.
[2] 1Tessalonicenses 5.21.
[3] BLUE, Ken. Abuso espiritual: como libertar-se de experiências negativas com a igreja. Trad. Sérgio R. Stancato de Souza. São Paulo: ABU Editora, 2000. Título original: Healing Spiritual Abuse, InterVarsity Press, 1993.

o desejo de ser pai

Levi Nauter


Sou um servidor público municipal e trabalho na área da educação. Também já desenvolvi minhas atividades na Secretaria Municipal de Educação. Nela, entre outras funções, fui, por um ano, ouvidor - dentro das implementações e adaptações a fim de buscar-se o reconhecimento junto ao PGQP-RS. Foi um tempo de intensa aprendizagem, questionamento, passando por momentos de desesperanças e esperanças.
A Ouvidoria foi o lugar onde mais escutei pais e mães reclamar, criticar, sugerir e discordar das ações daqueles que deveriam educar para a vida. Certa vez, uma pai queria me bater porque eu não tinha exatamente a resposta que ele esperava. Quando pais chegam na Secretaria de um município para reclamar, normalmente estão estressados de tanto já terem reclamado na escola (para a equipe diretiva, bem como para o próprio professor ou professora).
Sinceramente, era lindo ver alguns pais. Se eu pudesse, para alguns, diria "você tá muito calmo". Existem coisas que acontecem numa escola que só Deus não duvida.

Para quem ainda não sabe, comunico que sou casado. E bem casado. Há doze anos. Por que estou dizendo isso? Porque estamos numa fase de querer ter filhos. Nunca imaginamos a falta que uma criança faria. Quando passeamos ou em qualquer lugar que estejamos, parece que a meninada põe-nos lente de aumento. Só enxergamos crianças.
Correndo, pulando, sorrindo, chorando, tentando caminhar, brigando, colocando a língua para estranhos, querendo colo, querendo mamá. Tudo ganha beleza. Até dormindo a criança fica linda. Quando elas falam tudo "errado", acho maravilhoso. Estudando lingüística, em meio aos exemplos de aquisição da linguagem, ficava imaginando a criança falar.
Pois, agora chegou a nossa vez. Muitas vezes, nas nossas conversas, dizemos que queremos uma criança sapeca, arteira, mas saudável. Nos perguntamos: "será mais parecida comigo ou contigo?". A emoção toma conta. Nossos olhos enchem-se de lágrimas ao mesmo tempo em que parece nos dar mais força para batalhar por alguns outros sonhos.
Quando penso num filho, penso em cansar-me de tanto brincar com ele. Penso que gostaria que ele me amasse tanto quanto eu o amarei. Gostaria que ele me visse com um parceiro, um amigo, alguém com quem poderá contar - a qualquer momento. Igualmente, quero que ele não tenha medo de mim, nem me tema; que me respeite assim como se deve respeitar a todos os seres humanos. Acho que ele não precisará concordar sempre comigo nem eu com ele, mas, que saibamos mutuamente nos respeitar e cumprir as possíveis e necessárias combinações.

