[pedregulho no evangelho] – texto 8


Levi Nauter





“Nenhum texto é pronto, no sentido de estar acabado, de ser completo, porque sempre enfrentará sua incompletude na releitura que dele fará cada um dos seus leitores.”
Jussara Hoffmann


O que vou me permitir refletir neste texto possivelmente causará polêmica. E, devo confessar, adoro isso. Considero relevante um texto que polemiza, que me propõe pensar na contramão do senso comum (do óbvio) - pouco importando a vertente sócio-histórico-filosófica do autor. Não imagino, no entanto, e é bom que fique registrado, possuir o dom da palavra de maneira a pensar, logo sair do comum. Acredito, contudo, que é pensando sobre a nossa realidade que vamos saindo donde estamos e indo aonde entendemos ser o melhor. Também é importante registrar que estou muito longe de achar-me dono da verdade, como pensam alguns. Talvez uma característica do meu texto seja a 'briga comigo mesmo' por dizer/refletir sobre a minha realidade. Sou adepto do pensamento de que quanto mais local mais universal; quanto mais penso na realidade brasileira mais me sinto apto a admirar outras realidades. Nunca acriticamente. Ambos, o local e o universal, precisam ser vistos por diversos ângulos. Daí a consciência de que o meu texto representa apenas um minúsculo ângulo de visão. Que sejam bem-vindas outras visões.


No bojo do que acabei de dizer há a esperança do respeito. Considero que o meio cristão tem sido o lugar do desrespeito, não tem sido o lugar da compaixão, da segunda, terceira, quarta, quinta e setenta vezes sete chances de recomeçar. O meio cristão está indo na contramão de Cristo, que é símbolo da compaixão, do amor, da graça. Mas os cristãos nem sempre têm representado essa simbologia. Não é mais possível desrespeitar o próximo como muitas vezes temos feito e, descaradamente, pregar amor e graça. É um desserviço ao Reino de Deus quando isso acontece. Destruímos nosso discurso evangélico quando não tentamos (pelo menos) compreender a complexidade humana. Complexidade que não se esgota num texto como esse.


Quantos de nós conseguiria dizer o que Cristo disse à mulher pecadora, "apanhada em adultério"? Imagino que muitos de nós teriam uma bolsinha cheia de pedras, e daríamos a resposta moderna (ou pós-moderna, para alguns): "prevenir é melhor que remediar". Possivelmente atiraríamos a pedra, depois pensaríamos nas conseqüências: em que lugar acertamos? Furei o olho? Como ela está se sentindo? Por que ela fez o que fez? Por que nós agimos como agimos? Não teria um outro jeito de resolver essa questão? Como Deus resolveria? E se eu fosse ela?


Mas a pedra já foi, já acertou. Talvez aleijou, talvez matou.


O mais incrível é que, descaradamente e, às vezes, sem nenhum arrependimento, procuramos Deus e pedimos o perdão que não damos, a graça que não compartilhamos, o amor que não demonstramos. Para nossa sorte, Deus é diferente. Ele insiste conosco demonstrando tudo aquilo que gostaria de ver em nós. Pouco nos damos conta disso. Ainda bem, Ele entende nossa humanidade
[i]. Humanidade que não foi opção minha, mas dEle ao enviar seu filho em forma humana, com sentimentos humanos. Reconhecer nossa humanidade não é negar a intrínseca pecaminosidade. Devemos, sim, odiar o pecado, fugir dele, se for o caso; saber que Deus não tem parte com o pecado. Ao mesmo tempo e acima de tudo, precisamos entender que não temos autoridade (aos que amam oprimir) nem base legal (aos adeptos da guerra espiritual) para desobedecermos a síntese dos dez mandamentos. Não temos autorização para julgar1. Todavia, uma pseudoautonomia foi sendo criada e hoje é uma festa: julgamos, falamos mal, disciplinamos, excluímos, dizemos o que bem entendemos. Simultaneamente, cometemos os mesmos erros - em silêncio, claro, para mantermos as aparências, para continuarmos investidos na máscara evangélica. É mais comum sermos um fariseu do que sermos o publicano que clamava por misericórdia.

E continuamos pregando amor, graça, perdão.


O profeta
2 Carlos Drummond de Andrade, no célebre poema da pedra, parece dizer o que Deus contempla do céu. O Senhor de todas coisas, imagino, nos apresenta pessoas na caminhada cristã e vêmo-las como uma pedra ou como quem merece uma pedra. Leiamos, se possível mais de uma vez, parando, lendo com vagar e, depois, em um só fôlego:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Espero que o Espírito Santo lance luz sobre seu entendimento a fim de que possas ler 'por detrás' da poesia, com a graça de saber que Ele usa quem quer. Há em muitos de nós o preconceito de não ler nem ouvir não-cristãos; como justificativa, dizemos que ímpios não têm nada a nos ensinar, contribuir. Eu penso o contrário. Minha tentativa tem sido ver Deus em tudo.


