[je$u$, um bom negócio] – texto 3

Levi Nauter
Não sou alguém paciente. Infelizmente não consegui a proeza alardeada pelos pentecostais que dizem desfilar com os frutos do espírito[i]. Escutando alguns falarem, até parece um passe de mágica: aceitou a Cristo como o Senhor e, no pacote-salvação, o fruto está dado. Ledo engano. Os frutos do espírito não são do tipo ‘pague um, leve dois’. Pois, a longanimidade está longe de mim, quanto mais eu corro mais longe ela fica. Numa agência bancária isso fica claro. Minha sensação é que os bancários, embora não me conheçam, me amam, não vivem sem mim. Seu eu fosse um herege, diria que sem mim eles nada podem fazer – o que, de certa forma, é verdade. Experimente olhar para os enfileirados com vários boletos e carnês, é desesperador estar atrás deles. O que fazer?

Pouco se pode fazer. Outro dia tive uma idéia: a Lu ficaria na fila enquanto eu daria uma volta. Deu certo. Pra variar, visitei uma loja de CDs e uma livraria. Havia muita gente no balaio de CD; uma enxurrada de baixa qualidade poética e harmônica, para meu gosto, claro. Lembrei das livrarias evangélicas. Com raras exceções, os CDs mais vendidos têm, em geral, baixa ou nenhuma qualidade poética, melódica; porém, os preços são do alto. Até parece que o ‘irmão’ proprietário assim pensa: “é agora que vou tirar meu pé do barro e aumentar meu dízimo”. Cassiane, Marcus Witt, Michael W. Smith (com seu típico americanismo de fazer sempre mais de uma versão da mesma produção coisas. Por isso, Worship 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9...), entre outras celebridades ‘góspeis’. Felizmente, nos balaios, se bem procurarmos, conseguiremos bons achados – já comprei Guilherme Kerr, Pedra Coral, bem como Rita Ribeiro, Nei Lisboa, Chico César e até Chico Buarque. Por que mais não-cristãos do que cristãos? Possivelmente porque livraria evangélica não gosta de balaio e, ainda por cima, poucas dão desconto. Deve ser culpa da obra...


Retomando o que dizia, enquanto a Lu ficava firme e forte na fila eu, após bisbilhotar a loja musical fui para outra, não menos musical (as palavras são tão lindas quanto a música, possuem ritmo, ginga). Adoro livrarias e sebos. Cheirar, alisar, folhear ou simplesmente olhar um livro já é um privilégio. Todavia, algumas decepções foram inevitáveis. Muito livro espírita. Sei que devo respeitar a diversidade pós-moderna e humana, o que não entendo é como gostar de algo cujo teor já se sabe desde o princípio da leitura. Noutra prateleira, as bobagens do desvendamento. Há uma mania humana de querer desvendar ou dar receitas sobre todos os aspectos da vida, tanto terreais quanto metafísicos. Ando inquieto com essa busca frenética por desvendar, desmentir (e tantos outros sinônimos) o Código da Vinci. São crentes e não crentes querendo, no fundo, uma fatia financeira desse bolo. Na seção de revistas, uma fofocada atrás da outra; o ensino do ponto cruz; as dez melhores da playboy; as mais isso, as mais aquilo.


Um pouco cansado, tomei fôlego e continuei. Vendas. Títulos mais ou menos assim: ‘o vendedor pit bull’; ‘sete alguma coisa do vendedor altamente eficaz’; os clássicos Pai Rico, pai pobre. Como enriquecer? Comprando os títulos das prateleiras. Ah, ‘quem mexeu no meu queijo (para adulto, jovens e crianças)’; Arte da guerra (para homem e para mulher). Ufa! Cansei.


Não agüentando mais, descobri que Jesus estava sendo um bom negócio. Olhei pra cima: Jesus, o maior psicólogo que já existiu; Jesus, o maior líder que já existiu. Olhei, digamos, para o meio: O monge e o executivo (a história de um cristão) e, na mesma onda, Como se tornar um líder servidor. Adiante, Se eu quiser falar com Deus; Os segredos do Pai-Nosso. Ainda havia uma série na qual cada obra iniciava com o título O Mestre: O Mestre dos Mestres, O Mestre da Sensibilidade, O Mestre da vida, O Mestre do amor, O Mestre Inesquecível – todos enfocando algum aspecto de Jesus. Quando não agüentava mais a raiva, terminei lendo o título As cinco pessoas que você encontra no céu[ii].


Saí brabo da livraria. Sentei num banco (que não tinha dinheiro) e pensei: “bah, Deus, por que eu não tenho umas idéias assim pra ganhar dinheiro? Como Deus, em sua sabedoria e soberania[iii], achou por bem não me responder, tentei ligar música e livro. Fiquei refletindo o seguinte: se Deus viesse ao mundo hoje, Ele poderia descer nos EUA. Lá, encontraria um pouco de gente de cada lugar do mundo, palestraria às grandes corporações e, escrevendo, poderia tornar-se um best-seller. Nem tão diferente assim, se nascesse no Brasil, talvez fosse morar na Cidade de Deus. Então cresceria, participaria de fóruns sociais, seria um articulador duma CUFA (Central Única de Favelas), escreveria também um livro do tipo Falcão e, por saber todas as palavras, poderia ser um raper. Em qualquer lugar poderia ganhar dinheiro.


Fiquei mais intrigado: e por que eu não ando pra frente? Será que a saída poderá ser montar uma igreja? Afinal, aqui no Sul já está se tornando moda.


[i] Gálatas 5.22.
[ii] Todas as obras citadas nesse parágrafo são da editora Sextante.
[iii] Lc 11.49; 1 Co 1.23 e 24, 2.7; 1 Tm 6.15; Jd 1.4.

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Sobre este blog

Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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