É nesse ínterim que penso em Deus. Tenho dito nos meus escritos e a quem me pergunta que estou redescobrindo Deus. Por um bom tempo não chamei Deus de Pai. A minha visão de pai era diferente da que possuo atualmente, momento em que pretendo ser um. A parábola do filho pródigo ganhou uma amplitude maior após a leitura que fiz de A volta do filho pródigo, no qual o autor propõe que existem fases da nossa caminhada cristã que têm a ver com essas histórias. A fase de pai pode representar a maturidade espiritual, a maturidade no relacionamento conjugal. A, digamos, fase pai simboliza o doar-se sem espera de recompensa. Sinto-me apto a ser pai.
Pois, retomando, achava que não podia brincar, dar boas risadas, fazer trapalhadas e até traquinagens. Minha visão de Deus era a de um carrasco. Um Deus como o que me apresentaram era ruim e melhor seria não tê-lo. A única justificativa para tê-lo por perto era a consciência de que Ele era melhor que o Diabo. Os tempos mudaram, eu mudei. Minha visão de Deus tem sido outra.
Penso que Ele gosta de rir no céu. Também acho que - profeticamente - os anjos quase desafinam ao ouvir nossas criancices terreais. O que O entristece é a leviandade e a malandragem - a tentativa de passa-lO para trás. Mas o viver a vida intensamente, nesse curto espaço de tempo que possuímos - se comparado a eternidade, parece deixá-lo muito contente. Tenho certeza de que Ele quer que vivamos todas as fases da nossa vida. Sem neurose, sem culpa.
Como filho de alguém que teve um cargo importante na igreja pentecostal, posso afirmar que não pude ser criança. Fui muito mais o filho do fulano do que a criança que todos as outras podiam ser. Enquanto todos podiam fazer estrepolias, se assim agisse desabonaria meu pai. Devia ser o exemplo para dar autoridade ao meu pai. Vejam que horror. Psicologicamente, sublimava fazendo o que muitos crentes fazem ainda hoje: dava o tapa e escondia a mão. Vivia, assim, em dualidade, ou seja, se alguém me visse e comigo não convivesse considerar-me-ia um santo. Caso convivesse, mudaria logo de opinião. E, para encurtar a história, na sexta série fui expulso do colégio. Então comecei mudar.
Quando penso na aguardada paternidade, imagino meu filhote sendo criança, adolescente, jovem e adulto vivendo intensamente todas essas etapas. Quero ser um refúgio para aquela "pessoinha" que terá uma mescla de mim e da Lu. Um refúgio para que ela saiba que haverá proteção. Quero segurá-la até que ela aprenda a caminhar, a andar de bicicleta. Se eu eu tiver algum tipo de autoridade, que seja pela minha conquista e não às custas de uma criança. Espero que, tal como os pais, a criança não viva de aparências, com máscaras.
Nossa idéia é levá-la para passear, mostrar algumas belezas naturais e artísticas para a pequena criança. Pretendemos dialogar muito. Queremos ouvir a frágil voz gritando, tentando dizer o meu nome ou o da Lu. Ficamos imaginando os gestos, as mãozinhas. Ficamos bobos...
Hoje tenho certeza de que Deus se alegra comigo muito mais do que fica triste. Mesmo quando triste, não diminui seu amor por mim - e essa é a melhor notícia: saber que um pai não perde o amor por um filho. Um filho pode até desdenhar os pais, mas estes não fazem o mesmo. Ele não me ama nem demais nem de menos. Ama-me por completo, sabendo que vou cometer muitos erros, que vou desdenhá-lo.
Digo várias vezes pra Lu que a imagino com aquele barrigão. Pretendo conversar com o neném desde os primeiros meses de gestação. Vou me sentir como uma espécie de Deus: o filho ou a filha sairá à nossa imagem e semelhança.
Ouvi uma música lindíssima, de Jesus Adrian Romero, que expressa muito bem esse sentimento. Ela chama-se Me dice que me ama. Leiamos:

Me dice que me ama
Cuando escucho llover
Me dice que me ama
Con un atardecer
Lo dice sin palabras
Con las olas del mar
Lo dice en la mañana
Con mi respirar
Me dice que me ama y que conmigo quiere estar
Me dice que me busca cuando salgo yo a pasear
Que ha hecho lo que existe para llamar mi atención
Que quiere conquistarme y alegrar mi corazón
Me dice que me amaCuando veo la cruz
Sus manos extendidas
Así tan grande es su amor
Lo dicen las heridas
De Sus manos y pies
Me dice que me ama
Una y otra vez


