[teologia bla-bla-blante] - texto 14


Levi Nauter





No exato momento em que acabo de rever (perdi as contas) o belo filme Um lugar chamado Notting Hill, estou tomando um ótimo café preto, com um saboroso bolo feito pela Lu. Gosto do filme pela trilha sonora (especialmente a que encerra a entrevista e o filme) pela elegância de Grant e pela boca da Roberts; acima de tudo porque fala de livros. Meu assunto não é livros, no entanto. Ando lendo bastante, estudando bastante, porém não vou tratar disso. Esse foi, digamos um mote.
Quero falar de um discurso bla-bla-blante. Uma teologia que me parece igualmente bla-bla-blante.
Estou pensando, ao engolir goles quentes de café, que – para mim – assuntos teológicos ou, como diziam na minha infância, coisas de Deus podem ser muito chatas, massantes. É um saco (perdoem-me a indelicadeza) essa coisa de Deus pra cá, Deus pra lá. Há assuntos para os quais não estou mais disposto a debater. Veio a minha memória o slogan da Philco: “tem coisas que só a Philco faz pra você”. Pois, tem coisas que são só pra se perder tempo. Discussão teológica está me parecendo assim. Mais especificamente, a teologia que vislumbro está longe do senso comum. Em geral, o fundamentalismo cristão, travestido de radicalidade e com aparência bíblica, não aceita o diferente. Então, é perder tempo na discussão. Demais a mais, minha vida cristã não está para chamar a atenção de crentes. Sirvo a um Deus multiforme.
Chamo de teologia bla-bla-blante essa disposição em tentar desmerecer a opinião do outro. Há um afã no fundamentalismo, um verdadeiro tesão em dizer e fazer valer, a qualquer custo, a sua palavra. Palavra recheada de “eu”. Um “eu” vazio buscando fortaleza nos chavões, nos “eu determino” ou “eu não admito isso” ou “eu sou o pastor” (leia-se eu quem mando); em suma, uma reedição da temática já bem abordada pelo antropólogo Roberto DaMatta, sintetizada na famosa frase “sabe com quem estás falando?”. Síntese também da teologia do medo.
E é bla-bla-blá porque nada acrescenta e torna-se irrelevante, porque não quer dialogar, porque não aceita contraponto, porque não admite paralelos. É bla-bla-blá pois propõe-se salvadora do mundo e sanadora de todos os problemas da humanidade. Pior de tudo, quer pasteurizar, tornar uníssono o que é ou pode ser plural. É bla-bla-blá porque não pensa, apenas vai na onda. E falo mal dela por experiência própria. Já fui adepto da salvação english; por um bom tempo achei que só os “gringos” possuíam talento – aos do sul fora dado o dom de interpretação de línguas, começando pela tradução das músicas e, num segundo momento, pela de livros. Nessa experiência que não nego, mas da qual não tenho nenhuma saudade, tudo deveria acabar com palavras do tipo gospel, mission, bless, yes. Esse tempo foi-se, graças a Deus e ao Guimarães Rosa, ao Machado, ao Graciliano Ramos, entre tantos outros 'evangelistas' da brasilidade. Descobri que não nasci por acaso num país de terceiro mundo, agora dito ‘em desenvolvimento’. Minha teologia parte da minha realidade para dialogar com outras realidades, e não o contrário. Não quero simplesmente adaptar-me ao norte.
Minha teologia não nega – sob nenhuma hipótese e sob nenhum pretexto – a soberania divina. Apenas não aceita o senso comum, o fatalismo, o discurso fácil fora da realidade. Minha teologia não é marqueteira, ou seja, não fico contando quantos se converteram enquanto eu falei; não digo quantas vezes oro por dia, se jejuo ou não; não considero o outro como um número no rol de membros ou no rol dos ‘desviados’ (palavra desgraçada). Ah, não tenho o dialeto, não fico pateteando com os ‘tá amarrado’, ‘foi tremendo’, ‘meu amado’, meu isso-meu aquilo, nem com ‘o Senhor é isso dessa ou daquela cidade’. Também não perdi tempo fazendo o ‘mapa astral’ do lugar onde moro, muito menos para o belo lugar onde logo vou morar.
Minha teologia não é humanista, mas tem ligação com o humano porque é feita de gente e porque Deus se fez gente. Deus não se fez de tolo para ganhar tolos; fez-se de gente para ganhar gentes. Sou um cristão genteficado. Humano, pecador, carente de companhia, carente da misericórdia divina. Ela, por outro lado, não tem medo. Pouco se importa com o que dizem. Ela é livre, não está atrelada a templo, não está gessada, amarrada, atada. Sim, minha teologia está livre de frases feitas e de efeito. Vivo na dependência divina. E não há lugar melhor para estar.
Portanto não discuto mais com fundamentalistas, com fatalistas ou quaisquer tipos cuja intenção seja converter-me. Estou pronto, sim, para o diálogo, para a conversa, para compartilhar as maravilhas divinas. Contudo, não para concordar e ser concordado. Para ser respeitoso sempre, conivente às vezes. Em vez de discutir, vou ler, ouvir música, namorar minha esposa, passear, assistir a um bom filme e, creiam-me, conversar com descrentes.
A teologia bla-bla-blante só pinta o diabo. Vê Deus onipotente e tudo o mais que cause espanto, medo, receio, ressalvas. Esquecem-se do Deus-amor, do Deus que alivia o fardo e suaviza o jugo. A teologia bla-bla-blante é farisaica. A teologia bla-bla-blante possui pedras na mão para atirar.
Prefiro a teologia que dialoga. Cristo, basta ler a Bíblia, sempre dialogou mais. Foi incisivo quando necessário, chorou, riu, participou de festa, lia, conversava. Não tinha, diga-se logo, jeito machista.


A melhor notícia dos evangelhos é a graça. Talvez uma outra tão boa quanto essa seja a ausência de placa denominacional. Ufa!
NOTA
A ilustração foi feita por José Francisco Borges para a obra As palavras andantes, de Eduardo Galeano, 5.ed., 2007, publicado pela L&PM.

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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