[desintoxicação 2 – sugestão de leitura] – levi nauter

Levi Nauter







Demorei quatro dias para ler e 'comer' o e-book “Neuroses eclesiásticas...1. Este livreto (chamo-o assim pelo tamanho e não pelo conteúdo) é do pastor, professor e teólogo Karl Kepler. Eu odeio títulos; no entanto, aqui parece-me importante frizar a atuação e a formação do autor para indiretamente dizer da boa fundamentação do livro. Ou seja, a obra baseia-se na prédica e na prática, na experiência que advém da leitura teórica, calcada na mesma experiência que vem da leitura do mundo, do estar vivo. Das interações entre esses processos.

Sou um leitor chato, bem chato. Sempre que leio algum livro ou alguma obra2 fico como que 'no pé' do autor ou do narrador a fim de verificar sua coerência ao longo do que está sendo dito. Desta forma, rabisco, faço anotações, consulto dicionários, brigo ou me emociono com o texto. Não faço isso pelo mero prazer de captar erros ortográficos ou contradições sutis, mas porque assim cresço; assim é que leio as entrelinhas, o por trás das palavras – o que eventualmente está para ser desvelado.

O que me atrai num livro que pretende ser obra é a humildade que vai aparecendo no decorrer do texto. Karl começa agradecendo “às várias pessoas que contribuíram para este esforço de auto-exame...”, isto é, uma obra escrita nunca é solitária e sim fruto de coletividade(s) . Em seguida, na pág. 2, deixa claro que “...tem a esperança de ajudar-nos...”; não há, portanto, promessas mas intenções. Já no corpo do livro – propriamente dito – ele reconhece: “minha capacidade é bastante limitada” (p. 3). Acho importante esses reconhecimentos porque eles dizem muito da prepotência ou não do autor. Incomoda-me um livro que propõe a descoberta da roda, ou aqueles que afirmam que, após a leitura, 'sua vida não será mais a mesma' e, no entanto, lemos e continuamos os mesmos. A humildade chega mais perto do leitor e por isso impactua, sem dizer. Ela também aceita o contraponto, o diálogo e não o monólogo.

Continuando, Neuroses Eclesiásticas... subdivide-se em dois tópicos: I- as más notícias e II- as notícias boas. Na primeira parte é feita uma espécie de foto áerea da igreja, com algumas tomadas de imagens de eventos importantes do momento de culto no templo (como, por exemplo, a pregação, o louvor e a adoração). Por que existe essa avalanche de más notícias? Karl propõe um “diagnóstico tentativo” que nos leva ao medo. Medo de Deus. Em algum ponto da nossa caminhada cristã houve uma confusão entre temer e ter medo. Ficamos com a última hipótese. Ocorre que muitos não admitem esse medo. Preferem crer que têm o temor com tremor. Mas a experiência clínica de Karl (que é psicólogo) termina por nos desvelar quem somos – mesmo que não admitamos.

A segunda parte da obra é um alento para os que já perderam ou estão prestes a perder a esperança com a igreja. É uma ode aos cansados de igreja, um alívio aos que vêm martelando suas consciências por títulos (como os de 'desviados') empregados pela teologia do medo. Fica claro que a obra é de crente pra crente. No entanto, esse alívio e essa ode não vêm em forma de apologia para que se abandone essa ou aquela denominação cristã. Vêm para que, ao contrário, se tenha uma transcendência a todo tipo de nomenclatura e se vá mais fundo na ponderação de tudo aquilo que nos ensinaram, ensinam ou ensinarão a respeito do que seja servir a Deus. Aliás, servimos ou somos filhos de Deus? - essa questão está lá posta (p. 20).


Merece destaque a exposição que o autor se faz nas páginas. Não se exclui das dúvidas, nem sonega do leitor as descobertas pelas quais foi passando, o que nos impulsiona, se não pelo conteúdo teológico, pela curiosidade de saber aonde ele foi parar. Desmitifica (e desmistifica) assuntos superficialmente ou vesgamente tratados em algumas igrejas evangélicas – sobretudo as neopentecostais (a santificação me parece o exemplo mais significativo).