Que Deus maravilhoso! Que redescoberta aliviante. Saber que Ele me aceita como sou não tem preço.
O grande desafio no qual me vejo é o de reproduzir na Terra minha função evangélica de pai. Ou seja, ajudar as pessoas tanto quanto for possível, desvendar as mitificações igrejeiras; fazer combinações e, na medida do possível, enfatizar a autonomia cristã de cada um. Não pretendo ensinar a descobrir a roda. A roda já foi descoberta e faz tempo. Quero apenas tentar mostrar, cotidianamente, que há diversos tamanhos. Não vou ensinar ninguém a tomar posse de bênção alguma, nem quero orar determinando a cura de nada, tampouco vou requerer ofertas e dízimos - embora o capitalismo aliado ao Reino seja atraente e, logo, tentador. Quero sempre frizar que existem bênção e existem curas, mas que dependem do querer de Deus, no tempo dEle.

No recreio, a escola fica em polvorosa. As crianças não param um segundo. Brincam de pega-pega, esconde-esconde, 'ovo podre', o famigerado e politicamente incorreto 'atirei o pau no gato' e até o antiguíssimo 'marcha soldado'.
'Marcha soldado' que me fez lembrar, neste instante, de uma composição muito bem feita do grupo carioca Pedro Luis e a Parede (do CD É tudo 1 real, Universal Music, 1999).

Marcha soldado
cabeça no papel
a vida de avião
não vai levar você pro céu

Música de criança tem significado adulto. Bem-aventuradas são as crianças e quão (des)venturados somos nós, às vezes.

[pedregulho no evangelho] – texto 8


Levi Nauter





“Nenhum texto é pronto, no sentido de estar acabado, de ser completo, porque sempre enfrentará sua incompletude na releitura que dele fará cada um dos seus leitores.”
Jussara Hoffmann


O que vou me permitir refletir neste texto possivelmente causará polêmica. E, devo confessar, adoro isso. Considero relevante um texto que polemiza, que me propõe pensar na contramão do senso comum (do óbvio) - pouco importando a vertente sócio-histórico-filosófica do autor. Não imagino, no entanto, e é bom que fique registrado, possuir o dom da palavra de maneira a pensar, logo sair do comum. Acredito, contudo, que é pensando sobre a nossa realidade que vamos saindo donde estamos e indo aonde entendemos ser o melhor. Também é importante registrar que estou muito longe de achar-me dono da verdade, como pensam alguns. Talvez uma característica do meu texto seja a 'briga comigo mesmo' por dizer/refletir sobre a minha realidade. Sou adepto do pensamento de que quanto mais local mais universal; quanto mais penso na realidade brasileira mais me sinto apto a admirar outras realidades. Nunca acriticamente. Ambos, o local e o universal, precisam ser vistos por diversos ângulos. Daí a consciência de que o meu texto representa apenas um minúsculo ângulo de visão. Que sejam bem-vindas outras visões.


No bojo do que acabei de dizer há a esperança do respeito. Considero que o meio cristão tem sido o lugar do desrespeito, não tem sido o lugar da compaixão, da segunda, terceira, quarta, quinta e setenta vezes sete chances de recomeçar. O meio cristão está indo na contramão de Cristo, que é símbolo da compaixão, do amor, da graça. Mas os cristãos nem sempre têm representado essa simbologia. Não é mais possível desrespeitar o próximo como muitas vezes temos feito e, descaradamente, pregar amor e graça. É um desserviço ao Reino de Deus quando isso acontece. Destruímos nosso discurso evangélico quando não tentamos (pelo menos) compreender a complexidade humana. Complexidade que não se esgota num texto como esse.


Quantos de nós conseguiria dizer o que Cristo disse à mulher pecadora, "apanhada em adultério"? Imagino que muitos de nós teriam uma bolsinha cheia de pedras, e daríamos a resposta moderna (ou pós-moderna, para alguns): "prevenir é melhor que remediar". Possivelmente atiraríamos a pedra, depois pensaríamos nas conseqüências: em que lugar acertamos? Furei o olho? Como ela está se sentindo? Por que ela fez o que fez? Por que nós agimos como agimos? Não teria um outro jeito de resolver essa questão? Como Deus resolveria? E se eu fosse ela?