Pois, Deus também enxerga algumas pedras humanas. A diferença básica, entre o humano e o divino, é o que se faz com a pedra. Nossa tendência humana é chutar. Eu amava chutar pedras; usava um kichute preto que, ao voltar do colégio, era cinza de poeira, com pequenos pedaços de pedras quebradas. Agora, não mais na educação básica, vejo a pedra com outros olhos. Eu e minha esposa sonhamos com um lindo jardim, recheado de pedras ornamentais. Quando vejo um muro de pedras, em geral, acho esteticamente bonito. As ruínas de São Miguel das Missões consolidaram-se como ponto turístico no estado. Elas são feitas com pedras. Uma junção de pedras tem muita utilidade, a questão é quem faz o quê com elas.


A visão divina da pedra é mais profunda. Se pararmos de anunciar, de clamar, as pedras clamarão. Eu não inventei isso. Pedro ouviu que era uma pedra, mas não qualquer pedra. A partir dessa seria fundada a Igreja. Ah, se pudéssemos ver as pessoas como igreja, como templo. No evangelho da guerra, observamos o outro como inimigo; se pensa diferente, não serve. A visão divina da pedra propõe que a ensaquemos ao invés de atirá-la. A visão divina da pedra vai de encontro (e não ao encontro) com a nossa pecaminosidade e sugere que: (1) não neguemos que ela possa estar no meio do caminho; (2) ouçamos um possível clamor dela, como sinal do nosso silêncio; (3) não a atiremos como algo que não presta, subestimando-a; e (4) vejamos um templo, um possível lugar para o agir de Deus.


Tenho sido apedrejado por muitos ao longo dessa experiência de escrever e tornar público o que penso silenciosamente. Mas não me sinto incomodado com isso, pois é o reflexo de uma opção. Poderia ter ficado quieto, num canto qualquer. Fiz outra escolha e ela tem me ajudado a ver Deus. Tenho dito que estou redescobrindo Deus. Mostraram-me um Deus justiceiro, que não dorme no ponto, que tem olhos como chamas de fogo, que fica triste quando não faço o que Ele quer. Esqueceram (ou não sabiam) que Ele é amor, amigo, príncipe da paz, maravilhoso, conselheiro. Também não me disseram ou não sabiam que "o perfeito amor lança fora todo medo". Ocorreu que vivi por alguns anos com medo de Deus em vez de temer a Deus. Eu não desaprendi o que me ensinaram, apenas enxerguei outros ângulos do mesmo Deus. E vendo-O descobri, por mim mesmo, que Ele ultrapassa o nosso entendimento e, assim, nEle podemos ser livres. Liberdade não significa a famigerada libertinagem. A liberdade aprofunda a intimidade. Ela nunca se desatrela da responsabilidade, não passa ao largo da conseqüência de nossos atos. O contrário disso é cerceamento, ditadura; é o anti livre-arbítrio divino. Abaixo de pedras, paradoxalmente, sinto-me livre em Deus. Como Estêvão, tenho visto Deus. E como um miserável homem que sou, pecador, tenho descansado na promessa de Cristo que me sugere: "não se turbe o vosso coração". E descobrir os caminhos da graça tem sido um desafio gratificante.


Mas não me preocupo tanto comigo. Sei em quem tenho crido. Quero é falar das pedras que vejo rumo a alguns alvos que estão mais para Pedro do que para Golias
3. E, estando na direção de Pedro, deve ser revisto - com base na proposição de Cristo: "aquele que não tiver pecado atire a primeira pedra". Caso optemos pelo contrário, que fique bem claro: vamos rasgar a Bíblia. Se nos consideramos supercrentes, supersantos, santarrões, ou coisa que o valha, as escrituras deixam de ser sagradas e não fazem mais sentido algum.

