[bobagens cristãs] – texto 6

Levi Nauter




“É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada” – Rubem Alves



Para brindar o encerramento das férias, fizemos uma janta especial. Eu e a Lu saboreamos um delicioso peixe assado com verduras dentro, uma ótima salada de rúcula, um gostoso pão francês com gergilin e, para molhar tudo, para ‘ungir’ tudo, um maravilhoso vinho tinto. Que janta!
Na pós-janta pensei duas coisas importantes. A primeira foi um retrospecto de minha vida de trinta e dois anos. Fui criado num ambiente pseudocrístão, muitos dos conceitos que me tentaram incutir estão caindo por terra. O mundo não era e não é tão redondo e certinho como supunham. Depois, ousei sair de uma denominação ferrenhamente pentecostal (porque briga por esse título), cuja hierarquia pressupõe uma obediência cega a um único mandante. Fui para outra placa. Apenas mudei de endereço: os mesmos problemas, os mesmos anseios, os afãs pelo cifrão pouco mudaram. Decidi sair, por ora, de todo tipo institucionalizado.
Nessa esteira de pensamento, fiz uma comparação Deus versus Igreja-instituição. Uma apenas, um vinho não nos deixa pensar muito. A igreja, obviamente que representada por seus líderes ou formadores de opinião (em geral, famílias tradicionais. Oh lugar pra ter briga de família), sempre me acusou de amaldiçoado. Claramente afirmava: “quem não dá dízimo está debaixo de maldição”. Ainda bem, não dei ouvido a essa balela. Também nunca me deixei ser ungido nas vezes em que optei por dizimar – acho válido o texto bíblico que sugere discrição, Mt 6.3. E Deus? Pois, Ele nunca me considerou um maldito. Com Sua ajuda e nosso esforço, a Lu formou-se em História; eu, em Letras. Certamente com a ajuda divina adquirimos um bom terreno numa cidade com cara de interior, e tudo está pronto para a construção. Ainda com a ajuda daquele que É, mesmo com um salário distante ao de muitos ‘obreiros’, consigo adquirir livros e CDs. Nunca vi uma maldição dessas. Estar amaldiçoado assim não parece ser uma mal negócio.
Não estou numa igreja formalizada, mas, que fique registrado, tenho um contato constante com os formalizados, com os que seguem a cartilha denominacional, com os rickwarreanos – adeptos da visão mercadológica das mega-igrejas, com os que acham que um lugar no céu é garantido com dez por cento ou com a apresentação da carteira de membro e/ou com a lista de presença nas reuniões, bem como mediante a apresentação da camiseta que se vestiu ao longo da caminhada cristã. Ao mesmo tempo, e também se registre, falo com os decepcionados com a graça, com os que ousam questionar os medalhões, com os que, graças a Deus, não ganham da instituição e, portanto, não aceitam cabresto.
Isso quer dizer que não vou topar desaforos de pessoas institucionalizadas que querem impor a teologia do medo. Encontrei um líder igrejeiro que só não me pôs no inferno ou na cruz porque não é possível. Isso não é pra qualquer um. Questionou como eu iria para o céu, se Cristo voltasse hoje, já que não dou dízimo e não congrego. Questionou se sou ou não salvo. Disse que Deus exige que eu sirva numa igreja, ao que discordei obviamente. Em síntese disse que eu poderia me considerar no inferno e encerrou sugerindo: “se quiseres conversar e voltar, estou à disposição”. Poupe-me, pensei. Por ironia, estávamos conversando (na verdade eu estava sendo pressionado, contra a minha vontade) num grande hipermercado, estava em frente a uma prateleira de DVDs. Enquanto tentava escapar do sufoco peguei um DVD na mão e tasquei: “vou ao encontro da Lu, ela deve estar preocupada”. Ufa, que alívio! Qual era o DVD? Pet Shop Mundo Cão, do Zeca Baleiro. Santa ironia.
A segunda coisa que pensei foi como um vinho pode ser bom. Dormi que foi uma beleza. A teologia do medo não colou. As férias foram ótimas, o ano promete e não me sinto nenhum pouco amaldiçoado. Ao contrário, nunca me senti tão dependente de Deus que tem sido maravilhoso comigo. Não recebo profetadas e continuo guiado por Ele. A instituição precisa rever alguns conceitos. Urgente.

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Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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