URUCUBACA - levi nauter


URUCUBACA[1]

Levi Nauter

Eu nunca fui muito crente. Cria e creio num Deus, evidentemente, mas não nesse difundido pela mídia gospel, tampouco nesse que vem se perpetuando pela tradição. Sempre tive grande dificuldade em acreditar na mandingomania existente nos templos evangélicos, especialmente nos neopentecostais (os pentecostais, digamos, clássicos tiveram de apelar pra não perderem a freguesia). Copo com água, pozinho santo; óleo disso, óleo daquilo são pífios exemplos de um vasto exemplo catálogo de enganação que tão de perto nos rodeia. A coisa tomou uma forma que, às vezes, parece um erro não acreditar nessa papagaiada. Outro dia passei na frente de um templo esteticamente feio (feiíssimo). Nele, uma faixa ‘encascurrada’ sugeria: “participe de sete quartas-feiras da vitória e ganhe sua causa impossível”. Que deus chinelão que dá bênçãos impossíveis e não arruma a própria casa?

Eu não acredito nisso. Acredito na racionalidade, no culto racional. Creio na inteligência, na cultura, na informação, no conhecimento, na ciência. Uno-me ao John Stott: crer é pensar. Ser cristão é ser humano, é acreditar que quanto mais humano mais perto de Deus vamos ficando. Ele se fez humano vindo ao nosso encontro, salvando-nos – como diria o Elienai Cabral Jr.[2] – da perfeição.

Por que estou escrevendo? Porque a tal mandingomania ultrapassa o evangelho. Aliás, uma reflexão até superficial revelará que o ‘evangelho’ tomou posse do mundo e não o contrário. O que era ‘despacho’ na esquina tomou forma gospel e está mais profundo: foi para dentro das casas. A rosinha que eu via junto com a bala de banana, na infância, tornou-se a rosa ungida, por exemplo. Trabalhei numa escola onde, certa vez, num despacho, uma cruz feita com sal causou frisson. A diretora chamou um pastor a fim de “desmanchar a coisa ruim”. Hoje irmãos em transe (ou querendo transar) cruzam no corredor de sal (olha a frieira!). Ouvi muito sermão contra a música do ‘mundo’, louvava o diabo e não a Deus quem a escutasse. Agora, num dia da semana, irmãos e irmãs – agarradinhos – louvam-se ao som da chata Celine Dion ou da protuber(r)ante Mariah Carey. Um vídeo da Colbie Caillat ou da Corinne Bailey Rae seria muito mais interessante; o clima pintaria mais rápido. E um do George Michael?

Agora eu tenho uma filha. A linda Maria Flor tem-me feito um pai muito feliz. Ao mesmo tempo, estou descobrindo outras crenças, a das velhas senhoras, devotas da benzedura e das simpatias. No ambiente fundamentalista em que me criei não havia tais conhecimentos.

Conversei sobre a bebezinha não evacuar. “Dá leite de vaca, virá uma diarréia fenomenal e resolverá o problema”.

- Ah, ela também não ta dormindo direito à noite – disse curioso pela resposta.

- Pega uma camisetinha dela, vire ao avesso e pendure na porta. Pode fazer que funciona.

Fiquei abismado. Mais de uma pessoa me falou a mesma coisa. Nunca ouvira aqueles conselhos/receita. Também pudera, nunca tive filhos.

E mais receitas:

- a filha tem soluço? Pegue ‘pluminhas’ da roupa dela, faça uma bolinha; em seguida, com a língua, faça o sinal da cruz na testa da criança e coloque a bolinha lá (na testa, claro). Nunca testei a receita, só o tempo para a confecção da bolinha somado ao tempo de escovação pré-sinal-da-cruz já fazia o soluço fugir.

Recentemente comentava que minha filha, com três meses, estava rindo pra caramba; dava uns gritinhos dignos de muitos beijos paternos e maternos. Parecia-me, confessei, que ela queria dizer algo. O que oujvi?

- ache um pintinho e coloque-o a piar na lingüinha dela. Ele tornar-se-á uma tagarela.

Outra amiga; mais receitas. “Ela tem enjoos?” Sim! “Quando ela ficar maiorzinha, dê um pouquinho de sal num pacotinho para ela por no bolso. É tiro e queda.”