Quando, nos meus escritos, cito Leonardo Boff, Rubem Alves, Caio Fábio
[ii], entre outros 'Pedros', alguns leitores invalidam toda a reflexão em função desses nomes. Ora, isso é um absurdo, é desumano, desrespeitoso, feio, nojento. É pecado. Os que assim agem consideram-se mais santos, mais puros, mais dignos? Lamentavelmente, o conselho bíblico para que não julguemos é obedecido segundo os interesses e conveniências de alguns. Infelizmente outros julgam pela condição social e pela nacionalidade. Dia desses conversava com uma pessoa conhecida, músico, que maldizia os músicos que se dispunham a tocar para o que ele denominava grupos ou cantores 'do mundo'. Em contradição, contava, com alegria, ter assistido a uma apresentação de jazz cujo baixista era um 'irmão' famoso. Escutando um programa de rádio cristão, ouvi a notícia - dada com alegria eufórica - de que Jeremy Camp (diga-se, de passagem, excelente músico) fará parte do casting musical de um filme holywoodiano. Aí pode? Notemos, tenhamos consciência de que é um preconceito pensar assim. Ninguém é mais ou menos santo porque usa sua arte. Arte é arte; pode ser um meio de evangelização, mas não necessariamente. Agora, se um bom músico brasileiro comete pecado ao tocar, por exemplo, com Djavan por que não acontece o mesmo se Laboriel, também por exemplo, tocar para Gloria Stefan? O mais deplorável e indignante nisso tudo é que quando 'se converte' um músico secular, o trabalho cristão deste ganha status a partir da sua vida secular. Exemplifico citando o cantor pentecostal Mattos Nascimento - apresentado como um ex-participante do grupo Paralamas do Sucesso. Claro que isso não desfaz a contribuição dele ao Reino de Deus, simplesmente denota nossa contradição discursiva. Alguns cantores de pagode se ‘converteram’ e, no entanto, ficam com o título “fulano de tal, ex-integrante do grupo tal”. Parece que se converter é ótimo, mas é melhor manter o título do tempo em que estava “no mundo”. Isso é mídia, é vender um produto. Um horror!

Mas voltemos aos três ícones citados no parágrafo anterior.


Boff, vem dando uma contribuição inegável à teologia e aos movimentos sociais brasileiros. Tal contribuição independe da vertente política a que ele pertença. Uma coisa é sua contribuição teológica, que ousa questionar as instituições e as cosmovisões cristãs, inclusive mostrando-nos, ainda que de modo superficial, a cosmovisão das religiões orientais. Quanto ao seu interesse em apoiar o Movimento dos Sem Terra (MST), é legítimo. Um cristão que não apóia uma efetiva reforma agrária nem pode querer ir pro céu. Mas, ao contrário, queremos, sim, um canto nas ‘mansões’ celestiais. O que certamente precisamos é de um esquema (no bom sentido da palavra) capaz de dar conta da complexidade desse tema, inclusive que, de repente, não se permita que alguém que nada tem a ver com agricultura venha fazer parte desse movimento. Não podemos negar que há pessoas que se introduzem em movimentos sociais apenas para, digamos, "aproveitar-se", ter benefício com um pouco de sacrifício. Isso tudo, porém, jamais anula o direito de alguém, seja lá quem for, de apoiar o que quiser. Podemos discordar do apoio, nunca sem fundamentados argumentos. Isso, em hipótese alguma, anula sua contribuição à Igreja, à reflexão teórico-teológica e prático-teológica (pois mesmo com alguns cerceamentos não o calam). Suas obras ousam dizer das mazelas e das manipulações que muitos cristãos sofrem ao longo de suas caminhadas de fé, ao serem tratados mais como massa de manobra pelas lideranças do que como membros de um mesmo corpo. Leonardo Boff é o símbolo da resistência profética contemporânea, mesmo que o tentem silenciar ele segue falando, pensando novos pensares.


Rubem Alves não é menos importante que ninguém. Autor de grande prestígio no meio secular, contribui muitíssimo com sua obra que mescla teologia, filosofia, educação e psicanálise, no mínimo. A obra Religião e Repressão é um marco na crítica ao institucionalismo protestante e ao que venho chamando de teologia do medo. Como a igreja-instituição parece ter mais vocação para tornar cativos e não libertos seus membros, a ditadura foi o pretexto institucional para que a igreja protestante pouco se importasse com a saída de um cristão intelectual. Apedrejaram o profeta. A misericórdia de Deus, que excede nosso entendimento, contudo, tem feito com que, mesmo à distância, recebamos suas poderosas histórias e reflexões, capazes de nos fortificarem para mais uma milha. Todas as obras desse autor têm me enlevado espiritual, filosófica e educacional e, enfim, intelectualmente. Como costumamos dizer, Alves tem sido para mim uma bênção. Se hoje ele não faz parte de nenhuma instituição religiosa oficial, como eu; se é contraditório e possui muitos erros, igualmente como eu; se eventualmente apóia algum movimento com o qual eu não concordaria, ainda assim ele tem sido uma bênção. Continuarei lendo-o, à revelia de algum (pseudo)líder evangélico.


