GRAVIDADE 4 - a música para criança

Levi Nauter







Ontem, 12 de outubro, foi um dia atípico para mim e para a Lu. Grávidos, resolvemos passar o dia ouvindo música infantil. Adriana Partimpim, Palavra Cantada e grupo Cuidado que Mancha fizeram parte das audições. Um dia antes, assistimos ao programa Vitrine (TV Cultura) que entrevistou Paulo Tatit e Sandra Peres, as, digamos, cabeças pensantes do Palavra. Tanto o canal já citado quanto a TV Brasil montaram uma grade de programação bem interessante no dia dos pequenos. Foi um momento especial. Treze anos de casado, ansiando por esse momento. Enquanto acarinhava a barriga que se sobressai na Lu ouvíamos a peça 'A família sujo', do grupo Cuidado...

Parecia que estávamos num teatro, com nosso filho ou nossa filha. O CD da Adriana rodou pelo menos duas vezes e nós dois catávamos como se estivéssemos num estádio de futebol – sabíamos todas as letras e cantávamos eufóricos. O Brasil é ótimo e os nomes citados (provavelmente existem outros poucos, mas não os conheço) cantam letras inteligentes.


Nossa alegria durou pouco. Por volta de onze da manhã uma igreja perto da minha casa anuviou o dia ensolarado cuja brisa saudava-nos diretamente no rosto. A partir desse momento uma tristeza começou a tomar conta de mim. Até aquele momento ouvira músicas bem pensadas, ouvira uma arte de essência. Porém naquela hora eu e meus vizinhos fomos obrigados a esquecer a criancice, tivemos de largar a poesia infantil, o lado bom de ser criança. E óbvio que não digo isso por desdenhar o papel da fé nos babys. Também não digo isso por achar que as crianças não mereçam um dia pensado de maneira mais estratégica. Falo justamente porque elas merecem esse dia. E merecem algo bom, estrategicamente bem pensado e esteticamente belo.

Com a programação da igreja senti-me na Austrália.

Todo o instrumental foi microfonado e colocado na frente do templo. Ou seja, não havia escolha: ou se ouvia ou se ouvia a programação. Australiana.

Nunca ouvi tanta versão do Hillsong United num dia só. Quando pensei que havia acabado a afronta aos pequeninos, começou a sessão Fernandinho. “Eu quero ir bem mais alto...” só poderia instigar as crianças a quererem uma roda-gigante. Num dado momento fui obrigado a fazer uma oração de contraponto: o pessoal cantava “Faz chover” e eu 'orava' “Não faça chover, não dê ouvidos a esse pedido, o dia tá maravilhoso”. Acho que Deus me ouviu. Não choveu.

Minha tristeza foi pelo conteúdo das músicas escolhidas. Completamente fora da realidade dos pequenos. Foi uma insanidade cantar algumas coisas do Fernandinho que nunca foram pensadas no contexto infantil. Um absurdo ter que ouvir guitarras distorcidas tocando, desafinada e descompassadamente, King of majesty. Era um conjunto de vozes e instrumentos que oscilavam entre afinação e desafinação. Mas, tudo em alto volume. Os esquetes eram para 'tentar' ganhar um descrente, nada tinham a ver com o dia da criança. Que pena!

A única música que ouvi que tinha algum sentido era a monótona:

Havia um homenzinho torto
Morava numa casa torta
Andava num caminho torto
Sua vida era torta
Um dia o homenzinho torto
A bíblia encontrou
E tudo que era torto
Jesus endireitou.

Até essa os músicos conseguiram dar uma estragadinha básica. Coitadas das crianças.

Sinto pela minha falta de 'amor', mas bestializaram um dia especial. Eu acho que até Deus estava mais afim de ouvir “Lig-Lig-Lig-Lé” (da Partimpim) ou “Criança não trabalha” (do Palavra...). Mas 'homenzinho torto'...


Algumas mentalidades, pelo que observei, pensam que criança tem de ser um mini-adulto. Não pode brincar, correr, gritar, dançar (a não ser que tire o pé do chão), fazer querrinha, entre outras coisas. Eu quero que meu filho ou minha filha brinque muuuuuuuuuuiiiiiiiiiitttttttoooooooo.

