[outra vez minha mãe] – texto 11

Levi Nauter




Escrevo agora esta carta de tristeza, de saudade e de dor, mas não de desespero.
Paulo Freire






Minha mãe está outra vez na pauta da minha vida. E assim continuará, imagino, até a minha morte, quando espero reencontrá-la. Então, “nos olharemos, nos abraçaremos, falaremos de mil coisas desconexas, mas com sentido” (Freire, 2001, p. 291). Será um privilégio compartilhar para sempre nossas vivências.
Enquanto esse dia não chega vou vivendo nesse mundo com as belas lembranças que dela herdei. Sempre ouvi pessoas dizerem: “aproveite tua mãe, um dia ela não vai estar no mundo e você vai ver”. Agora tenho sentido isso na pele. É bem estranho ver comerciais de TV. Por dois motivos: primeiro, porque apenas mulheres bonitas, novinhas, sem rugas e, no entanto, com dois ou três filhos; segundo, porque vejo cenas que vivi e outras que poderia ter vivido. Mas, na verdade, o que mais sinto é saudade. Quando ouço a música-tema de um certo comercial (to louco pra te ver chegar/to louco pra te ter nas mãos) meus olhos ficam lacrimejantes. A saudade dói. Porém, a vida segue, ou deve seguir. As lembranças têm sido um ponto alto nesses meses.
O grande desafio é seguir em frente apesar das lutas e das perdas. Mais desafiador ainda é seguir de forma criativa. A criatividade parece não negar nosso passado, apenas torna-o alavanca, escada, para um novo momento, uma nova chance, uma nova leitura da vida. E ler mais de uma vez o mundo e a palavra vai-nos capacitando para, digamos, ganharmos mais corpo, mais força, a fim de (re)interpretarmos nossa vivência, tornando-nos aptos a reescrevê-la. Assim é que a criatividade ressuscita-nos torna-nos ativos, mais úteis aos que estão por perto. Esse tem sido meu esforço.
Fui criado num ambiente bastante religioso, numa teologia fundamentalista – aquela que proibia tudo, do tipo não podia-se: usar bermuda, usar barba, cabelo comprido, ouvir ‘música do mundo’ (entenda-se não cristã), olhar TV, entre outras diabólicas proibições; às mulheres, coitadas, a proibição estendia-se até que quase negassem o ser gente. Um evangelho desgraçado, sem nenhuma Graça. Deus era uma coisa, um estraga-prazer, afinal, eu precisava ser de um outro mundo. Achava Deus um ser injusto que me colocara num terrível lugar para, do céu, me controlar, ver se eu era forte e dava conta do recado. “Deus é um masoquista”, pensei muitas vezes, “gosta de ver gente sofrer”. Quão longe estava do Deus que hoje conheço.
Vi minha mãe em meio a muitas agruras. A vi chorar algumas vezes. Em inúmeros momentos ouvi a explosão de alguém sufocado pelo machismo, além do sufoco das contas a pagar. Palavrões e palavrinhas vinham à tona, tudo era, por um instante, verbalmente metralhado. Sem ter consciência, estava aprendendo com aquelas situações.

Quanto mais me volto sobre a infância distante, tanto mais descubro que tenho sempre algo a aprender dela. Dela e da adolescência difícil. É que não faço este retomo como quem se embala sentimentalmente numa saudade piegas ou como quem tenta apresentar a infância e a adolescência pouco fáceis como uma espécie de salvo-conduto revolucionário. Esta seria, de resto, uma pretensão ridícula. (Freire, 2003, p. 37)

Agora casado, mais maduro, estou notando duas influências importantíssimas que ela exerceu sobre mim e nem soube. E o bom de ela não ter sabido foi que o ensino/influência se deu naturalmente, com tranqüilidade, com paz, sem pressões porque foi vivência pura. Penso que às vezes a influência consciente pode ser maldosa, com intenções implícitas. Não foi esse o caso. Minha mãe nem teve instrução suficiente para tal percepção. O que ela teve foi, no dizer de Paulo Freire, “um saber de experiência feito”. A vida a ensinou.