O que me arrependo é de ter conhecido Caio Fábio há pouco. Que pena! Perdi de aprender mais. Ele também tem contribuído com o Reino. Suas obras desvelam as mazelas das igrejas (corpo e instituição), do potencial diabólico (acho que não se pode chamar isso de dom)que temos para acusar. Essas coisas incomodam. Um conhecido disse-me: "mas ele adulterou", "ele apóia os homossexuais". Sim, ele cometeu e comete pecados tanto quanto eu. Todos os casados estão sujeitos a cometerem adultérios. A Bíblia registra a história de um homem que cometeu um assassinato para adulterar. E escrevia Salmos. No entanto, enchemos a boca para dizer o que é verdade: ele foi segundo o coração de Deus. Cristo foi mais longe, talvez na tentativa de ver se a gente se conscientizava de que também adulteramos. Apoiar o movimento homossexual, a meu ver, não significa ser homossexual nem fazer apologia a isso. O homossexualismo é um fato social e como tal deveria ser tratado. Significa dizer que se duas pessoas do mesmo sexo decidem ficar e viver juntas devem ser respeitadas. São, acima de tudo, seres humanos. As leis têm base nos fatos sociais e, portanto, precisam alcançar também os homossexuais. Considero que o debate deve tensionar no sentido de se saber o que é apoiar a homossexualidade. Não acredito que a igreja tenha o papel de julgar um homossexual por essa opção sexual. Ela pode, e a meu ver deve, deixar clara a sua opinião quanto ao propósito divino de criar homem e mulher. E, nessa esteira, também deveria dizer porque subestima, inferioriza e oprime as mulheres, ressaltando o demoníaco machismo. Esse, parece-me, é um apoio tão legítimo quanto o apoio ao MST, ou seja, posso optar ou não pelo apoiar. Isso não nega minha fé, tampouco nega minha contribuição para o crescimento do Reino. Muito menos significa não poder mudar de opinião mais adiante.


O pretexto de que esses autores buscam a mídia é uma falácia. Falácia, em primeiro lugar, porque demonstra a mesma intenção em nós de termos a mesma influência que eles têm; em segundo lugar, porque a igreja-instituição, querendo ou não, sustenta-se pelo uso midiático. Livros, Cds de música e de sermões, roupas, eventos em geral, são alguns dos usos cuja finalidade se bifurca entre a sustentação financeira e a proliferação do discurso cristão. Não estou, aqui, entrando no mérito de ser isso bom ou ruim; apenas tentando demonstrar um fato. Poucos são os pastores que não pensam em ter emissoras de rádio e televisão, editar livros e/ou publicar revistas, além de CDs com as músicas cantadas em seus templos. Isso é mídia e todos anseiam por ela.


Os que fazem esse julgamento deveriam clamar por misericórdia. Quem está em pé deveria cuidar para não cair. Conheço muita gente 'faladora' que internalizou e incorreu no erro que mais via como defeito nos outros. Essas pessoas deveriam ler mais a Bíblia e saber que lá, na sagrada escritura, não tem santos. Tem assassinos, beberrões, adúlteros, prostitutas (e prostitutos), doentes, matadores. Todos muito usados por Deus. Há guerras (sem mísseis), conflitos familiares. Lá também houve discursos (sem o God bless you final) e também tem registro de invasão de terras. Há homens piedosos, pobres, ricos. Há festas, muitas festas. Cristo não se tornou menos Filho de Deus por participar de festas, de jantares, por optar ficar perto dos pouco prestigiados socialmente. Não deveríamos imitá-lo? Nossa contribuição social talvez seja bem mais relevante do que optar por lotar templos e fazer um "festerê gospel". Deus é sobre tudo e todos.


O que tenho escutado me parece muito mais com inveja - aquela defendida pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura
[iii], isto é, não ter e não querer que ninguém mais tenha - do que com uma cônscia reflexão crítica sobre dizer/fazer/agir cristão.

As pedras doem, machucam, podem matar. O evangelho é tão mais simples do que o fazemos. Nossa moralidade está acima do querer de Deus. Ela não é de toda ruim, mas não deveria estar acima. Acima, só Deus.


Que possamos ver Deus nas pessoas. Que possamos ler com mais liberdade obras diversas, deixando de lado nossos moralismos, retendo o que é bom.


Ademais, Paulo já sugeria aos Filipenses (4.8):

"tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai".