Mas a pedra já foi, já acertou. Talvez aleijou, talvez matou.


O mais incrível é que, descaradamente e, às vezes, sem nenhum arrependimento, procuramos Deus e pedimos o perdão que não damos, a graça que não compartilhamos, o amor que não demonstramos. Para nossa sorte, Deus é diferente. Ele insiste conosco demonstrando tudo aquilo que gostaria de ver em nós. Pouco nos damos conta disso. Ainda bem, Ele entende nossa humanidade
[i]. Humanidade que não foi opção minha, mas dEle ao enviar seu filho em forma humana, com sentimentos humanos. Reconhecer nossa humanidade não é negar a intrínseca pecaminosidade. Devemos, sim, odiar o pecado, fugir dele, se for o caso; saber que Deus não tem parte com o pecado. Ao mesmo tempo e acima de tudo, precisamos entender que não temos autoridade (aos que amam oprimir) nem base legal (aos adeptos da guerra espiritual) para desobedecermos a síntese dos dez mandamentos. Não temos autorização para julgar1. Todavia, uma pseudoautonomia foi sendo criada e hoje é uma festa: julgamos, falamos mal, disciplinamos, excluímos, dizemos o que bem entendemos. Simultaneamente, cometemos os mesmos erros - em silêncio, claro, para mantermos as aparências, para continuarmos investidos na máscara evangélica. É mais comum sermos um fariseu do que sermos o publicano que clamava por misericórdia.

E continuamos pregando amor, graça, perdão.


O profeta
2 Carlos Drummond de Andrade, no célebre poema da pedra, parece dizer o que Deus contempla do céu. O Senhor de todas coisas, imagino, nos apresenta pessoas na caminhada cristã e vêmo-las como uma pedra ou como quem merece uma pedra. Leiamos, se possível mais de uma vez, parando, lendo com vagar e, depois, em um só fôlego:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Espero que o Espírito Santo lance luz sobre seu entendimento a fim de que possas ler 'por detrás' da poesia, com a graça de saber que Ele usa quem quer. Há em muitos de nós o preconceito de não ler nem ouvir não-cristãos; como justificativa, dizemos que ímpios não têm nada a nos ensinar, contribuir. Eu penso o contrário. Minha tentativa tem sido ver Deus em tudo.


Pois, Deus também enxerga algumas pedras humanas. A diferença básica, entre o humano e o divino, é o que se faz com a pedra. Nossa tendência humana é chutar. Eu amava chutar pedras; usava um kichute preto que, ao voltar do colégio, era cinza de poeira, com pequenos pedaços de pedras quebradas. Agora, não mais na educação básica, vejo a pedra com outros olhos. Eu e minha esposa sonhamos com um lindo jardim, recheado de pedras ornamentais. Quando vejo um muro de pedras, em geral, acho esteticamente bonito. As ruínas de São Miguel das Missões consolidaram-se como ponto turístico no estado. Elas são feitas com pedras. Uma junção de pedras tem muita utilidade, a questão é quem faz o quê com elas.


A visão divina da pedra é mais profunda. Se pararmos de anunciar, de clamar, as pedras clamarão. Eu não inventei isso. Pedro ouviu que era uma pedra, mas não qualquer pedra. A partir dessa seria fundada a Igreja. Ah, se pudéssemos ver as pessoas como igreja, como templo. No evangelho da guerra, observamos o outro como inimigo; se pensa diferente, não serve. A visão divina da pedra propõe que a ensaquemos ao invés de atirá-la. A visão divina da pedra vai de encontro (e não ao encontro) com a nossa pecaminosidade e sugere que: (1) não neguemos que ela possa estar no meio do caminho; (2) ouçamos um possível clamor dela, como sinal do nosso silêncio; (3) não a atiremos como algo que não presta, subestimando-a; e (4) vejamos um templo, um possível lugar para o agir de Deus.