Na nossa casa havia apenas um aparelho radiofônico que, inevitavelmente, era sintonizado em emissoras que apresentavam notícias ou transmitiam programas religiosos (predominantemente evangélicos). Os discos (na época LP’s) eram todos religiosos. Meu mundo girava em torno disso. Um dia, porém, numa santa data, minha mãe apareceu em casa com uma sacola cheia de gibis e uma televisão velha – presente fruto de uma faxina.
Quase apanhou. Teve de devolver ou doar a TV e consumir com os livrinhos. Estupefato, consegui salvar um exemplar. Quanto à televisão, nada pude fazer a não ser lamentar e continuar tenho que assistí-la nos vizinhos. Mas a leitura do gibi foi-me fascinante. Imagino que senti um pouco do que Paulo Freire sentia: “as palavras eram como se fossem pedaços de comida” (Freire, 2003, p. 40). Coloquei, com muito zelo, o gibi embaixo do meu colchão e fui dormir lembrando da frase que dava início à próxima cena: “cai a noite em patópolis”. Nota-se, creio, que a primeira influência tem a ver com livros e leitura; a segunda, com música.
A influência musical da mãe só foi percebida por mim agora, nesse ano. Num dia desses estava fazendo alguma coisa em casa, o rádio ligado, e, de repente “as praias do Brasil ensolarada.../eu te amo meu Brasil, eu te amo”[1]. Fiquei maravilhado e pensando: “só um minutinho, isso minha mãe cantava”. Alguns dias depois escutei “quanto riso/oh, quanta alegria/mais de mil palhaços no salão/olha quem está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão”. Que coisa linda! Minha mãe cantava Zé Keti[2]. Meses adiante, tentando encontrar um canal de televisão que valesse a pena assistir, passei por um que homenageava um cantor: “pare de tomar a pílula/pare de tomar a pílula...” – mais uma das que a mãe cantava. Odair José fazia parte da musicalidade de dona Ilse Nauter. E não faltaram os “nana nenéns”.
Comecei a entender por que, às vezes, preferia o pai fora de casa: era justamente o momento no qual eu sintonizava o rádio em uma emissora que tocasse uma música diferente. Era o instante em que eu poderia exercer ou dar vazão a minha curiosidade.

Talvez venha daquela fase, a da infância remota, o hábito que me acompanha até hoje, o de entregar-me, de vez em quando, a um profundo recolhimento em mim mesmo, quase como se estivesse isolado do resto, das pessoas e das coisas que me cercam. Recolhido em mim mesmo, gosto de pensar, de me encontrar no jogo aparente de perder-me. (Freire, 2003, p. 38)