Uma obra que merece ser lida porque faz um severo e claro exame da nossa condição de cristãos na contemporaneidade. Leiamos:

As pessoas de fora da igreja consideram o crente como 'aquele que não faz isso, não participa daquilo, não prova daquiloutro', ou seja, uma identidade negativa. O crente é visto como um ótimo funcionário, bom trabalhador, mas péssimo para se conviver, sem disposição de se sociabilizar” (p. 5)


Ao criticar a hierarquia (que algumas igrejas, pelo menos aqui no Sul, chamam de autoridade) eclesial o autor nos informa que o efeito é ampliar “no cristão comum, aquele sentimento de pequenez, de incapacidade própria”(p. 6). Eu diria, ampliando, que esse efeito se estende aos meandros da nossa atuação na sociedade, temos medo de nos expor. Então, “comportamo-nos como crianças com medo de se arriscar: melhor não se envolver com essas coisas...” (p. 10).

Há uma denúncia contundente na obra que merece destaque – até porque sou parte dessa estatística:

...muitos, na busca por um crescimento e amadurecimento (que equivale a dizer na busca de mais verdade), tiveram de sair da igreja, pois não podiam ser verdadeiros e maduros lá dentro. Triste situação, mas infelizmente cada vez mais comum...” (p. 16)


É bom que se diga que tal denúncia não vem solta, sem contexto. Ademais, o autor friza seu descontentamento no mesmo momento em que denuncia. E, prosseguindo com a leitura, vamos notar que parece existir um situação na qual a melhor saída (ainda que provisória) será dar uma espécie de tempo. Afinal, a hierarquia eclesial dificilmente não atrela questionamentos e indagações com rebeldia. E, paradoxalmente, nosso sentimento de pequenez está mais ante a figura de um pastor, por exemplo, do que com Deus. Isto significa dizer que sabemos (ainda que de maneira superficial ou sem muita certeza) que Deus não nos abandona; já a pastorada...

Parece-me que nesse contexto fica ótima a (re)lembrança que o autor nos faz: “Deus é seu Pai, não seu dono ou empregador”. E mais: “só podemos brigar com alguém próximo com certeza de não sermos expulsos de sua convivência se sentirmos que o vínculo está garantido, que há de fato amor” (p. 21).

É extremamente importante encontrar obras como essa. Para quem, como eu, está passando por um período de desintoxicação religiosa, nada mais prazeroso, confortante e alentador sabermo-nos todos, sem exceção, pecadores, carentes da graça e da misericórdia de Deus. Isso são boas-novas. Infelizmente as mensagens dos domingos em muitas igrejas são como o Domingão do Faustão, cheias de atrações que servem para pouca coisa.

Meu domingo ficou muito melhor enquanto lia Neuroses Eclesiásticas e, depois, quando ouvi a bela voz da também bela Céu cantando a música '10 contados' (composição da própria cantora junto com Alec Haiat). Parecia Deus fechando o dia com chave de ouro, dizendo que tudo estava sob controle. Observemos a letra da música:


Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor não, não, não
Meu amor não se atrase na volta não
Meu amor, meu amor, meu amor, quem mandou?

Mandei uma mensagem a jato às entidades do tempo
Já me foi verificado que nem mesmo haverá segundos
Que os minutos foram reavaliados e que pra cada suspiro serão 10 contados


É, há tempo pra tudo – como já nos adiantava o sábio em Eclesiastes 3.1-8.




Para quem quiser ouvir a música

http://www.youtube.com/watch?v=W9-skxDQvqk




notas

1Disponível em http://www.cppc.org.br/textos/Neuroses Eclesiasticas.pdf

2Esse é um tópico muito pessoal, não sei se existe teoria a respeito. Como não fico preso a essa burocracia acadêmica, fiz minha própria opção. LIVRO é aquilo que está publicado (no papel ou na internet, por exemplo) e tem alguma intenção junto ao leitor. OBRA é igualmente isso, o diferencial é ter a capacidade de perpetuar-se devido ao conteúdo que aborda, a forma como expõe tal matéria e/ou as implicações que provoca no leitor/leitora. Portanto, exclusivamente neste aspecto, nem todo livro será obra, mas toda obra será um livro. É um conceito de leigo, mas que – para mim – vem funcionando. Considero-me chato porque opto por continuar a leitura de obras.