Minha opção será apresentar-lhes músicas que falem da vida infantil, das brincadeiras, da gostosura de ser criança. Querer ir mais alto ou mais fundo, ou dizer que tem sede de justiça e não de refri ficará para uma outra oportunidade. Vamos ser criança. E brincar é aproveitar esse momento que Deus criou para se ser criança quando se é criança. A criança precisa saber que tem um Deus mas tem de esquecê-lo para brincar sem medo. Sem medo é brincar despreocupadamente; sem ter que fazer coreografia pra Jesus, cantar pra Jesus, brincar, pular, dançar, tudo pra Jesus. Chega, pô.

Deixe a criança brincar por brincar. Deixe ela ser feliz.


Que desejamos para os nossos filhos? Que eles sejam felizes. Sorrimos ao vê-los por aí a correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas coisas de criança. Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós. Se um filho, ao se levantar, viesse até você e o elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem. O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em nós. Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque não o está respirando. A fala indica uma ausência.”1


Que tal?








1Rubem Alves em Perguntaram-me se acredito em Deus. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007 (2ª reimpressão). Pág. 53/54






6 comentários:

Leonardo Alves segunda-feira, outubro 13, 2008 12:41:00 PM  

Adriana Partimpim é bem legal para a pequenada, não é mesmo? Sou professor e trabalho com criança o dia todo. E a música é a melhor forma de pôr a miudagem para trabalhar. Para quem como eu não pode desgrudar da criançada, fica um link para uma rádio que eles vão amar:
http://cotonete.clix.pt/ouvir/radios/tematica.aspx?id=76
Com os meus alunos resulta sempre!

cmhochmuller segunda-feira, outubro 13, 2008 10:41:00 PM  

Puxa, Levi.
Lamento pelo domingo estragado. Um lugar tão bonito, um momento tão especial e uma vizinhança com um tremendo mal gosto. :/
Façamos assim: ano que vem passamos todos juntos o dia da criança.
A Chloe poderá ensinar váááárias artes para o baby de vcs. ;)
Um abração apertado!

PS: Teu comentário já está respondido lá no blog. Meu irmão, meu amigo, relaxaaaaa. :)

Zek quinta-feira, outubro 16, 2008 9:29:00 AM  

Eu vejo isso na minha realidade, atualmente... Deus fala muito mais comigo hoje quando ouço " o rappa", " Los hermanos" do que com nossos irmãos " super felizes, extravagantes e conquistadores".
E com a garotada não seria diferente, infelizmente

Levi Nauter quinta-feira, outubro 16, 2008 2:44:00 PM  

Leo, Camila e Zek:
Sinto-me um privilegiado em ter leitores como vcs. Obrigado pelos comentários.

Leo e Zek, mandem mais sobre vcs. Onde me descobriram?

Continuem lendo-me. E comentando.

Abraços,

Levi Nauter

Eliézer segunda-feira, dezembro 08, 2008 3:32:00 PM  

Olá !

Já conhece um cantor/autor chamado Stênio Marcius ?
É praticamente um desconhecido do mundo gospel, mas quem tem ouvidos para Sérgio Pimenta, Jorge Camargo e João Alexandre perceberá a boa procedência de suas canções com poesia e melodia da mais alta qualidade; letras profundas e músicas tocantes.
Tem um CD para crianças, muito legal. Há algumas coisas dele no Youtube. Pelo que percebi de suas postagens, acho que você vai gostar.

Abraços de outro desencaminhado da igreja, mas mais perto de Deus do que nunca.

Eliézer.

Levi Nauter terça-feira, dezembro 09, 2008 8:42:00 AM  

Eliézer:
Obrigado pela dica. Ouvi, dia desses, o Stênio, num pequeno vídeo no site Cristianismo Criativo e achei interessante aquele sisudo senhor com uma bela sensibilidade.

O que mais me interessa - por ora - é que continues lendo-me e compartilhando mais sobre essa "fé na contramão".

Grande abraço,

LNM

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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