Os livros têm sido importantes na minha vida. Os gibis, demonizados na minha infância, foram crescendo, expandindo e se contextualizando; da leitura simples, estou partindo para a mais profunda, mais complexa, com mais vagar e significação. Deus não é mais um estraga-prazer. Nunca foi, apenas não sabia disso. As leituras ensinaram-me a não separar o mundo espiritual do meu cotidiano, ou seja, pouco importa o que leio, em tudo há uma dimensão humana e espiritual. Sinto-me mais perto de Deus, algo impensável na minha infância. Hoje entendo, embora não concorde, com as proibições relativas à leitura. Ler tira-nos do lugar comum, torna-nos mais questionadores e, talvez, mais aptos para melhor nos expressarmos. A leitura deixa-nos incômodos. Pois, hoje, ler “Nas garras da graça”, de Max Lucado, levou-me até “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski: Deus. Quando li “Desventuras da vida cristã”, de Yancey e Stafford, fui para o mesmo lugar de “O processo”, de Kafka: a ingratidão e a misericórdia divina. E ao observar um cristão fundamentalista e/ou machista lembro de “Dom Casmurro”, do célebre Machado de Assis. Um evangelista ou um missionário, por sua vez, lembra-me de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, do instigante Lima Barreto. E poderia continuar exemplificando.
Por outro lado, a música cristã e a não-cristã, ambas, sim, do mundo, têm sido cortina sonora para receber amigos, para embalar minha pequena produção, para esquentar o namoro com minha esposa, para meus protestos e momentos menos serenos. Compreendo as razões, embora com elas também não concorde, por que me proibiam de ouvir, entre outros, Legião Urbana, Titãs, Ira e, antes deles, Raul Seixas. Eles também inquietaram os calmos fiéis igrejeiros, questionaram o consumismo da fé. A música secular amplia horizontes. Todavia, hoje não tenho nenhum pudor em dizer que “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Também entendo a brabeza de alguns com o título de um bom disco: Jesus não tem dentes no país dos banguelas (Titãs).
Descobri uma brasilidade na minha mãe, razão pela qual insisto que nossa religiosidade deveria ter mais a nossa cara. Somos um país rico em recursos e belezas naturais, temos uma miscigenação de seres humanos e, conseqüentemente, cultural. Não obstante, pouco aproveitamos desse peculiar potencial. Nossa religiosidade deveria valorizar mais o que é daqui e menos o que é de lá (do exterior). Precisaríamos mergulhar mais obra de um Guimarães Rosa para entender que quanto mais ele se embrenhava na brasilidade mais universal se tornava. E esse meu pensar começa com a semente que minha mãe plantou, ratifico, sem perceber.
O resultado da convivência com a mãe, entre muitas e muitas coisas, levou-me a ser um leitor compulsivo, bem como um apreciador da boa música. Não saio de casa sem algum exemplar para ler, nem fico um instante sem ouvir música. Aprendi a tocar bateria, violão e a cantar. Aliada a essas aprendizagens está a efetivação de minha autonomia, o que me permite ampliar ainda mais as leituras, as audições, além de confrontá-las com uma diversidade teórica existente. Está também a companhia de pessoas, inclusive pelo instrumento pós-moderno chamado internet. Meus horizontes alargaram-se. O véu que me separava de Deus já não separa mais. A implicação desse véu em mim tem sido traduzido por respeito às diferenças e no aproveitamento daquilo que é bom e inefasto. Posso dizer que vejo Deus no meu trabalho, na minha casa, pelas ruas, num bom bate-papo, num bom filme, numa boa música, num bom livro, num bom passeio, no lembrar e/ou imitar aquelas pessoas que sempre agiram para o bem de muitos e mantiveram a necessária coerência entre a prédica e a prática. Mas também vejo Deus naqueles que não têm vergonha de mudar de opinião, por terem o entendimento de que o mundo está em construção. Igualmente, Deus resplandece naqueles que humildemente reconhecem os próprios erros e, contudo, querem continuar na caminhada. Acredito sobremaneira num Deus que conhece as minhas falhas humanas, os meus desejos mais secretos ou não, nos meus anseios e medos. Creio num Deus que se fez humano para me entender, e isso faz toda a diferença durante as minhas preces. Num Deus-Pai que ultrapassa o meu entendimento e me dá infinitamente mais do que aquilo que peço ou penso.
Finalmente, para rebater o machismo, imagino que o Todo-poderoso deu-nos a mãe para que tivéssemos uma idéia do seu cuidado. Mas preveniu que “mesmo que uma mãe viesse do seu filho se esquecer, ainda assim não haveria de me esquecer de ti”. Acho que Leonardo Boff tem boas razões para ter tentado pintar, ao longo das páginas de sua obra, “O rosto materno de Deus”.


Se eu pudesse, diria à mãe que ando querendo cantar “pare de tomar a pílula” para minha querida Lu. Como não acredito em reencarnação, mas em ressurreição, talvez um dia eu possa concretizar o que posso ler em Freire (2001, p. 291/292):

Riremos juntos, relembrando tantas coisas. Tem de ter riso de criança, flores de muitas cores, um arco-íris bem bonito e passarinhos cantadores. Só depois deste momento necessário falaremos lentamente, mas nunca friamente, do que temos feito, do que estamos fazendo e do que pensamos fazer.

Enquanto isso, vou vivendo lembrando que “belezas são coisas acessas por dentro, tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”. Viva Caetano! “Palma para todos os instrumentistas” (Paratodos, de Chico Buarque). E os livros? Leiamo-los ou “por odiarmo-los podemos simplesmente escrever um” (trecho de Livros, de Caetano Veloso).
A vida deve seguir, se possível com criatividade; “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo” (Aprendendo a jogar, de Guilherme Arantes).

Vivam as mães!!!







NOTAS

ILUSTRAÇÃO de José Francisco Borges para a obra As palavras andantes, de Eduardo Galeano, 5 ed., L&PM, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Araújo Freire (org). São Paulo: Editora UNESP, 2001.

FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina: reflexões sobre minha vida e minha práxis. Direção, organização e notas Ana Maria Araújo Freire. 2.ed.rev. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

[1] Os incríveis. Leiamos um trecho: “as praias do brasil ensolarada/lalalala/elevou o amor que deus criou/lalalala/em terras brasileiras vou cantar amor/eu te amo meu brasil, eu te amo/meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
[2] www.mpbnet.com.br/musicos/ze.keti/index.html

OUTRA VEZ MINHA MÃE porque já escrevi outros textos sobre ela:

1- http://levinainternet.blogspot.com/2005_10_01_archive.html : Estou vendo a morte

2- http://levinainternet.blogspot.com/2006_01_01_archive.html : Meu coração está preto

3- http://levinainternet.blogspot.com/2006_12_01_archive.html : Daqui a pouco fará um ano

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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