Esse meu texto não é perfeito, contém muitos erros. Alguns, notarei logo; outros, só com o passar do tempo, na medida em que amadureço. Preciso ter, e tenho, ao menos da parte de Deus, a possibilidade de rever, retomar as idéias defendidas e ir mudando. Noutros momentos, com alguma dor terei de fazer o que Paulo diz: esquecer "das coisas que para trás ficam" e prosseguir para o alvo, "para o prêmio da vocação celestial" (Fp 3.13-14). Ainda bem que esse prêmio não é uma pedra. Imagine chegar na porta do céu e tomar uma pedrada. Seria pra matar...





PS: acabo de escrever este texto e, dois dias depois, ouço a notícia referente ao episódio envolvendo o rabino Henry Sobel (está no noticiário desde quinta-feira, dia 29-03-07). Não vou falar do episódio. Ele, Sobel, é mais importante que o episódio. Se eu pudesse, gostaria de dar-lhe um abraço e dizer-lhe: Deus entende a nossa humanidade.
Que a misericórdia de Deus esteja sobre ele tanto quanto está sobre nós. E lembremos de nos cuidar para não cairmos. Um cuidado, porém, sem neurose.





NOTAS

ILUSTRAÇÃO: para ilustrar esse texto, utilizei um desenho do cuidadoso André Neves feito para a obra “O DRAGÃO DE WAWEL E OUTRAS LENDAS POLONESAS”, de Letícia Wierzchowski e Anna Klacewicz. 2ed. RJ, Record, 2006, p.52
[i] Cito um trecho da professora Jussara Hoffmann que, se não diz tudo, ao menos sintetiza essa palavra. “Humanidade subentende razão, crítica, emoção, intuição, posicionamentos pessoais frente a fatos e ações do outro. Em tudo, há sempre o que nos agrada e o que nos desagrada.” [in Avaliar para promover, 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2002, p. 10]
1Interessante notarmos que, em educação, esse conceito também possui seus defensores. Ao tratar da produção textual, João Wanderley Geraldi, em O texto na sala de aula, editora Ática, propõe que o professor não julgue certo/errado, mas que discorde, concorde, acrescente ou retire algo caso fosse o autor. Sugere, portanto.
2Creio que Deus é transcendente, está sobre todas as coisas. Assim, posso crer que Ele transcende a igreja (na amplitude da palavra - igreja-corpo/igreja-instituição) e usa nossos grandes artistas. Parece-me justo, então, entender aqueles que nos espantam, nos confrontam, denunciam, desvelam, como profetas. A Bíblia não deixou de registrar exemplos de usos fora do comum. A pedra é uma simbologia rica nesse contexto. A poesia transcrita é No meio do caminho, publicada pela primeira vez em 1930 no livro Alguma poesia. Retirei da obra “Carlos Drummond de Andrade, Poesia Completa”, publicada em 2002 pela Editora Nova Aguilar – livro que homenageia o centenário de Drummond, 1902-2002.
3Os Pedros são os que deram, estão dando ou darão importantes contribuições tanto a igreja-instituição como para a igreja-corpo. São cristãos, no mínimo, em potencial. Os Golias são aqueles que devem ser mortos. Não vêm em nome Deus e são, conscientemente, contrários a Deus. Davi mostrou-nos como lidar com esse inimigo.
[ii] Autores com uma extensa obra. Sugiro que se faça uma busca na internet ou que se vá a uma boa livraria que certamente encontrarás alguma.
[iii] Zuenir Ventura, jornalista e escritor, publicou, entre tantos outros, Inveja: mal secreto, pela Objetiva, obra que faz parte da série Plenos Pecados. Na minha opinião, o melhor da série.




1 comentários:

Raphael Rap domingo, abril 15, 2007 5:19:00 PM  

Muito bom texto Levi, realmente tendo a concordar com muito do que acabei de ler...
Desses autores por você citados não li nem Boff nem Rubem Alves espero ter oportunidade de lê-los mais para frente...
Hoje em dia tenho uma certa ojeriza ao que se chama de teologia moderna lendo livros "seculares" se é que assim podemos chamar. Já acompanho por exemplo os textos do Caio Fábio há algum tempo e realmente podemos perceber que muito do que fala pode ser aproveitado, assim como algumas coisas devem ser descartadas...

Infelizmente no meio cristão temos a mania de levarmos a máxima de as obras falam mais altas que palavras de forma literal e prejudicial. Se assim ficássemos a observar nada aprenderíamos...

Recomendo a ti outra pessoa creio que fala bem sobre a situação do cristianismo atual, discordo muito dele mas em outras coisa tenho de dar o braço a torcer, Ricardo Gondim
http://www.ricardogondim.com.br/

No mais, é somente isso, espero estar conversando mais contigo...

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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