Não fiz nem nunca farei esses procedimentos. Prefiro seguir o conselho da nossa pediatra. Também me parece mais coerente acreditar que há uma espécie de ciclo vital (ou algum nome mais adequado) sob o qual nós estamos sujeitos, pouco importa a idade que temos: fomos crianças, adolescentes, jovens, adultos novos e adultos velhos (ou idosos). Acho importante que essas fases sejam inexoráveis, concordemos ou não com elas.

Em termos cristãos também sou cético à mandingomania. Creio num Deus milagreiro, creio na possibilidade de milagres. Mas descreio das pessoas que se acham abençoadoras e milagreiras. Discordo dos amuletos (mensagens ‘poderosas’ gravadas em DVD ou CD ou publicadas em livros do tipo Como tomar posse da bênção). Desconheço um Deus que me retribui segundo meus 10% ou coisa parecida. Esse Deus não merece minha confiança, prefiro o Deus incondicional. Descreio ferrenhamente da unções de qualquer coisa: do boi selvagem, da vaca, do leão, do porco. Quem me garante que não vem daí a doença da vaca louca, bem como da gripe suína? Em síntese, incomoda-me a fauna e flora gospel.

Sobra-me crer na vida que Deus me deu para viver intensamente. Acordar pela manhã, ir trabalhar, ser honesto, justo e responsável. Resta-me crer que Deus dá sabedoria à ciência médica, aos homens e mulheres que não têm estudo mas têm experiência pela vivência in loco. Nalguns momentos acredito e noutros desconfio da ciência jurídica e, pior ainda, na política. Contudo, creio na política da boa vizinhança. Creio piamente no respeito ao outro – independentemente da cor racial, sexual ou religiosa. Creio num Deus que é soberano sobre tudo e que não larga uma bomba e manda um avião atrás com alimentos.

Creio em um Deus que optou por dar-me o livre arbítrio.

Creio em um Deus que gosta do belo (não de ouvir o pagodeiro).

Creio num Senhor que odeia, como eu, a urucubaca.





NOTA

A ilustração é de John Astrop para o livro Diário de um adolescente hipocondríaco, de Aidan Macfarlane e Ann McPherson, publicado pela Editora 34.



[1] Texto escrito num quarto silencioso e digitado ao som do maravilhoso Michael Bublé e seu CD “Meets Madison Square Garden”.

[2] Salvos da perfeição, editora Ultimato. Obra do blogueiro Elienai Cabral Junior.

5 comentários:

Camila {Metamorfoseantemente} segunda-feira, julho 06, 2009 11:07:00 AM  

Bah, Levi. Por essa da bolinha de "pluminhas" a Chloe infelizmente passou. Obra da "fé" de uma senhora piedosa, irmã lá da Assembléia de Deus, em um momento em de soluços da Chuchu. :/
Quando vi aquilo, fui logo limpando, ao que fui rapidamente repreendida pela tal senhora.
Felizmente a filha é minha. :)
Admiro tua paciência em ouvir tanta bobagem e não mandar longe.

Levi Nauter segunda-feira, julho 06, 2009 4:49:00 PM  

Oi Camila,

Que bom que apareceste. Já estava com saudade.

Bom, não é uma coisa fácil aguentar tanto tititi. Mas sinceramente acho mais fácil ouvir do que ficar discutindo ou mandando longe. Ouço, elas e eles acham que eu acredito e seguimos, eu, a Lu e a Flor a nossa vida.

Ouvi de cristãos evangélicos, católicos e de gente que acredita "em um ser superior".

Só rindo pra aguentar.

Abraços,

Levi Nauter

Danilo Fernandes quinta-feira, julho 09, 2009 3:32:00 AM  

Ola Levi!

Otimo texto. A coisa está braba mesmo na Igreja de Jesus.

Pensamos parecido. Voce é polido. Quizera eu. Tenho é partido para o esculacho no combate a estes vendilhoes da fé.

Abs

Danilo

http://genizah-virtual.blogspot.com/

Suênio Alves quarta-feira, agosto 05, 2009 12:02:00 PM  

Ótimo texto...
revoltante a situação atual...abrass

Levi Nauter quarta-feira, agosto 05, 2009 4:14:00 PM  

Obrigado Danilo e Suênio pela leitura de meu blog. Fique por aí, continuem lendo e comentando.

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Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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