Tenho sido apedrejado por muitos ao longo dessa experiência de escrever e tornar público o que penso silenciosamente. Mas não me sinto incomodado com isso, pois é o reflexo de uma opção. Poderia ter ficado quieto, num canto qualquer. Fiz outra escolha e ela tem me ajudado a ver Deus. Tenho dito que estou redescobrindo Deus. Mostraram-me um Deus justiceiro, que não dorme no ponto, que tem olhos como chamas de fogo, que fica triste quando não faço o que Ele quer. Esqueceram (ou não sabiam) que Ele é amor, amigo, príncipe da paz, maravilhoso, conselheiro. Também não me disseram ou não sabiam que "o perfeito amor lança fora todo medo". Ocorreu que vivi por alguns anos com medo de Deus em vez de temer a Deus. Eu não desaprendi o que me ensinaram, apenas enxerguei outros ângulos do mesmo Deus. E vendo-O descobri, por mim mesmo, que Ele ultrapassa o nosso entendimento e, assim, nEle podemos ser livres. Liberdade não significa a famigerada libertinagem. A liberdade aprofunda a intimidade. Ela nunca se desatrela da responsabilidade, não passa ao largo da conseqüência de nossos atos. O contrário disso é cerceamento, ditadura; é o anti livre-arbítrio divino. Abaixo de pedras, paradoxalmente, sinto-me livre em Deus. Como Estêvão, tenho visto Deus. E como um miserável homem que sou, pecador, tenho descansado na promessa de Cristo que me sugere: "não se turbe o vosso coração". E descobrir os caminhos da graça tem sido um desafio gratificante.


Mas não me preocupo tanto comigo. Sei em quem tenho crido. Quero é falar das pedras que vejo rumo a alguns alvos que estão mais para Pedro do que para Golias
3. E, estando na direção de Pedro, deve ser revisto - com base na proposição de Cristo: "aquele que não tiver pecado atire a primeira pedra". Caso optemos pelo contrário, que fique bem claro: vamos rasgar a Bíblia. Se nos consideramos supercrentes, supersantos, santarrões, ou coisa que o valha, as escrituras deixam de ser sagradas e não fazem mais sentido algum.

Quando, nos meus escritos, cito Leonardo Boff, Rubem Alves, Caio Fábio
[ii], entre outros 'Pedros', alguns leitores invalidam toda a reflexão em função desses nomes. Ora, isso é um absurdo, é desumano, desrespeitoso, feio, nojento. É pecado. Os que assim agem consideram-se mais santos, mais puros, mais dignos? Lamentavelmente, o conselho bíblico para que não julguemos é obedecido segundo os interesses e conveniências de alguns. Infelizmente outros julgam pela condição social e pela nacionalidade. Dia desses conversava com uma pessoa conhecida, músico, que maldizia os músicos que se dispunham a tocar para o que ele denominava grupos ou cantores 'do mundo'. Em contradição, contava, com alegria, ter assistido a uma apresentação de jazz cujo baixista era um 'irmão' famoso. Escutando um programa de rádio cristão, ouvi a notícia - dada com alegria eufórica - de que Jeremy Camp (diga-se, de passagem, excelente músico) fará parte do casting musical de um filme holywoodiano. Aí pode? Notemos, tenhamos consciência de que é um preconceito pensar assim. Ninguém é mais ou menos santo porque usa sua arte. Arte é arte; pode ser um meio de evangelização, mas não necessariamente. Agora, se um bom músico brasileiro comete pecado ao tocar, por exemplo, com Djavan por que não acontece o mesmo se Laboriel, também por exemplo, tocar para Gloria Stefan? O mais deplorável e indignante nisso tudo é que quando 'se converte' um músico secular, o trabalho cristão deste ganha status a partir da sua vida secular. Exemplifico citando o cantor pentecostal Mattos Nascimento - apresentado como um ex-participante do grupo Paralamas do Sucesso. Claro que isso não desfaz a contribuição dele ao Reino de Deus, simplesmente denota nossa contradição discursiva. Alguns cantores de pagode se ‘converteram’ e, no entanto, ficam com o título “fulano de tal, ex-integrante do grupo tal”. Parece que se converter é ótimo, mas é melhor manter o título do tempo em que estava “no mundo”. Isso é mídia, é vender um produto. Um horror!

