[política e profecia] - texto 9


Levi Nauter









A vida inegavelmente é um ato político. Estar vivo, sobreviver e/ou tomar decisões ratificam esse ato. Quando Cristo disse a Zaqueu para que descesse da árvore, estava praticando um ato político. O grifo na frase "hoje me convém pousar em tua casa" representa o ápice da política das relações interpessoais. Significa dizer, como pode-se inferir, que existem duas políticas, a interpessoal e a sócio-institucional. A primeira faz parte de todas as nossas vivências e, a meu ver, é impossível dela se livrar; a segunda, faz parte das instituições, digamos, legalizadas e tem ligação direta ou indireta com partidos políticos.


Há quem não goste que se diga que Cristo teve atitudes políticas. Eu, ao contrário, considero que sim, na medida em que ele tomou forma humana. Embora não tendo pecado, sendo humano exerceu, sim, a política interpessoal - e bem, por sinal. Isso denota que política não é pecado. Pecado, talvez, seja negá-la, ignorá-la. Pecado é alguém ou uma liderança utilizar-se da política e não permitir que seus subalternos façam o mesmo, como ocorre, por sinal, na Igreja Deus é Amor. O missionário David M. Miranda diz claramente em seus discursos que política é pecado. Consciente ou inconscientemente, perpetua-se a idéia de que a história do mundo está pronta, dada e 'imexível'. Nós fazemos esse mundo, temos autoridade divina para isso, e essa construção se dá com políticas. Cristo foi perfeito em fazer essa demonstração. Inclusive dando-nos uma boa lição, a da morte, isto é, envolver-se em política (interpessoal ou institucional) pode implicar ter que morrer (denotativa e conotativamente).


A primeira acepção de política tem a ver com as decisões que tomamos para a nossa sobrevivência cotidiana, individual (e coletiva, desde que não institucional). Quando vamos emitir uma opinião sobre alguém ou algo, refletimos - antes ou durante - sobre as conseqüências que poderão advir. Às vezes, notamos que alguém não está vestido tão adequadamente como achamos que deveria. A reflexão 'falo ou não falo?' é política porque dela poderá surgir implicações tanto no presente como no futuro. Saber portar-se, vestir-se e/ou falar, além de fazer-se alguma coisa adequadamente requer uma decisão; por isso política.

A segunda acepção, que chamei de sócio-institucional, é mais conhecida como política-partidária. Mais conhecida ou pode estar a ela agregada. Isso porque, não podemos perder de vista, a instituição é sempre formalizada (ou tem peso formal perante uma determinada sociedade). Se, por um lado, pensarmos num partido político, por exemplo, vamos notar sua institucionalização e seu peso perante a sociedade. Mais que isso, neste exemplo, também observamos uma ideologia, uma cosmovisão com propósitos a serem alcançados. Contudo, por outro lado, se pensarmos numa igreja-instituição (entenda-se, portanto, uma denominação formalizada, com CNPJ) não iremos fugir da regra: possui peso/relevância para alguns da sociedade, possuem ideologias e cosmovisões diversas a respeito de suas teologias, possuem propósitos a conquistar. Nessa segunda acepção, podemos levantar a questão da associação igreja-instituição-política, ou, habitualmente chamado, Igreja X Estado. A história tem registrado as conseqüências, basta pesquisar.


Talvez seja tolice imaginar que um cristão não se envolve com a política mais formalizada, a política-partidária. É humano, natural e até necessário o conhecimento do maior número possível de cosmovisões, de teorias, de idéias e de projetos que vêm construindo nossa moral e ética. Essa é a razão (ou uma das) pela qual vemos muitos chamados irmãos em Cristo exercendo seu papel justo, legal, de um cidadão terreno que visa o céu. O que falta, com base em observações, é o respeito entre as diversas cosmovisões. Os esquerdistas criticam os direitistas, que não se denominam assim pois se acham liberais. Alguns esquerdistas vesgamente não enxergam os próprios erros e, ainda por cima, consideram-se mais socialistas. E assim segue uma ladainha que pouco beneficia a grande massa que não tem nenhuma bandeira oficial, embora, obviamente, pendam para algum lado, ainda que não saibam ou não queiram envolver-se. Afinal, não há neutralidade. O que existe são pessoas que, ao não tomarem posição, fortalecem o poder. Quem não deseja isso tem que se posicionar. Ter uma posição político-partidária é importante. Assumí-las também. Não é proveitoso o desrespeito com quem pensa diferente, a partir do desmerecimento e não da discordância.


Em meu caso, não sou filiado a nenhum partido político. E quanto mais olho para esse cenário, mais vejo que longe dele devo estar. Não obstante, esse passar de largo não poderá tornar-se acrítico, ao contrário, deve ser crítico. E, se crítico, para ambos os lados.


E esta tem sido minha defesa, porque não sou fatalista: o cristão deveria estar como que acima da política-partidária para, assim, ter voz profética. A meu ver, uma voz profética não pode estar comprometida com algum lado, beneficiando esta ou aquela visão, senão ser superior, independente. Se a profecia for tendenciosa o que teremos não será palavra profética, mas, sim, politicagem (entendida por mim como um arranjo a fim de adequar-se de acordo com certas conveniências). Política e politicagem funcionam; política e profecia, acho que não.


E, com esse pensamento, encerro dizendo que, tanto em nosso estado como em nível federal, estamos vendo/tendo péssimos exemplos de política e politicagens. Eventualmente alguma coisa presta. Onde estarão os profetas?









ILUSTRAÇÃO de Percy Deane para "Memórias do Cárcere, vol. 1", do maravilhoso Graciliano Ramos, 17. ed., São Paulo: Record, 1984.

1 comentários:

Anônimo sábado, abril 28, 2007 1:50:00 AM  

cara 3 perguntas???
1º o fator da politica de sobrevivência, pode chamar de politica o fator de que desde que nascemos somos abrigados a nos adaptarmos a padrões de uma sociedade? ou seria apenas sobrevivência?
2º Quanto a religião; a politica não é uma reação a pressão que a sociedade impõe como padrões de Igreja?tipo ela nos pede respostas, e por não as termos, apenas as recriamos com a leves pitadas de algo espiritual?
3º a Politicagem esta diretamente relacionada com o fator PODER? que pensas em relação de uma revisão pessoal dos conceitos de uma liderança segundo jesus?

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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