sem marcas

Levi Nauter


A cada texto que escrevo fico na expectativa de o que me sobrevirá. Geralmente sou contestado devido à ousadia (nem tanto assim) de, do meu jeito, questionar uma série de coisas  nem tão evangélicas dentro dos templos evangélicos. Nessas ocasiões, meus críticos lançam mão de diversas táticas a fim de meterem medo ou, pelo menos, fazerem daquilo que escrevo algo inócuo. Há, ainda, os que não me leem para não se contaminarem e muito menos para se desviarem dos 'propósitos'.
Mais surpreendente tem sido ler que sou pouco propositivo. Critico bastante, dizem alguns leitores, e proponho muito pouco. Houve até quem me sugerisse escrever somente aquilo que eu gostaria de encontrar numa igreja. O que me traria de volta para a igreja? O que me faria dar um fim no meu 'desviamento'? O que não me deixaria mais ficar parado? Noto, a partir de tais observações, que muito pouco dos cristãos que me leram entenderam minha proposta. Tudo vem corroborar minha perspectiva quanto ao leitor: a compreensão, bem como a interpretação de um texto depende das crenças (da cultura), da cosmovisão, do leitor. Ou seja, o que eu digo ou o que eu acho parte de algum lugar e nem sempre (quiçá nunca) será compreendido.
Ora, quando critico a igreja não significa desrespeitar os 'igrejeiros'. Mas significa que aquilo que estou narrando incomoda-me na igreja. Portanto, a leitura por trás do texto é a negação daquilo dito. Por exemplo, quando digo que o louvor musical brasileiro está australiano significa dizer que eu gostaria de cantar samba, choro ou bossa em vez de, como um papagaio, repetir os chamados the best (coisa que eu não acho que sejam). Se digo (e faço seguidamente isso) que as mensagens dos televangelistas estão mais para auto-ajuda que para bíblicas parece-me óbvio que gostaria que elas tivessem mais profundidade e conteúdo. Mas ai de quem ouse criticar Silas Malafaia, RR Soares, Juanribe Pagliarin, entre tantos e tantos outros que existem e, certamente, surgirão.
Não faço isso por vingança. Não tive uma decepção com algum líder. Minha relação com as pessoas das denominações por que passei (duas, no total) é como deve ser: respeitosa. Procurei contribuir enquanto por elas estive; chegou um momento, porém, que as dicotomias eram tais que tive de tomar decisões. Considerei muito melhor sair a causar danos, servir de tropeço para recém nascidos na fé. E não me arrependo. Fui tachado de tudo que se possa imaginar. Ouvi até palavras de baixo calão de alguns (pseudo)líderes – gente que, sem temor, acha-se no direito de bradar: “eu te abençoo”, “eu te dou a bênção” - como se tivessem poderes divinos.
Já recebi propostas as mais diversas de retorno. O problema é que ou eram calcadas em valores ('não tá afim de tocar na igreja nova que estou montando? Dá um troco bom) ou no medo (se você não vem pelo amor, virá pela dor). Cansei disso. Às vezes penso em retomar o caminho da institucionalização; é mais fácil. Também penso em achar um lugar para conviver com outros cristãos, principalmente quando penso na minha filha. Ainda considero que o cristianismo é uma boa opção de crença, possui um bom padrão moral e ético. Hoje, meu retorno teria tudo a ver com cristianizar minha filha. Não tomamos (eu e a Lu) uma decisão sobre isso ainda. Questiono a mim mesmo se seria proveitoso perder a liberdade que tenho no momento. Sim, porque a instituição – a fim de sobreviver – tira a liberdade de seus fieis e põe-lhes, tocando as culpas em Deus (“a obra é Dele”, “Ele vai te abençoar” e bla-bla-blá...), compromissos: frequência, participação em eventos e contribuições financeiras. Se é verdade o que já me disseram, ainda não estou morto o suficiente para ser cristão verdadeiro.
Por ora, quero é não cair nesse engodo midiático-cristão que aí está. Não tenho nenhuma instituição, não defendo nenhuma ideologia dessas que trazem slogans de efeitos (Deus é fiel, p.e.). Minha única dependência é de Deus. Meu maior compromisso aqui na Terra é viver dignamente e buscar proporcionar isso à minha família – minha filha e minha mulher – e, em seguida, aos meus pares humanos.
E se posso pedir algo aos poucos que me leem: não distorçam o que escrevo. Leiam nas entrelinhas (que é onde eu prefiro dizer mais), leiam os outros textos (todos, de preferência). Mas não distorçam. 
Esquadrinhem-me, mas com misericórdia.

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Maria Flor

Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


"Viver é escolher, é arriscar-se a enganar, aceitar o risco de ser culpado, de cometer erros" [Paul Tournier]

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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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  • PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS PERFEITAS, de John Burke
  • OS DESAFIOS DA ESCRITA, de Roger Chartier