Mas voltemos aos três ícones citados no parágrafo anterior.


Boff, vem dando uma contribuição inegável à teologia e aos movimentos sociais brasileiros. Tal contribuição independe da vertente política a que ele pertença. Uma coisa é sua contribuição teológica, que ousa questionar as instituições e as cosmovisões cristãs, inclusive mostrando-nos, ainda que de modo superficial, a cosmovisão das religiões orientais. Quanto ao seu interesse em apoiar o Movimento dos Sem Terra (MST), é legítimo. Um cristão que não apóia uma efetiva reforma agrária nem pode querer ir pro céu. Mas, ao contrário, queremos, sim, um canto nas ‘mansões’ celestiais. O que certamente precisamos é de um esquema (no bom sentido da palavra) capaz de dar conta da complexidade desse tema, inclusive que, de repente, não se permita que alguém que nada tem a ver com agricultura venha fazer parte desse movimento. Não podemos negar que há pessoas que se introduzem em movimentos sociais apenas para, digamos, "aproveitar-se", ter benefício com um pouco de sacrifício. Isso tudo, porém, jamais anula o direito de alguém, seja lá quem for, de apoiar o que quiser. Podemos discordar do apoio, nunca sem fundamentados argumentos. Isso, em hipótese alguma, anula sua contribuição à Igreja, à reflexão teórico-teológica e prático-teológica (pois mesmo com alguns cerceamentos não o calam). Suas obras ousam dizer das mazelas e das manipulações que muitos cristãos sofrem ao longo de suas caminhadas de fé, ao serem tratados mais como massa de manobra pelas lideranças do que como membros de um mesmo corpo. Leonardo Boff é o símbolo da resistência profética contemporânea, mesmo que o tentem silenciar ele segue falando, pensando novos pensares.


Rubem Alves não é menos importante que ninguém. Autor de grande prestígio no meio secular, contribui muitíssimo com sua obra que mescla teologia, filosofia, educação e psicanálise, no mínimo. A obra Religião e Repressão é um marco na crítica ao institucionalismo protestante e ao que venho chamando de teologia do medo. Como a igreja-instituição parece ter mais vocação para tornar cativos e não libertos seus membros, a ditadura foi o pretexto institucional para que a igreja protestante pouco se importasse com a saída de um cristão intelectual. Apedrejaram o profeta. A misericórdia de Deus, que excede nosso entendimento, contudo, tem feito com que, mesmo à distância, recebamos suas poderosas histórias e reflexões, capazes de nos fortificarem para mais uma milha. Todas as obras desse autor têm me enlevado espiritual, filosófica e educacional e, enfim, intelectualmente. Como costumamos dizer, Alves tem sido para mim uma bênção. Se hoje ele não faz parte de nenhuma instituição religiosa oficial, como eu; se é contraditório e possui muitos erros, igualmente como eu; se eventualmente apóia algum movimento com o qual eu não concordaria, ainda assim ele tem sido uma bênção. Continuarei lendo-o, à revelia de algum (pseudo)líder evangélico.