A ficção não se encaixa nesse parâmetro, uma vez que considero que arte é arte – não tem compromisso de mudar nada. Apenas representa, sugere, mostra, questiona, apanha. Na arte a estética me parece mais importante. Mas, apesar de tudo, não consigo descartar uma ideologia. Para mim, não existe obra (livro, arte etc) neutra.



5 comentários:

cmhochmuller quarta-feira, dezembro 17, 2008 8:45:00 AM  

Gostei, Levi.
Agora fiquei mais interessada. :)
Cada novo convertido deveria ganhar um exemplar destes ao entrar na igreja. Uma espécie de máscara de oxigênio no caso de uma pane no sistema. ;)
Abração!

Pr. Cláudio Moreira quinta-feira, dezembro 18, 2008 10:15:00 PM  

Professor:

Confesso que fiquei bastante curioso com a leitura. Gostaria de saber onde encontrar.
Minha percepção, talvez para você, pareça suspeita, uma vez que estou dentro daquilo que você chama de hierarquia. Entretanto, quero que acredite que comungo, sinceramente, das suas preocupações sobre a coerência da nossa fé - afinal, o povo de Deus está servindo a Deus ou está cada vez mais servindo a "sistemas" neuróticos, fisiológicos e doentios?
Se servir de alguma coisa, quero dizer que também tenho feito algumas leituras iluminadoras, no melhor sentido da palavra. Um deles é o livro "Crer é Também Pensar", de John Stott, tão sublime que me vi tentado a digitá-lo, letra por letra, no meu blog, para disponibilizá-lo ao mundo. Entretanto, a empreitada não seria honesta com o escritor, que ainda vive, e precisa dos seus direitos autorais.
Outras leituras - essas sim, de domínio público - são do imortal Lutero. "A Liberdade do Cristão", um libelo em favor da liberdade que Cristo nos confere, e "Da Autoridade Temporal e em que Medida se deve Obedecer a ela". Alguns pregadores que andam falando asneiras extra-bíblicas sobre a tal "autoridade espiritual" e que falam de submissão como quem fala de subserviência, deveriam ler estas duas pérolas, que deveriam ser obrigatórias nos institutos teológicos mundo afora.
Um forte abraço, e quando quiser, visite-me. Nem que seja virtualmente.

Ane de Mira sexta-feira, dezembro 19, 2008 2:59:00 PM  

Creio sermos unânimes sobre a vontade de ler o livro. E acrescento que toda teoria deve ser questionada mediante a prática. É lamentável que o lugar, para mim, onde mais se pratique a hipocrisia seja na Igreja. A esperança permanece em saber que há pessoas que se preocupam em fazer perguntas e não aceitar tudo como lei divina.
Abrazos.

Levi Nauter sexta-feira, dezembro 19, 2008 7:02:00 PM  

Obrigadaço, Camila, Claudio e Ane.

Leitores como vcs aumentam minham responsabilidade. Se bem que meu único interesse é compartilhar/dialogar, ou seja, não necessariamente ter a palavra final.

Quanto a encontrar o livro, basta copiar-colar o endereço da NOTA 1, logo abaixo do meu texto, para baixá-lo em formato PDF.

Também é possível acessar diretamente o site do CPPC:
www.cppc.org.br, clicar em TEXTOS E PUBLICAÇÕES e, em seguida, em LIVROS e tudo estará lá para informações ou download.

Bom proveito. Vale a pena.

Proponho-me continuar o diálogo.

PASTOR CLAUDIO: visito teu blog semanalmente. Devido a falta de tempo não tenho comentado. Um dia, de repente, vou conhecer São Gabriel/RS.
Abraços,
LNM

Beto segunda-feira, dezembro 29, 2008 6:45:00 AM  

Fiquei curioso vou ler...tem haver com o que tenho refletido nestes ultimos anos ... filho e servo tem diferenças significantes.. como disse Jesus... chamo de amigos...

grande abraço Levi

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Para pensar e refletir sobre o cotidiano de um cristianismo que transcende as quatro paredes de um templo.


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LEVI NAUTER DE MIRA, doutorando em educação (UNISINOS), mestre em educação (UNISINOS) e graduado em Letras-português e literatura (ULBRA). Tenho interesse em livros de filosofia, sociologia, pedagogia e, às vezes, teologia. Sou casado com a Lu Mira, professora de História, e pai da linda Maria Flor. Adoramos filmes e séries.

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