O que me arrependo é de ter conhecido Caio Fábio há pouco. Que pena! Perdi de aprender mais. Ele também tem contribuído com o Reino. Suas obras desvelam as mazelas das igrejas (corpo e instituição), do potencial diabólico (acho que não se pode chamar isso de dom)que temos para acusar. Essas coisas incomodam. Um conhecido disse-me: "mas ele adulterou", "ele apóia os homossexuais". Sim, ele cometeu e comete pecados tanto quanto eu. Todos os casados estão sujeitos a cometerem adultérios. A Bíblia registra a história de um homem que cometeu um assassinato para adulterar. E escrevia Salmos. No entanto, enchemos a boca para dizer o que é verdade: ele foi segundo o coração de Deus. Cristo foi mais longe, talvez na tentativa de ver se a gente se conscientizava de que também adulteramos. Apoiar o movimento homossexual, a meu ver, não significa ser homossexual nem fazer apologia a isso. O homossexualismo é um fato social e como tal deveria ser tratado. Significa dizer que se duas pessoas do mesmo sexo decidem ficar e viver juntas devem ser respeitadas. São, acima de tudo, seres humanos. As leis têm base nos fatos sociais e, portanto, precisam alcançar também os homossexuais. Considero que o debate deve tensionar no sentido de se saber o que é apoiar a homossexualidade. Não acredito que a igreja tenha o papel de julgar um homossexual por essa opção sexual. Ela pode, e a meu ver deve, deixar clara a sua opinião quanto ao propósito divino de criar homem e mulher. E, nessa esteira, também deveria dizer porque subestima, inferioriza e oprime as mulheres, ressaltando o demoníaco machismo. Esse, parece-me, é um apoio tão legítimo quanto o apoio ao MST, ou seja, posso optar ou não pelo apoiar. Isso não nega minha fé, tampouco nega minha contribuição para o crescimento do Reino. Muito menos significa não poder mudar de opinião mais adiante.


O pretexto de que esses autores buscam a mídia é uma falácia. Falácia, em primeiro lugar, porque demonstra a mesma intenção em nós de termos a mesma influência que eles têm; em segundo lugar, porque a igreja-instituição, querendo ou não, sustenta-se pelo uso midiático. Livros, Cds de música e de sermões, roupas, eventos em geral, são alguns dos usos cuja finalidade se bifurca entre a sustentação financeira e a proliferação do discurso cristão. Não estou, aqui, entrando no mérito de ser isso bom ou ruim; apenas tentando demonstrar um fato. Poucos são os pastores que não pensam em ter emissoras de rádio e televisão, editar livros e/ou publicar revistas, além de CDs com as músicas cantadas em seus templos. Isso é mídia e todos anseiam por ela.


Os que fazem esse julgamento deveriam clamar por misericórdia. Quem está em pé deveria cuidar para não cair. Conheço muita gente 'faladora' que internalizou e incorreu no erro que mais via como defeito nos outros. Essas pessoas deveriam ler mais a Bíblia e saber que lá, na sagrada escritura, não tem santos. Tem assassinos, beberrões, adúlteros, prostitutas (e prostitutos), doentes, matadores. Todos muito usados por Deus. Há guerras (sem mísseis), conflitos familiares. Lá também houve discursos (sem o God bless you final) e também tem registro de invasão de terras. Há homens piedosos, pobres, ricos. Há festas, muitas festas. Cristo não se tornou menos Filho de Deus por participar de festas, de jantares, por optar ficar perto dos pouco prestigiados socialmente. Não deveríamos imitá-lo? Nossa contribuição social talvez seja bem mais relevante do que optar por lotar templos e fazer um "festerê gospel". Deus é sobre tudo e todos.


O que tenho escutado me parece muito mais com inveja - aquela defendida pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura
[iii], isto é, não ter e não querer que ninguém mais tenha - do que com uma cônscia reflexão crítica sobre dizer/fazer/agir cristão.

As pedras doem, machucam, podem matar. O evangelho é tão mais simples do que o fazemos. Nossa moralidade está acima do querer de Deus. Ela não é de toda ruim, mas não deveria estar acima. Acima, só Deus.


Que possamos ver Deus nas pessoas. Que possamos ler com mais liberdade obras diversas, deixando de lado nossos moralismos, retendo o que é bom.


Ademais, Paulo já sugeria aos Filipenses (4.8):

"tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai".


Esse meu texto não é perfeito, contém muitos erros. Alguns, notarei logo; outros, só com o passar do tempo, na medida em que amadureço. Preciso ter, e tenho, ao menos da parte de Deus, a possibilidade de rever, retomar as idéias defendidas e ir mudando. Noutros momentos, com alguma dor terei de fazer o que Paulo diz: esquecer "das coisas que para trás ficam" e prosseguir para o alvo, "para o prêmio da vocação celestial" (Fp 3.13-14). Ainda bem que esse prêmio não é uma pedra. Imagine chegar na porta do céu e tomar uma pedrada. Seria pra matar...





PS: acabo de escrever este texto e, dois dias depois, ouço a notícia referente ao episódio envolvendo o rabino Henry Sobel (está no noticiário desde quinta-feira, dia 29-03-07). Não vou falar do episódio. Ele, Sobel, é mais importante que o episódio. Se eu pudesse, gostaria de dar-lhe um abraço e dizer-lhe: Deus entende a nossa humanidade.
Que a misericórdia de Deus esteja sobre ele tanto quanto está sobre nós. E lembremos de nos cuidar para não cairmos. Um cuidado, porém, sem neurose.





NOTAS

ILUSTRAÇÃO: para ilustrar esse texto, utilizei um desenho do cuidadoso André Neves feito para a obra “O DRAGÃO DE WAWEL E OUTRAS LENDAS POLONESAS”, de Letícia Wierzchowski e Anna Klacewicz. 2ed. RJ, Record, 2006, p.52
[i] Cito um trecho da professora Jussara Hoffmann que, se não diz tudo, ao menos sintetiza essa palavra. “Humanidade subentende razão, crítica, emoção, intuição, posicionamentos pessoais frente a fatos e ações do outro. Em tudo, há sempre o que nos agrada e o que nos desagrada.” [in Avaliar para promover, 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2002, p. 10]
1Interessante notarmos que, em educação, esse conceito também possui seus defensores. Ao tratar da produção textual, João Wanderley Geraldi, em O texto na sala de aula, editora Ática, propõe que o professor não julgue certo/errado, mas que discorde, concorde, acrescente ou retire algo caso fosse o autor. Sugere, portanto.
2Creio que Deus é transcendente, está sobre todas as coisas. Assim, posso crer que Ele transcende a igreja (na amplitude da palavra - igreja-corpo/igreja-instituição) e usa nossos grandes artistas. Parece-me justo, então, entender aqueles que nos espantam, nos confrontam, denunciam, desvelam, como profetas. A Bíblia não deixou de registrar exemplos de usos fora do comum. A pedra é uma simbologia rica nesse contexto. A poesia transcrita é No meio do caminho, publicada pela primeira vez em 1930 no livro Alguma poesia. Retirei da obra “Carlos Drummond de Andrade, Poesia Completa”, publicada em 2002 pela Editora Nova Aguilar – livro que homenageia o centenário de Drummond, 1902-2002.
3Os Pedros são os que deram, estão dando ou darão importantes contribuições tanto a igreja-instituição como para a igreja-corpo. São cristãos, no mínimo, em potencial. Os Golias são aqueles que devem ser mortos. Não vêm em nome Deus e são, conscientemente, contrários a Deus. Davi mostrou-nos como lidar com esse inimigo.
[ii] Autores com uma extensa obra. Sugiro que se faça uma busca na internet ou que se vá a uma boa livraria que certamente encontrarás alguma.
[iii] Zuenir Ventura, jornalista e escritor, publicou, entre tantos outros, Inveja: mal secreto, pela Objetiva, obra que faz parte da série Plenos Pecados. Na minha opinião, o melhor da série.




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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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